Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

HAYTON ROCHA Sebo nas canelas

Filmbetrachter/Pixabey

Sebo nas canelas

  • Hayton Rocha

O encontro nada triunfal de esposa e amante ficou muito mis perigoso do que o risco cirúrgico. Prudente, o paciente colocou sebo nas canelas e se “empirulitou”.

No interiorzão da Bahia – onde até o silêncio cochicha saliências –, um episódio digno de novela mexicana sacudiu as redes sociais. Aconteceu num hospital, onde um homem de 48 anos, internado com cólicas renais, enfrentaria uma crise ainda mais dolorosa e fora do alcance da equipe médica: simultaneidade afetiva.

Tudo começou quando, num raro eclipse de juízo, esposa e amante resolveram visitá-lo no mesmo horário no Dia dos Namorados, cada uma munida de lanches, sucos, toalhas e expectativas. A recepção quase virou ringue, com troca de farpas e olhares enviesados que prenunciavam escândalo em andamento.

Do quarto, entre uma pontada no rim e outra no orgulho, o paciente pressentiu a iminente tragédia. Não hesitou: arrancou o soro do braço, correu até o banheiro, abriu a janela e – num rasgo de instinto ou desespero – atirou-se ao mundo com avental, chinelos e a autoestima em petição de miséria.

O vigilante, acostumado a chiliques e surtos de toda sorte, ficou perplexo:

– O homem passou voando pelo jardim, gritando que ia embora… com a bunda de fora!

As duas tentaram alcançá-lo, mas ele sumiu na poeira como quem abandona, no susto, a antiga pele no varal do destino.

Coincidência – ou pegadinha cósmica –, um amigo meu trafegava pela área quando freou o carro diante da figura em trajes sumários, ofegante, olhos de espanto como quem fora expulso da própria história sem direito nem à escova de dentes. Por um instante, achou que fosse um assalto em andamento. Mas, além da indumentária “criminosa”, bastou o homem entrar e abrir a boca para o teatro mudar de ato.

Era um sujeito articulado, desses que filosofam no meio do caos. Entre suspiros e goles na garrafinha d’água do meu amigo, começou a discursar sobre as contradições do amor moderno, com a desenvoltura de um Sócrates de porta de pronto-socorro.

– As pessoas vivem negando o óbvio – disse, ajeitando o avental para esconder as partes pudendas.

E emendou:

– Homens e mulheres não nasceram para a monogamia. Isso é invenção de Igreja e novela das nove. Como já dizia Raulzito, “amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade…” e “quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais…” E o Diabo rindo de todo mundo!

E seguiu, entre frases e pausas dramáticas:

– A fidelidade virou vitrine de loja: bonita por fora, oca por dentro. O desejo é teimoso como formiga em pote de açúcar: se reprime uma aqui, outra escapa ali. O pior é que nos ensinaram a censurar não só o próprio corpo, mas o da cara-metade também. Um pacto cruel de vigilância mútua. Não defendo a sacanagem pela sacanagem – completou, com ares de quem já atravessou descalço o deserto de espinhos dos sentimentos –, mas o relacionamento aberto, às vezes, é mais honesto que essa encenação do “até que a morte os separe”, com o coração maluco pra pular o muro e fazer check-in noutro endereço.

Meu amigo, monógamo convicto, que só escutava e não tolera guerra conjugal nem como espectador, fez o que lhe pareceu prudente fazer: cedeu uma bermuda e uma camiseta esquecidas no porta-malas e parou num boteco à beira da estrada, para abrir uma cerveja e organizar aquele caldeirão de teorias. Nem bem a segunda garrafa chegou, surgiram as duas mulheres do enrosco, faiscando pelos olhos e armadas até os dentes – de palavras, é claro.

Não houve tempo para trégua nem habeas corpus emocional. O filósofo virou novamente um Usain Bolt e desapareceu pela porta dos fundos, sem sequer agradecer a saideira, deixando no ar uma dívida antiga que nem Freud consegue quitar: entender o amor sem manuais.

E as duas ficaram ali, encarando meu amigo. Quiseram saber o que o fugitivo havia dito antes da chegada delas. Como não é homem de meias palavras e devoto de fidelidade canina no seu relacionamento afetivo, narrou com precisão quase jornalística o que ouviu.

Para sua surpresa, elas se entreolharam longamente, respiraram fundo e saíram juntas, lado a lado, como quem digere um xarope amargo, mas necessário. Um silencioso “É… faz sentido…” parecia ecoar entre as mulheres.

Ele pagou a conta e voltou pra casa. Afinal, como costuma dizer, não nasceu para ser árbitro de enroscos alheios – muito menos para testemunha ocular de adultério filosófico. Vai que algum delegado resolve intimá-lo, não para depor sobre o sumiço do paciente do hospital, mas para esclarecer, com todas as letras, o que é o amor e suas nuances em tempos de redes sociais e geolocalização.

*HAYTON ROCHA, escritor e blogueiro

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