Graehawk/Grae Dickason/Pixabay
Final infeliz?
- Heraldo Palmeira e Kalunga Mello Neves
“Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe | E tropeçou no céu como se ouvisse música | E se acabou no chão como um pacote flácido | Agonizou no meio do passeio público | Morreu na contramão atrapalhando o sábado” (Chico Buarque)
A vulgarização da morte inquieta a vida a ponto de inserir um tom de aflição medrosa no viver, algo que nem a poética buarquena consegue suavizar. O que fazer diante das pitadas de desconfiança e amargura que nos sobressaltam todos os dias, exatamente por que não sabemos quando será e como se dará o bendito “maldito dia”?
Há espalhada uma cultura infelicidade coletiva que ganhou corpo com a importância que a desgraça passou a ter nas redes sociais e na mídia tradicional, tudo pela audiência. Reconheceu o cenário mal iluminado? Sim, é o núcleo de infelicidade da novela que acompanhamos no cotidiano como figurantes. O joio que não sabemos mais separar do trigo. O vinhoto que escorre dos nossos dispositivos eletrônicos, polui nossas vidas e consome nossas almas. Aquela imagem de zumbis zanzando abestalhados começa a parecer perigosamente real.
Com tantas impurezas misturadas, a sociedade aboliu “empatia” do seu linguajar em favor de uma curiosidade mórbida com cada vez mais adeptos. Uma gente ávida por finais infelizes, sempre pronta a relativizar tudo e transformar coisas escabrosas em memes. Pode ser queda de avião, feminicídio, execução, atirador solitário, casas levadas por enchentes… Será recompensado com likes quem conseguir as imagens mais chocantes das tragédias diárias.
E assim caminha a humanidade, como no filme que a vida real contaminou com tragédia e sucesso pela morte prematura do ator James Dean antes do lançamento. Hollywood, que já havia transformado sua nova estrela em ícone cultural da moda personificando desilusão adolescente e distanciamento social, glamorizou a fatalidade do jovem de 24 anos em alta velocidade num Porsche 550 Spider apelidado de “Little Bastard” (pequeno bastardo). Nada muito diferente do que temos hoje.
E assim também caminha a humanidade tragada como parte impotente, inerte, desinteressada. É ela que sempre embrulha tudo no manjado pacote de hipocrisia e finge que o mundo é bom, escorregando em bordões surrados para garantir que somos guerreiros, um povo abençoado e que Deus é nosso compatriota.
Na verdade, somos presas fáceis, o gado que transforma em trombeta do apocalipse qualquer voz discordante das narrativas dos grupos dominantes, que defendemos sem questionar e, não raro, devotando gratidão por coisa nenhuma.
Por esse pão pra comer
Por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer
A concessão pra sorrir
Por me deixar respirar
Por me deixar existir
Pela cachaça de graça
Que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça
Que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes
Que a gente tem que cair
E pelas moscas-bicheiras
A nos beijar e cobrir
Deus lhe pague
O que está realmente acontecendo ao nosso redor? O que sempre aconteceu, com a diferença das adequações de cada época. Quem já não recebeu postagens com informações inacreditáveis e fica tentado a acreditar nelas por pura preguiça mental? Ou não perdura até hoje, passados 62 anos, uma das mais famosas teorias da conspiração, atribuindo o assassinato de John Kennedy ora à CIA, ora à máfia italiana, ora à KGB? E a versão que sobrevive há oito décadas sobre Hitler ter fugido da Alemanha, levando aviões carregados de ouro para viver num lugar ermo e secreto da Argentina por muitos anos? Às vezes é mais interessante não desmanchar lendas, até para manter um certo mercado (pesquisas, livros, filmes) e facilitar sua continuidade usando novos acontecimentos de grande interesse público. Quanta decepção para a fantasia se não restasse dúvida que Kennedy foi morto por um sujeito confuso e Hitler se suicidou covardemente em seu bunker. E que o carro fatal de Dean não tinha maldição alguma, apenas uma sucessão de coincidências incomuns com o que sobrou dele.
Estamos mesmo numa safra bem ruim, bastante piorada pela explosão tecnológica que facilitou o acesso de todos a tudo. Em pouco tempo começou a faltar filtro, como traduziu o escritor italiano Umberto Eco ao afirmar “a internet deu voz a uma legião de imbecis”.
Hoje, esbarramos em multidões que não trocam ideias porque só conseguem maquiar notícia com propaganda política ou repetir bobagens digitais com fé litúrgica. Mas tudo cansa, como já pregava o ditado popular “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe”.
Ouvimos todo o dia que a polícia mata, balas perdidas sem origem matam, estradas e ruas matam, chuvas torrenciais viram enchentes e matam, vírus mata, negacionismo mata, briga de vizinhos mata, falta de leitos em hospital mata, corrupção mata, moer reputações mata.
Não é justo ficar apenas rezando para que o rosário de misérias não converta os nossos, como se a dor coletiva não nos pertencesse e nem nos afetasse. Não haverá felicidade onde tudo é relativo, atenuável, aceitável. Isso inquieta a vida porque não somos gatos, com sete vidas para dispor e sair escapando.
Não sabemos quando virá o momento de fazer a opção pela verdade, por mais dolorosa que ela seja. Será nossa chance de saber o que está de fato acontecendo ao redor. Talvez a oportunidade de parar de fingir/fugir, reduzir o caos reinante e alcançar níveis melhores de bem comum. Talvez uma indulgência plenária do divino que vive em nós. Que haja nem que seja esperança de dias melhores, porque sonhos não envelhecem.
E lá se vai
Mais um dia
E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Trechos incidentais Construção/Deus lhe Pague (Chico Buarque) | Clube da Esquina Nº 2 (Márcio Borges-Lô Borges-Milton Nascimento)
*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural | KALUNGA MELLO NEVES, escritor e brincante
Ouça no link
Construção/Deus lhe Pague https://www.youtube.com/watch?v=XHgy-LGSntg
Clube da Esquina Nº 2 https://www.youtube.com/watch?v=ntACV-Uo9RQ