Mabel Amber/Pixabay
Banho de chuva
- Heraldo Palmeira
“Faz muito tempo que eu não tomo chuva | Faz muito tempo que eu não sei o que é me deixar molhar | Faz muito tempo que eu não sei o que é pegar um toró” (Gilberto Gil)
Surgiu no horizonte da manhã um daqueles domingos preguiçosos, ainda mais pelo tempo nublado. O primeiro chuvisco pode ter sido um aviso devidamente ignorado.
Olhei para o céu confiando na desconfiança de sertanejo, calculei 20 minutos para ir e outro tanto para voltar, e meti os pés no mundo em busca do café da manhã das meninas do Dona Mameluca, uma das casinhas coloridas do novo point gastronômico que se formou por ali nos últimos anos, pouco depois do posto policial.
O caminho, repleto de natureza exuberante com a maior parte em linha reta entre a beira da rodovia e o muro do condomínio, acompanha os carros passando apressados em busca de Pirangi – onde vive “o maior cajueiro do mundo” segundo a língua tupi do turismo – e outros diversos destinos do litoral sul.
A ida foi enxuta da porta de casa até a mesa de delícias regionais – frutas e sucos da estação, mel, iogurte, café, leite, pães, ovos, queijos, bolos, cuscuz, tapiocas e omeletes com uma série de recheios à escolha, preço justíssimo na hora da conta… E a relação de amizade com as pessoas do local, algo que não se traduz em números e permite mimos incalculáveis: eu chego perguntando se o fogo tá aceso e sequer preciso dizer o que quero; o filho da dona é um pernambucaninho fanático pelo Sport e meu companheiro de resenhas esportivas.
Depois da prosa de lei e de completar de novo a xícara de café que já ia outra vez pela metade, hora de encarar o tempo um pouco mais fechado encobrindo de nuvens o caminho da volta. Quase na metade, a chuva me deu seu bom-dia molhado e onipresente, reforçada por aquele vento que espalha o carinho por todos os lados.
Fazia tempo que eu não tomava um banho de chuva. A última lembrança era dos tempos da infância no interior, quando a gente saía correndo e gritando pelas ruas em busca das bicas mais fortes. Talvez nossa gritaria infantil fosse a forma de festejar e reverenciar a natureza, porque chover naqueles rincões é sempre mais raro do que naquele meu caminho de agora, beirando o litoral com o mar a menos de 200 metros em linha reta.
A chuva caindo e me peguei assobiando Sonho Molhado, uma música autoexplicativa de Gilberto Gil e parte integrante de Luar (1981), um dos seus álbuns mais ligados à natureza e à percepção da vida a partir da contemplação e da conexão com fenômenos naturais.
“De tá na chuva quando a chuva cair
De não correr pra me abrigar, me cobrir
De ser assim uma limpeza total
De tá na rua e ser um banho
Na rua, um banho”
No mundo dos carros, as pessoas passavam ao largo olhando com certo espanto. Talvez achassem que o mais esperto era não ter saído a pé naquele tempo. Cada cabeça uma sentença, eu estava me divertindo à beça e me proibi de apressar o passo.
O chapéu-panamá havia cumprido à risca seu papel de proteção do sol que não houve na ida. E foi perfeito na volta, segurando a chuva fora da cabeça, mantendo os óculos sem respingos. Já os velhos chinelos Crocs, do modelo original, cumpriram em parte sua tarefa. Sim, mantiveram a aderência ao solo molhado, mas não impediram a poeira acumulada dentro virar areia molhada com os pingos que entraram pelos orifícios desenhados para refrigerar a o dorso do pé. Muito menos que entrasse mais areia molhada pisada no caminho e os dedos ficassem arranhados.
O trecho sob as mangueiras frondosas da estrada abrandou a sensação de travessura porque a chuva ficou barrada além das copas. A parte final teve uma parada rápida na torneira ao lado da portaria do condomínio, para remover a areia dos chinelos. Os pés ficaram aliviados para o restinho de caminhada até a porta de casa.
Depois de tudo, um reconfortante banho morno seguido de um café de cápsula, que encheu o ambiente com o aroma de chocolate trufado – duas delícias, o aroma e o sabor.
O Sol reapareceu tímido, mas suficiente para secar as roupas, o panamá e o par de chinelos. Como um pedido de desculpas da natureza pelo banho de chuva inesperado que não me soou como ofensa. Ao contrário, um enorme agrado que molhou as lembranças da infância como se o tempo não tivesse passado.
Algo fácil de explicar: a vida reserva bons imprevistos e nem tudo deve acontecer sem imprevistos para aparecer impecável nas redes sociais..
Trecho incidental Sonho Molhado (Gilberto Gil)
*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural
Ouça no link
Sonho Molhado https://www.youtube.com/watch?v=vRTlJKC1vU0&t=11s