Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

Trem doido

Reprodução/Redes sociais

Trem doido

  • Heraldo Palmeira

O mineiro Salomão Borges Filho se habituou a colecionar sucessos e a viver quase anônimo. Um sujeito manso que teve canções gravadas por Tom Jobim, Elis Regina e Milton Nascimento encabeçando uma longa lista de intérpretes ilustres. Devagarinho, o rapaz retraído, mineirice pura, foi se tornando Lô Borges.

A história começou no velho edifício Levy, o número 718 da avenida Amazonas, na região central de Belo Horizonte. O casal Salomão e Maricota e seus 11 filhos moravam no 17º andar. Mais abaixo (no 5º andar) funcionava uma pensão que abrigou um novo morador: um certo Bituca, que terminou incorporado como o 12º filho dos Borges e depois o mundo aprendeu a reverenciar como Milton Nascimento.

O Levy está eternizado como berço de um dos maiores movimentos musicais do mundo, que começou a ganhar corpo quando a família mudou para uma casa nos arredores da esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza. O jovem Salomão, que já era Lô para os amigos da turma, estudava música e era aluno dedicado de harmonia do professor Toninho Horta. Quando descansava, passava horas ouvindo Beatles com o amigo Beto Guedes.

Na calçada da tal esquina perto da casa, meia dúzia de garotos sem muita opção de lazer se divertia jogando bola, conversando, tocando violões e rabiscando letras. Assim foram erguendo um certo Clube da Esquina – nome dado de brincadeira por dona Maricota – com canções inigualáveis que ganharam o mundo. Pudera, elas nasceram de prosas e tocatas que misturavam Beatles, jazz e MPB.

Salomão foi se tornando o Lô Borges de uma vereda especial desde o primeiro passo. Afinal, ele saiu da vida pacata em sua Beagá direto para o agito carioca em plena ditadura. Depois de perambularem em vários endereços – Ipanema, Leblon, Jardim Botânico – onde vizinhos caretas e agentes da repressão não davam sossego a cabeludos, finalmente Milton e Lô tomaram a barca da Cantareira levando Beto junto, atravessaram a Baía de Guanabara e alugaram uma casa enorme (bancada por Milton, que já tinha uma carreira estabelecida) num paraíso conhecido como Prainha de Piratininga – à época chamada Praia de Mar Azul –, em Niterói. Foi lá que, livres de assédios, vivendo em ambiente de absoluto sossego e incluindo mergulhos nas águas calmas, os dois compuseram uma obra-prima e deixaram claro que Minas tem mar de sobra.

Depois foram para os estúdios da gravadora EMI-Odeon, no número 151 da rua Mena Barreto, em Botafogo, onde receberam uma penca de grandes músicos numa oficina livre de criação e a alquimia se consumou no lendário Clube da Esquina (1972), considerado um dos maiores álbuns de todos os tempos. No mundo!

E o rapazinho não deixou por menos, oferecendo seus primeiros tesouros da juventude para o repertório: Tudo que Você Podia Ser (Lô Borges-Márcio Borges), O Trem Azul (Lô Borges-Ronaldo Bastos), Nuvem Cigana (Lô Borges-Ronaldo Bastos), Um Girassol da Cor de seu Cabelo (Lô Borges-Márcio Borges), Estrelas (Lô Borges-Márcio Borges), Clube da Esquina Nº 2 (Milton Nascimento-Lô Borges-Márcio Borges), Paisagem da Janela (Fernando Brant-Lô Borges) e Trem de Doido (Lô Borges-Márcio Borges).

Também estava no repertório daquele álbum duplo Nada Será Como Antes (Milton Nascimento-Ronaldo Bastos), que obviamente soou premonitória porque tudo mudou depois daquela maravilha sonora gerada nas entranhas das montanhas das Minas Gerais. E não era para menos, porque tudo aconteceu completamente fora dos padrões do mercado. Dentro do estúdio o que se viu foi uma verdadeira feira moderna que flertava com a alma latino-americana, trazia letras surpreendentes e aceitava toda sorte de influências na sonoridade. Uma mistura de toada, jazz, folclore, bossa nova, choro e rock progressivo, cujo verniz final era nada menos do que aquele toque beatle. No alto da colina a voz de Milton Nascimento, que muitos acreditam ser a voz de Deus.

Clube da Esquina virou um marco na forma de fazer discos no Brasil e Lô se tornou um dos mais importantes compositores da música brasileira, algo que jamais fez questão de ostentar.

O impacto que aquele pouco mais de um menino Lô Borges causou na chegada à gravadora se traduziu num contrato apresentado de imediato para sua carreira solo, e que gerou o também célebre “Disco do Tênis” – a capa foi um velho par de Adidas que ganhou já usado de um primo –, lançado naquele mesmo 1972. Ficou assustado com o sucesso que abria braços desconhecidos e pegou a estrada para longe de tudo, preferiu se encontrar com o próprio silêncio. Sete anos depois retomou a carreira e os próximos passos foram discos imperdíveis: A Via Láctea (1979), Lua Cigana (1982), Sonho Real (1984), Meu Filme (1996)…

Da primeira estação onde tudo começou partiu um trem azul mágico, quase um mantra que conquistou muita gente. Tom Jobim gravou a música e se tornou parceiro de Blue Train, a versão para o inglês. Ainda mais espetacular foi a versão sideral de Elis Regina, cercada de monstros como Picolé (bateria), Luizão (baixo) e Natan Marques (guitarra). Em seu último show – morreu poucos dias depois – ela cantou (link abaixo) magnífica como sempre, uma locomotiva puxando o trem.

