Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

HERALDO PALMEIRA Uma menina

Pixabay

Uma menina

  • Heraldo Palmeira

Ela é só uma menina | E eu deixando que ela faça o que bem quiser de mim (Herbert Vianna-Martin Cardoso)

Era Tijuca, Rio de Janeiro, em 25 de novembro de 1985. A noite da segunda-feira estava apenas começando. Era primavera, domínio de Sagitário, clima agradável. O corredor do hospital Pan-Americano foi a antessala onde aguardei ansioso para receber a metade adorada de mim que o infinito estava me enviando para o resto da vida.

Acredito ou quero acreditar que estava calmo, mas sempre fui precavido: dois amigos estavam ali para garantir que minha alma de artista vencesse os tremores nas mãos. Não senti qualquer medo. Era primavera, com tudo que a estação das flores significa. Mas, não custava nada, pesquisei o perfil de Sagitário e não restou dúvida: otimismo, alma livre, gosto por aventura e conhecimento, harmonia, leveza, sociabilidade, diplomacia, elegância… A criaturinha prometia!

Às 19h50 alguém de branco me disse “É menina! E as duas passam bem”. Uma menina. Adorei! Os amigos que deveriam me amparar caso eu desabasse tinham ido buscar café. Chorei sozinho o melhor choro que conheci. O silêncio, a janelona aberta, o ar fresco, as estrelas no Céu. Eu olhei para o Deus que não vi, mas não perdi a viagem: “Vou precisar de apoio, não sei como será”. Quase juro que ouvi uma voz maior tentando me tranquilizar quando eu mesmo me disse em silêncio “Fique tranquilo, ninguém sabe”. Na dúvida, fiz uma oração agradecida em louvor ao significado de me tornar pai.

Débora Antônia foi homenagem a duas grandes mulheres. Débora, a grande profetisa, juíza e líder militar, única mulher citada na Bíblia a ter status de juíza, que costumava se sentar sob uma palmeira para aconselhar seu povo. Antônia, a minha mãe, uma das pessoas mais doces e dignas que conheci. Naquele novíssimo vendaval da paternidade, escolher um nome que me enchia de segurança tinha a ver com tentar proteger minha menina. Foi um bom começo.

Débora Palmeira cresceu docemente traduzida como Dedé. Foi minha grande companheira em caminhadas nem sempre fáceis onde aprendemos a preparar nossos pés para todos os pisos. Hoje, minha menina virou quarentona. Minha quarentinha segue linda, sempre foi, e não tenho medo de profetizar que seguirá sendo. A legião de amigos que conquistou traduz a beleza humana que ela carrega.

Quando recosto a cabeça nas memórias da vida tenho muito a agradecer. Mesmo estando num mundo onde tudo é cada vez menos importante, basta que eu me lembre do que me importa. E ali sempre estará uma menina que virou moça que virou mulher, que me resume. Que me redime de todos os erros. Que anula os momentos difíceis. Que me renova. Que empresta juventude à minha velhice soprando esperança. A menina que um dia protegi hoje me protege, acalma meus medos, é o cais depois dos temporais, o destino aonde nunca chegarei sozinho.

Cada vez mais minha filha está ganhando asas, ora voando alto ora sendo apenas meu anjo. Obrigado por todos os orgulhos, minha menina. Estou pronto para tudo que falta e feliz pelos seus quarenta anos. Parabéns. Um beijo, seu pai, Heraldo Palmeira.

*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural

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