Divulgação/Fruit Tree Media
Perdas, dores e memórias
- Nelson Marques
GIRAMUNDO VIU A Verdadeira Dor (2024), comédia dramática do diretor Jesse Eisenberg – que também assina o roteiro –, pode ser considerada uma obra-prima de realização e está disponível no Disney+. Eisenberg tem investido na direção de longas-metragens e começa a se destacar no mercado internacional do cinema.
O filme tem enredo simples: dois primos, David e Benji, viajam numa excursão à Polônia após a morte da avó, para explorarem suas raízes judaicas. Na verdade, a simplicidade da história se revela apenas aparente, pois vão surgindo complexidades emocionais profundas a partir da relação entre eles.
David é vivido pelo próprio Eisenberg. Benji é interpretado por Kieran Culkin, cujo desempenho no papel lhe garantiu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2025. A trilha sonora, feita unicamente de excertos de peças de Chopin para piano solo, ajuda na criação de um clima emocional terno e cativante.
O roteiro não se ocupa com a historiografia das origens judaicas dos personagens nem os horrores do Holocausto para esmiuçar o terror da Segunda Guerra e do nazismo. A Polônia, o Holocausto e a própria guerra servem mais como pano de fundo para mostrar os conflitos internos e as tensões de David e Benji, profundamente distintos em suas personalidades e na forma como lidam com as emoções.
Enquanto David é contido e introspectivo, Benji é expansivo, caótico e vulnerável. A maestria de Eisenberg na direção consiste em mostrar como essa dualidade é tratada de maneira honesta e sem julgamentos. Apesar da simplicidade da trama, o filme se destaca justamente por não dar respostas fáceis sobre os conflitos entre os primos, ou como tratam a perda, a dor e as memórias.
Culkin, com sua atuação irrepreensível, rouba a cena como um Benji emocionalmente instável, mas muito carismático. Por sua vez, Eisenberg encarnando David, mais reservado, serve como um contraponto perfeito para a energia um tanto caótica de seu primo.
A montagem do filme, realizada por Robert Nassau, deve ser destacada pois contribui muito para a qualidade do conjunto roteiro-direção-trilha sonora-atuações. É ela que permite que as emoções dos personagens se desenvolvam de maneira lenta e palpável. Há uma exploração silenciosa do que significa carregar o peso das emoções não expostas, da dor que se acumula sem ser compartilhada, e ainda do aprendizado gradual de como se conectar com o outro. Tudo isso para reforçar a ideia de que a verdadeira dor está subjacente, no que não é dito, mas vivido. Em síntese, um filme emocionante.
Saí do cinema atordoado, sem saber se havia gostado ou não. Talvez ter ficado surpreso e atônito sejam as sensações que melhor descrevem o impacto provocado pela história pungente, um grande acerto de roteiro e de direção. O filme é um poema de profundo lirismo. Uma jornada intimista muito bela, simples e com muitas repetições, mas profundamente humana com lições de vida marcantes.