João Maria Alves/Alameda
Pra ver a banda passar
- Heraldo Palmeira
“Estava à toa na vida | O meu amor me chamou | Pra ver a banda passar | Cantando coisas de amor” (Chico Buarque)
O céu limpo e a brisa agradável complementavam o cenário do lindo casarão tombado. As pessoas foram chegando de mansinho. Elas saíram de casa para ver um show de bandas de música, não aquela coisa costumeira de a banda ser inserida em festa alheia.
Naquele fim de tarde, o protagonismo era do patrimônio cultural secular das bandas de música. E para não haver dúvida, três delas passariam pelo palco e se juntariam no final, com quase cem músicos em ação.
Nada como uma banda de filarmônica tocando boa música para reativar profundas conexões afetivas; para remontar na cidade grande a velha pracinha do interior onde promoveram o que hoje são ótimas memórias.
Amigos que se veem sempre, outros que não se viam há anos e um bom punhado de jovens se acomodaram nas cadeiras dispostas ao ar livre. Em pouco tempo, uma prosa boa e alegre tomou conta do ambiente como um aquecimento para a RETRETA MODERNA – 1º Encontro de Bandas de Música (link abaixo para o show completo) que viria daí a pouco.
As bandas mereceram uma estrutura de som, luz e câmeras à altura da ação que iniciariam em seguida. Quando a música tomou conta do ambiente, foi de dilatar pupila. E muitas pupilas ficaram encharcadas quando a memória foi revirada pelo mesmo encantamento eterno que as bandas de música provocam nas comunidades onde foram geradas. Em qualquer época, são sempre formadas por crianças, jovens e adultos que retratam as cidadezinhas onde vivem..
São eles que, quando vestem a farda solene e pegam seus instrumentos, abrem um portal atemporal onde flutuam pelas notas musicais, deixam de ser as pessoas comuns com quem cruzamos no cotidiano, assumem o papel nobre de músicos e escrevem “Arte” assim, com letra maiúscula.
Já havia uma banda no palco concentrando todos os olhares, mas permaneceu quieta e em silêncio enquanto as outras duas surgiram brilhantes e entraram sem aviso, marchando pela rua e cativando tudo e todos. Uma surpresa e tanto para quem cresceu vendo a banda passar e para quem ainda está descobrindo esse encantamento.
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A Lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Foi momento bonito de se ver com pupilas dilatadas, marejadas de emoção. A plateia foi ficando de pé inebriada pelo inesperado, disparando cliques para eternizar tamanho momento. Era apenas o primeiro ato de um repertório impecável. Ouvir aquelas músicas costurou no tempo de hoje ausências saudosas e presenças bem vividas, lapsos da vida que foi escrita por cada pessoa que estava ali.
Não é de estranhar tudo aquilo que se viu. Por mais moderno que seja o jeito de tocar ou atualíssimo o arranjo, sempre haverá sintomas de saudade na música filarmônica.
Cada vez que o maestro ergue a batuta personifica um faroleiro lançando luz sobre o mar. É o início de um ciclo poético composto de melodia, sons, silêncios, tempos e contratempos. Mesmo que a partitura indique notas precisas, aqui e ali permite a licença poética de um solo que jamais se repetirá, posto que é único.
A usina musical de uma banda filarmônica acorda nossos silêncios interiores. O farol na ponta da batuta nos leva por uma travessia que ora sobe ora desce pelas ondas sonoras, ziguezagueando de bombordo a estibordo da harmonia até o repouso que vem depois da última nota. É o cais do desembarque onde pisamos convencidos de que navegar é preciso; viver não é preciso.
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
Trechos incidentais: A Banda (Chico Buarque) | Mar Português (Fernando Pessoa)
*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural
Veja e ouça no link
RETRETA MODERNA – 1º Encontro de Bandas de Música https://www.youtube.com/watch?v=BD2AOSWYRig
O evento teve apoio cultural decisivo do SESI-RN e apoio da Prefeitura Municipal de Acari, Prefeitura Municipal de Carnaúba dos Dantas, Instituto Vida Videira e Ster Bom.
Ouça no link