Você pega o trem azul

O Sol na cabeça

O Sol pega o trem azul

Você na cabeça

O Sol na cabeça

Nem deu tempo de processar – de fevereiro para cá – Roberta Flack, Affonso Romano de Sant’Anna, Brian Wilson, Hélio Delmiro, Ozzy Osbourne, Angela Ro Ro, Hermeto Pascoal, Robert Redford, Diane Keaton virando nuvem, e lá se vai Lô Borges. Eu nunca ouvi falar que o Céu tivesse esquina, muito menos clube. O pior é que esse povo vai para as nuvens e não chove nada no lugar.

Se eu não tivesse juízo diria umas verdades ao Criador. Com todo o respeito, mas diria! Afinal, a gente vai envelhecendo e não é brincadeira essa sucessão de perdas. Já se vão décadas vendo tanta gente boa partindo, e parece que agora está faltando freio. Devo confessar que tenho escorregado nas estribeiras para manter o juízo de não ligar para o Céu e tomar satisfações. Mas a voz da razão sempre me convence a desistir da ligação. Vai que o Homem se aborrece e pisa mais fundo? Não, não!

Se eu não tivesse juízo ousaria dizer ao Criador que Ele precisa rever esse processo, ter um pouco mais de piedade. Afinal, estamos vivendo num mundinho chinfrim e cada vez mais desfigurado por gente insignificante repleta de seguidores. Sim, é inacreditável, também acho. Deve ser por isso que estamos atravessando este vale de lágrimas.

O que será de nós daqui a pouco, quando todos os grandes artistas tiverem sumido nas nuvens? Sei que Ele mandou para cá talentos extraordinários, mas nós resolvemos trocar por outros que nem sei se fazem parte da Sua criação. Piedade de nós!

Por isso, mesmo não fazendo parte do Supremo Conselho Celestial, gostaria de propor que a imortalidade prevalecesse em alguns casos. Tudo bem, não precisa ser algo revolucionário para manter ninguém na Terra por séculos. Basta mexer no chip da humanidade para que ela volte a admirar o belo, contemplar a natureza, gostar de pessoas, se deslumbrar com a arte, entender seu valor coletivo como identidade de um povo e quanto vale sonhar.

Porque se chamavam homens

Também se chamavam sonhos

E sonhos não envelhecem

É urgente esse ajuste no chip porque pouquíssima gente consegue ligar Lô a suas maravilhas nuas. A maioria sequer faz qualquer ideia de quem foi ele, muito menos do seu tamanho na nossa cultura popular. Paciência, a gente sabe do lixo ocidental acumulado pela ignorância coletiva.

E lá se vai mais um dia dessa espera pelo tempo, senhor que determina a próxima perda ou nosso próprio fim de linha, sem direito a sorriso aberto e roupa nova, sem renovar a fé. Estou quase trocando juízo por coragem para dizer ao Criador que não é justo do jeito que está.

Se as perdas fazem parte do repertório doloroso dos rituais humanos, no caso de Lô a saudade vai ser confortada com canções que ele criou namorando a delicadeza. Daquelas que adoçam o gosto amargo na boca, que sempre poderão ser ouvidas sem perigo de morrer.

Meu adeus, minha vila | Meu adeus sideral | Nesta noite equatorial | Eu vou sair outra vez | Onde morre a trilha do meu silêncio | Vou te buscar […] Chegou de repente o fim da viagem | Agora já não dá mais pra voltar atrás | E quase que eu me esqueci que o tempo não para nem vai esperar […] Se eu morrer não chore, não | É só a lua | É seu vestido cor de maravilha nua | Ainda moro nessa mesma rua | Você vem ou será que é tarde demais?

Lô brincou com as estrelas sem estridência. Criou um Clube com gente, simplicidade, amizade, poesia, música, esperança, fé nas pessoas e bondade. Era um sujeito raro, o amigo de infância que qualquer um gostaria de ter pela vida inteira: “Eu gosto de estar todo dia com um instrumento na mão, buscando o que é o Universo, o que o imponderável pode me dar”.

Sim, Lô Borges era um cara do infinito que apenas voltou para casa. Generoso, deixou quatro novos álbuns prontos como um último sopro de conforto para nossa tristeza. Mesmo assim, sua morte amplia o abismo da música brasileira. E a urgência de reativar nossa capacidade de criar clubes da esquina.

Trechos incidentais   O Trem Azul (Lô Borges-Ronaldo Bastos), Clube da Esquina Nº 2 (Márcio Borges-Lô Borges-Milton Nascimento) | Equatorial (Beto Guedes-Lô Borges-Márcio Borges) | Vento de Maio (Telo Borges-Márcio Borges) | Um Girassol da Cor de seu Cabelo (Lô Borges-Márcio Borges)

Veja nos links

O Trem Azul   https://www.youtube.com/watch?v=FsOyNUi3CUU

Clube da Esquina Nº 2   https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=-83HCIbrfWU&feature

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