João Maria Alves/Alameda
Galeria do tempo
- Heraldo Palmeira
Voltei à Ribeira, bairro-berço da formação urbana de Natal, que foi motor da economia da cidade e fez parte da minha infância e juventude. Voltar àquelas ruas estreitas é um exercício de saudade. E de tristeza diante do estado quase geral de abandono. Os prédios desfigurados pelo tempo parecem caricaturas do que representaram, guardando em silêncio os sussurros do passado que ricocheteiam em suas paredes descascadas, trazidos pelo vento marinho encanado pela foz do rio Potengi.
Venci metade da Tavares de Lira e entrei à esquerda na Dr. Barata, no rumo da antiga estação rodoviária. Imaginei os sons das pessoas circulando nos tempos vibrantes daquela que ficou conhecida como “Rua das Lojas”, um dos primeiros e mais elegantes centros comerciais da cidade, famoso pela grande oferta de produtos importados de alta qualidade.
Depois da primeira curva do traçado sinuoso da rua, lá estava a estrela azul encravada na fachada da Galeria de Arte B-612. Eu chegava a um verdadeiro oásis de cultura e arte, um espaço capaz de fazer bonito em qualquer lugar do mundo. O prédio enorme, com quase 990 m², foi construído há décadas pelo professor e empreendedor Ulisses de Góis, que instalou nele o jornal A Ordem e a cooperativa de crédito Caixa Rural. Depois, acolheu a Livraria Clima e foi ponto de venda de passes estudantis para o transporte público.
Hoje o local abriga um grande acervo de artes e antiguidades, com obras em madeira, porcelana, ferro, cimento, bronze, mármore e terracota. Esculturas, pinturas, gravuras, móveis e acessórios de decoração de diversas épocas, produzidos por artistas potiguares e de outras origens. São dois pavimentos repletos de beleza, inclusive dentro do que foi a caixa-forte da antiga instituição financeira.
Logo na entrada, o letreiro na recepção dá uma ideia do lugar: “Nossa missão: difundir o bem, o bom e o belo”. Na parede defronte há uma placa ao lado de uma escultura de um acendedor de lampiões onde se lê “Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela”. No ambiente seguinte, ao lado de outra escultura, “As pessoas têm estrelas que não são as mesmas”. Sim, o aviador pioneiro e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry e O Pequeno Príncipe pairam como patronos eméritos do lugar. Tanto que o nome da galeria foi escolhido diretamente do asteroide B-612, de onde veio o menino encantador.
Essa ligação com Exupéry está diretamente relacionada ao fato de que ele teria passado por Natal nos idos de 1930, quando ficou maravilhado com um grande baobá que existe até hoje e teria servido de inspiração para os baobás que incluiu no texto do livro. Algo para estufar o peito porque estimativas apontam O Pequeno Príncipe como o segundo livro mais lido de todos os tempos, atrás apenas da Bíblia.
Mais alguns passos e temos o Espaço Literário Jácio Torres, um cantinho de afeto montado em homenagem ao saudoso fundador do sebo Cata Livros, o que só comprova que a galeria vai muito além das artes plásticas, há uma vocação natural para centro cultural.
Aquela manhã de sábado na companhia do amigo fotógrafo João Maria Alves mereceu meu próprio esforço de parar o tempo numa imagem repleta de História, contada em tantos estilos por artistas preciosos – Assis Marinho, Carlos Soares, Cláudia Lange, Dorian Gray, Fernando Gurgel, Flávio Freitas, Goreth Caldas, Iaperi Araújo, Iaponi Araújo, Katarina Nagy (Kanagy), Newton Navarro, Thomé Filgueira, Vatenor Oliveira, Vicente Santeiro…
Ter Exupéry e O Pequeno Príncipe – figurinha que emana leveza e curiosidade – pairando no ar amplia a percepção da arte em exposição. Talvez seja a senha para ultrapassar um portal onde é permitido se desvencilhar de conceitos especulativos e ficar à vontade para acender os próprios lampiões sobre as expressões dramáticas, líricas, suaves, culpadas, purificadas, confusas, práticas, profanas, espirituais, profundas, rasas, difusas, claras, abstratas, concretas expressadas em tantas linguagens artísticas.
Caminhar entre peças deslumbrantes me permitiu vivenciar o bem, o bom e o belo indicados na entrada. E ainda saborear água de coco, cafezinho e uma conversa imperdível com Anchieta Miranda, o homem com coragem para erguer algo tão improvável. Algo capaz de injetar energia de revitalização a um bairro que guarda memórias pioneiras. Algo imprescindível para qualquer futuro que se deseje à cidade.
O grande elo entre a B-612 e Exupéry vai muito além do asteroide d’O Pequeno Príncipe. Pode estar no fato de que cada obra e cada aterrissagem são únicas, jamais se repetirão. O resto é arte, o mistério que faz pessoas de todas as idades circularem entre as peças com ares de encantamento. Talvez tenham se permitido voar pela corrente do bem, do bom e do belo.
Diante de tudo isso parece sem sentido dar ouvidos à velha polêmica sobre o escritor ter ou não visitado a cidade. Eu tenho certeza de que ele se tornou habitué da galeria, sempre acompanhado de um menininho de cabelos dourados e soltos, sobretudo azul de gola alta, calças curtas, botas e um lenço amarelo esvoaçante no pescoço. Quem duvida?
Serviço
Galeria de Arte B-612
Segunda a sexta: 8h às 12h | 13h30 às 17h
Sábados: 8h às 13h
Rua Dr. Barata, 216 – Ribeira, Natal (RN)
Estacionamento gratuito
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