Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

HERALDO PALMEIRA Figos preciosos

GerDukes/Geraldine Dukes/Pixabay

Figos preciosos

  • Heraldo Palmeira

“Gotas de chuva estão caindo em minha cabeça | E igual ao sujeito que já não cabe mais em sua cama | Nada parece se ajustar | Mas eu sei de uma coisa | A tristeza que me enviaram | Não me derrotará” (Burt Bacharach-Hal David)

O filme Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969) marcou gerações. Apesar de contar a história de dois bandidos do Velho Oeste que costumavam falar mais do que atirar, legou para a história do cinema uma das cenas mais delicadas já realizadas: o passeio de bicicleta (link abaixo) de Paul Newman (Butch Cassidy) e Katharine Ross (Etta Place) – por acaso a namorada de The Sundance Kid (Robert Redford). É difícil não pensar que a cena não seria a mesma sem a música Raindrops Keep Falling on my Head (link abaixo), na definitiva interpretação de B.J. Thomas.

Um casal de amigos sempre me pareceu a inspiração para aquela cena, algo que nunca disse aos dois. Estes dias, recebi dele texto comovido a respeito dos 55 anos de casamento. Uma data que o tempo tornou obviamente relevante, ainda mais em razão da belíssima história de amor que viveram. Jovens de grande beleza, foram se tornando ainda mais bonitos pelos princípios pessoais e tudo que construíram enquanto amadureciam. Algo que semearam por filhos e netos.

A mensagem do meu amigo também carregava um componente doloroso sobre o qual vínhamos falando em longas conversas: sua grande amada está presa às malhas do desaparecimento mental e emocional do mal de Alzheimer há alguns anos, sua memória chegou ao ponto de escuridão absoluta. Já não reconhece mais ninguém, ele incluído. Até um mês atrás ela ainda sorria quando o via; agora não mais.

Há uma linha de pensamento científico que acredita no completo alheamento do doente, que ele não sofre enquanto avança em sua exclusão do mundo. Talvez porque construa outro, impenetrável para nós. É quando a pessoa querida se torna uma completa estranha e sem qualquer semelhança com quem foi um dia. Ao redor desse drama, não é incomum a natural dificuldade familiar de aceitar o quadro óbvio, até o ponto de provocar cisões quando é imprescindível tomar decisões difíceis.

Lendo a mensagem do meu amigo pensei nas graças que a vida nos concede em seu curso. Nelas estão certamente episódios marcantes e, muito mais, as pessoas que cruzam nosso caminho e permanecem por perto mesmo vivendo a quilômetros de distância. Mesmo com a imagem envelhecendo pelo passar do tempo que nem sempre nos permite a convivência que gostaríamos, nosso caso.

De forma racional e compreensível, ele lamentou a ausência presente daquela mulher querida de todos nós. Ou seria presença ausente? Tanto faz, o vazio é o mesmo. Sei bem, tive casos iguais perto de mim. Não é fácil aceitar que aquela pessoa que não mais nos reconhece também já perdeu seu próprio mundo, e não cabemos em seu novo mundo.

Viramos estranho mútuos, mas, por sorte, ainda permanece intacta em nós a memória afetiva que aquela pessoa perdeu. É essa memória que manterá a nossa ternura, a nossa missão de cuidar da melhor maneira de quem era parte do que somos. Também não é simples processar a ideia de culpa que nos assalta quando é preciso decidir a mudança de endereço de quem adoeceu. Mas essa culpa não é justa porque nem sempre estamos aptos a oferecer o cuidado certo, algo que também não é fácil de aceitar.

Conhecer aquele casal foi uma das graças que a vida me deu. Em algumas ocasiões peguei a estrada para ir passar o sábado com eles no interior. A casa enorme, o condomínio sossegado. No pomar do quintal havia uma figueira frondosa, e ela sabia da minha paixão pela fruta e pelo doce em calda que fazia como ninguém. Quando marcávamos nossos encontros, ela se entregava a uma tarefa prévia de sete dias para produzir aquela maravilha, ainda mais refinada pelo auxílio luxuoso de tacho de cobre e fogão a lenha.

Pensei na velha amiga reencarnada naquela figueira que nos ofereceu tantas floradas e figos preciosos, a ponto de arrematar o doce bordado da nossa amizade. Desculpa deslavadamente carinhosa para me atrair pela via Dutra para convivências tão amorosas, definitivas, imorredouras, inigualáveis que a gente ainda completava com almoços plenos de sabores finos e tantas conversas e risadas até o cafezinho final. Até o aceno de despedida enquanto o carro iniciava a marcha do retorno a Sampa.

Sei lá quantos anos já se vão, mas ainda sinto o sabor dos figos exclusivos mergulhados naquela calda, iguaria tecida com tanta mestria pelas mãos dela, que ainda me concedia o luxo de trazê-los em generosa porção num vidro delicadamente embalado para viagem.

Convidei meu amigo a pensar nas figueiras silenciosas que vivem em seus próprios mundos e, mesmo assim, guardam a razão da própria vida para nós. Os figos que nos destinam agora se resumem naquela mulher. Talvez ela não o reconheça mesmo, mas sabe direitinho quem ele é. Não soará estranho se estiver apenas guardando um grande segredo, o amor que sempre lhe dedicou. É da natureza feminina amar como não alcançamos. E colher para nós seus melhores frutos. É algo que ninguém apaga da memória, mesmo que pareça distante, em outro mundo.

Não é fácil testemunhar um casal que traduziu o amor a vida inteira estar separado pelo mal de Alzheimer, obrigado a enfrentar suas dolorosas vivências que misturam dor, saudade, despedida antecipada, aprendizado, resignação, silêncio, sensação de vazio… Resta a ele olhar ao redor e se orgulhar das tantas safras majestosas que brotaram ao longo do tempo. É o que vale da vida, e alguém vai se lembrar até mesmo quando a gente esquecer.

Talvez o caminho possível esteja nas palavras que ele mesmo escreveu: “O silêncio do Alzheimer não foi suficiente para apagar o amor e a história que construímos e que permanecem vivos em mim. […] Infelizmente ela já não me reconhece mais; entretanto, isso não importa. O que realmente importa é que eu a reconheço”.

É o que vale de fato. Mesmo que tudo esteja tão difuso, tão perto e tão longe, serão sempre nossos figos preciosos.

Com amor, para Darta e Valéria.

*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural

Veja e ouça no link

Butch Cassidy and the Sundance Kid (trecho)   https://www.youtube.com/watch?v=pzkMQvyc8-I

Ouça no link

Raindrops Keep Falling on my Head   https://www.youtube.com/watch?v=sySlY1XKlhM&t=17s

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