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Doutor IA
- Heraldo Palmeira
Um anúncio feito pela Microsoft em 30 de junho deverá causar enorme impacto no ambiente da medicina e da saúde. Trata-se do Microsoft AI Diagnostic Orchestrator (MAI-DxO), um novo sistema de IA ainda inédito que promete superar a capacidade dos médicos na hora de diagnosticar quadros complexos de saúde.
A experiência teve como base casos de identificação de doenças descritos em 304 estudos publicados recentemente no prestigiado New England Journal of Medicine – com detalhamento de todo o processo de cuidado dos pacientes – e que foram utilizados para analisar a capacidade da IA seguir as etapas do diagnóstico.
A IA da Microsoft de um lado, e uma equipe formada por 21 médicos (com cinco a 20 anos de experiência profissional) que atuam nos EUA e Reino Unido de outro, realizaram novos diagnósticos nos mesmos 304 casos. O MAI-DxO teve 85% de acertos, enquanto o grupo alcançou apenas 20% – diferença de 4,25 vezes.
Não é pouca coisa e não para por aí: durante a análise do desempenho da ferramenta os pesquisadores também avaliaram o gasto de recursos de cada diagnóstico – por ser configurável, ela pode realizar diagnósticos considerando a relação de custo e benefícios dos exames, optando por aqueles de maior precisão e menores custos – e concluíram que a IA faz a mesma tarefa de forma mais econômica que os profissionais humanos. Além disso, o MAI-DxO também consulta outros sistemas de IA de alto desempenho, num procedimento similar ao trabalho de uma junta médica discutindo casos complexos.
Hoje, um enorme aparato de ferramentas digitais – que atende a mais de 50 milhões de consultas diárias – tem sido intensamente utilizado como suporte médico. Diante dessa realidade, a Microsoft intensificou investimentos em soluções voltadas para a área da saúde. “De uma primeira consulta sobre dor no joelho a uma busca noturna por uma clínica de atendimento de urgência, mecanismos de busca apoiados por IA estão rapidamente se tornando a nova linha de frente na área da saúde”, revela a empresa.
Em um cenário onde se multiplicam novas escolas de medicina cercadas de severas críticas à qualidade do ensino e dúvidas em relação à real capacitação dos profissionais que saem diplomados, a novidade tecnológica da Microsoft encontra terreno fértil para estabelecer vantagem competitiva.
Não bastasse essa compreensível realidade de descrédito do modelo de formação de novos profissionais, ao lançar um produto que se anuncia revolucionário e que obtém um desempenho muito superior ao de uma equipe médica internacional experimentada, é natural que a empresa busque minimizar o impacto e tranquilizar a classe médica afirmando que a nova ferramenta não vai substituir médicos, apenas complementar as atividades tradicionais que eles desempenham.
Também é fato que em todas as revoluções tecnológicas os profissionais mais qualificados logo encontram uma forma de adaptação. Não será diferente com os bons médicos, que disporão de uma nova ferramenta de suporte avançado para tomar decisões mais seguras. “Os papéis clínicos são muito mais amplos do que simplesmente fazer um diagnóstico. Eles precisam navegar pela ambiguidade e construir confiança com os pacientes e suas famílias de uma forma que a IA não foi criada para fazer”, entende a empresa.
Embora a própria Microsoft reconheça que, sem supervisão humana, a IA generativa ainda não é capaz de diagnosticar e dar encaminhamento a pacientes, e que ainda existem desafios importantes até que ela seja implantada com segurança e responsabilidade na área da saúde, o primeiro passo está dado e parece irreversível.
Mesmo assim, é impossível esconder que o sistema demonstrou uma capacidade muito superior à humana: “Nenhum médico consegue abranger toda a complexidade da série de casos do New England Journal of Medicine. A IA, por outro lado, não enfrenta esse dilema. Ela pode combinar amplitude e profundidade de expertise, demonstrando capacidades de raciocínio clínico que, em muitos aspectos (do raciocínio clínico), excedem as de qualquer médico individualmente”, reconhece a Microsoft em nota.
Por fim, há um fator decisivo a considerar: a posição de grandes investidores e operadores do setor de saúde diante de um produto que reúne tecnologia de ponta, background de uma gigante com escala mundial, ganho de eficiência e redução de custos operacionais. Sem contar que, muito provavelmente, vai eliminar postos de trabalho e suas demandas trabalhistas.
Essa nova IA deverá ter efeito positivo direto sobre pacientes que sofrem com as consequências nefastas de diagnósticos imprecisos ou tardios. É a notícia mais simples e a melhor de todas.