Flávio Rezende
Sons da praia
- Flávio Rezende
A parabólica nos babados da vida cotidiana captando vendedores cheios de garra e garras
Mais uma vez na Pipa para um trabalho fotográfico e convivência com amigos residentes no paradisíaco balneário internacional, abro ouvidos a vendedores ambulantes praianos que ofertam toda espécie de produtos e serviços, em português, espanhol e até arriscando no inglês muito particular. É de pensar que alguns deles tiram a maresia e o sal no fim do dia e vão batalhar vendas naquela fantástica e agitada rua principal do vilarejo – que nosso editor Heraldo Palmeira (figura local do balneário) e sua turma chamam de “Broadway”.
O cenário cosmopolita da Pipa enriquece a estadia com sonoridades e performances, e um observador bem-humorado e atento às sutilezas desses pequenos momentos pode retirar deles verdadeiras pérolas. Como a simples troca de uma letra – “g” por “s” –, que transforma brigadeiro no “brisadeiro” anunciado candidamente por ambulantes com seus Tuppewares, onde a “brisa” da cannabis incluída na receita orienta a mudança fonético-ortográfica da palavra.
Um desses momentos rolou na chegada à praia do Amor, na abordagem de um vendedor de determinado passeio. Ao ouvir de minha amiga Hasya “eu moro na Pipa”, ele não poupou sinceridade e simpatia: “Odeio moradores da Pipa”. Caí numa gargalhada tão sincera quanto a frase de frustração do sujeito, e restou um clima de alegria.
Já na beira-mar e entregues aos prazeres dos comes e bebes, ouvimos um rapaz oferecer passeio de barco aos jovens da mesa vizinha. Diante da recusa e percebendo que estavam muito focados em selfies e fotos diversas, disparou: “Se forem ao passeio, vão poder posar de ricos”. Preferi a gargalhada interior, silenciosa, e refleti sobre a psicologia envolvida. Muitos realmente não curtem os passeios, vão só para dizer que foram e expor situações que possam causar admiração nos seus seguidores das redes sociais. Nesse modelo de relações superficiais vigente, as aparências escondem as precariedades. Dizer e mostrar que está em um balneário de fama internacional é o que importa e aquele vendedor é suficientemente escolado para explorar a questão com maestria numa preciosa observação “vão poder posar de ricos”.
Chegou outro oferecendo queijo assado caríssimo, já avisando que a qualidade superior do produto permitia cobrar aquele preço pra lá de salgado. Sem perder tempo, um concorrente que passou na mesma hora anunciando a mesma coisa pela metade do preço fez beicinho, como que dizendo “esse brother é conversa fiada!” – juro que ouvi isso naquela pantomima silenciosa.
Eis o mundo das praias: um cipoal incalculável de ofertas, ainda mais em destinos turísticos consagrados como a Pipa. Vendedores de tudo, preços modificados pela cara do freguês – os gringos, fama de ricos em moeda forte, sofrem! –, filósofos ambulantes, seres diversos com interesses vários…
E a vida vai fluindo maravilhosa. Sol, céu azul, encontros, festas, banhos de mar, sabores, tragos, luaus, sons, arte de rua, paixões… Sim, às vezes é preciso paciência e humor para encarar uma vida cada vez mais retalhada em pequenos prazeres, mas é o que temos para hoje porque o tempo é outro, este que está aí.
E assim caminha a humanidade, cheia de mungangas e presepadas. Adoro a vida em suas milhares de possibilidades de felicidade, até nestas ouvidorias públicas de vendedores criativos e sinceros. O mais importante é fluir, ser feliz, deixar cada qual no seu cada qual e seguir aproveitando da melhor maneira.
Que situação! Assim são as coisas como elas são. Lido com isso rabiscando meus escritos da alma. Luz!
*FLÁVIO REZENDE, fotógrafo da vida