Alexas Fotos/Pixabay
Novidades instantâneas
- Heraldo Palmeira e Kalunga Mello Neves
Quando um monte de bobagens é suficiente para transformar zé ruelas em celebridades, o “trem” tá feio!
Sinceramente? Não entendo mais nada há muito tempo. Ou melhor, quando procuro entender, e faço um esforço danado para isso, a vulgaridade, que está em todos os lugares, me puxa pelo braço e sussurra ao meu ouvido: “Te aquieta aí no teu canto, que dói menos”. Voilà!
Lembro de época não muito distante que as ocupações tinham nomes mais específicos e perfeitamente entendíveis, de acordo com o que realmente definiam. Médico, professor, advogado, dentista, motorista, cronista social, repórter policial, gerente geral, balconista, gari (ou lixeiro), cantor, dona de casa, professora, bicheiro, prostituto/prostituta, policial… E por aí vai.
Hoje nos deparamos com CEO, influencer, coach, gerente de TI, desenvolvedor back-end sênior, diretor de P&D, modelo (nas suas mais diversas atividades, às vezes tratado como ator/atriz), chef, professor (para treinador de futebol), MC, personal trainer, blogueiro… Empregado deixou de ser empregado, virou colaborador. Há uma onda de precarização do trabalho enfeitada pela palavra “empreendedor”. E não paramos por aí, a moda da IA promete muitos avanços, dentre eles desempregar pessoas em nome da eficiência e redução de custos de produção.
Tá certo, podemos considerar adaptação aos novos tempos e consequentemente surgimento de novas ocupações e perecimento de outras. Mas fica algo estranho no ar, principalmente para quem, como eu, já passou da idade de comprar novidades no dia do lançamento.
Outro fato que me deixa encucado demais da conta é a banalidade atual do substantivo feminino “celebridade”, que eu até achei que fosse um adjetivo. Na minha santa e sacrossanta ingenuidade eu pensava que caberia a quem realmente se superava em alguma atividade – profissão, contribuição para um mundo melhor e mais justo –, mas me enganei.
Qual nada, está claro que qualquer zé ruela que monte um pacote de bobagens – quase sempre constrangedoras pelo grau de estupidez – é sério candidato ao posto, àquela fama que ninguém consegue entender. Gente que até ontem não se sabia da existência e vira assunto em todos os lugares.
De quem é a culpa por essa infestação contagiosa de famosos de 15 minutos travestidos de notórios e botando banca de coisa e tal? Da mídia corroída e conivente, que sofreu uma síndrome de mediocridade assustadora e transforma insignificâncias em celebridades instantâneas? Das plataformas digitais cada vez mais poderosas ampliando a realidade paralela que domina o mundo? Da nossa falta de conhecimento e desinteresse diante de tudo, abandonando a crítica e a cautela ao que é imposto goela abaixo? Não sei.
Só sei que esse cenário não está legal, parece cada vez mais tóxico. Talvez a pergunta seja outra, simples e direta: por que todo mundo está de saco cheio e ninguém levanta a bunda da cadeira? Também não sei!
*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural | KALUNGA MELLO NEVES, escritor e brincante