Por Heraldo Palmeira
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23 de abril de 2026

HERALDO PALMEIRA Visita incerta

Reprodução/AFP

Visita incerta

  • Heraldo Palmeira

Reza a lenda que Natal não escolheu a aviação, mas a aviação escolheu Natal. Em razão da localização geográfica privilegiada, a cidade se transformou em polo da ainda incipiente aviação comercial ao garantir apoio estrutural ao desenvolvimento de rotas de acesso às Américas, Europa e África. Foi o princípio da transformação da cidade em ponto estratégico para todos os grandes eixos de transporte aéreo.

O dia 21 de dezembro de 1922 marca o primeiro contato da cidade com a aviação, quando o hidroavião bimotor biplano Curtiss H-16 denominado Sampaio Correia-II amerissou no estuário do rio Potengi e atracou no cais da Tavares de Lira, recebido por grande festa popular, muitas autoridades e discursos de ocasião. A bordo estavam o piloto norte-americano Walter Hinton, o copiloto brasileiro Euclides Pinto Martins – que hoje dá nome ao aeroporto internacional de Fortaleza – e mais três conterrâneos do comandante: o mecânico de bordo John Edward Wilshusen, o jornalista George Thurman Bye (do jornal New York World) e o cinegrafista e fotógrafo John Tomas Baltssel (da Pathé News).

Naquela época, os navios que entravam no porto eram anunciados por fogos, acionados pelos escoteiros posicionados na torre da catedral da praça André de Albuquerque. Obviamente, o serviço foi adaptado para anunciar tão grande novidade, com os rapazes recebendo binóculos e lunetas para vasculharem o céu. Iniciado o foguetório, os sinos das igrejas começaram a badalar, aumentando o furor no povo que se espremia pela beira-rio, do cais da Tavares de Lira até onde hoje está instalada a Rampa.

Aquela foi uma das inúmeras escalas do primeiro voo ligando Nova York ao Rio de Janeiro, e o jornal A República denominou a aeronave como “Libellula de Aço”. O voo pretendia festejar o centenário da Independência, mas só chegou ao Rio de Janeiro em 8 de fevereiro de 1923.

O enorme atraso foi motivado por inúmeros problemas técnicos e dificuldades climáticas surgidas no trajeto – inclusive a perda do avião original Sampaio Correia-I, que caiu no mar a leste de Cuba depois de enfrentar forte tempestade noturna. Felizmente, mesmo correndo risco de afogamento e ataques de tubarões, a tripulação terminou resgatada sem ferimentos pelo navio cruzador norte-americano USS Denver, mas a aeronave afundou no oceano Atlântico.

Principalmente no período de 1926 a 1930, passaram por Natal os chamados “ases” dos ares, os franceses Henri Guillaumet, Jean Dabry, Jean Mermoz – realizou o primeiro voo postal sem escalas sobre o Atlântico Sul (1930) –, Léopold Gimié, Marcel Reine, Paul Vachet, além do brasileiro Lysias Rodrigues e do italiano Francesco De Pinedo. Esse movimento aéreo transformou a cidade numa espécie de hub primitivo que utilizava o rio Potengi para pousos e decolagens dos hidroaviões que faziam o transporte de malas postais entre os continentes. Foram esses aviadores que ajudaram a desbravar o mundo enquanto delineavam o serviço de correio aéreo internacional, substituindo com a rapidez da aviação o demorado transporte de correspondências feito por navios.

Eram tempos em que os pioneiros pilotavam uma aventura a cada decolagem, pois os aviões eram frágeis e dispunham de pouca autonomia. Na verdade, as viagens eram cobertas de perigos mesmo para as aeronaves mais poderosas que realizaram as primeiras travessias do Atlântico, que terminavam voltando de navio pois não suportariam o voo de retorno.

O primeiro pouso em terra firme ocorreu em 18 de julho de 1927 na praia da Redinha, diante do estuário do rio Potengi acostumado a receber hidroaviões. A aeronave de rodas, um autêntico avião, era um biplano monomotor francês Breguet 118. Havia decolado em Maceió e chegou pilotado por Paul Vachet. Pertencia à empresa de aviação comercial Latécoère – que depois se tornaria a Aéropostale, uma das companhias que deram origem à Air France – e cumpria missão conveniada com o governo brasileiro, cujo objetivo era percorrer o nosso litoral em busca de locais adequados à construção de aeródromos para o serviço de correio aéreo internacional.

Vachet recebeu o apoio de Luís Tavares Guerreiro, coronel do Exército Brasileiro, que terminou encontrando uma área distante 20 quilômetros de Natal, perto do rio Parnamirim. O proprietário da planície era o próspero comerciante português Manoel Duarte Machado, dono da Despensa Natalense, grande empório instalado na rua Chile, 128. Machado era casado com dona Amelinha, que ganhou triste (e injusta) fama depois da viuvez na cidade provinciana dos anos 1930 – passou a ser conhecida como “Viúva Machado” e sobre ela foram criadas inúmeras lendas urbanas, em razão da ignorância popular a respeito da uma doença grave que lhe acometera, possivelmente a síndrome de Treacher Collins.

Entusiasta da aviação, o empresário e grande proprietário de terras cedeu o local onde foi instalado o aeródromo, que passou a ser conhecido como Campo de Aviação, Campo de Parnamirim e Campo dos Franceses. Ao redor do empreendimento foi fundada a cidade de Parnamirim.

Entre outubro de 1929 e fevereiro de 1931 o aviador e escritor Antoine de Saint-Exupéry ocupou a chefia da Aéropostale na Argentina. Nesse período, esteve inúmeras vezes no Brasil em visitas amplamente documentadas a Santos, Florianópolis, Pelotas, Rio de Janeiro e Petrópolis. É desse período que surgem as especulações a respeito de sua passagem por Natal, que até hoje alimentam controvérsias.

É sabido que Exupéry criava seus textos a partir de situações que havia vivenciado. “Ele só sabia escrever sobre o que tinha vivido. Por isso, há tantos elementos biográficos em O Pequeno Príncipe. O acendedor de lampiões é um deles”, explica a pesquisadora Mônica Cristina Corrêa, doutora em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de São Paulo (USP) que assina a tradução e o posfácio de O Pequeno Príncipe (2015).

O Acendedor de Lampiões que dá título ao capítulo 14 de O Pequeno Príncipe pode ser uma alusão de Exupéry à cena que se repetiu inúmeras vezes em sua vida de piloto, quando pescadores de então vilarejos como Praia Grande, em Santos, e Campeche, em Florianópolis acendiam lampiões para iluminar a pista de aterrissagem sempre que ouviam os motores dos aviões se aproximando.

Mais adiante, no capítulo 26, fez referência às estrelas de modo que bem poderia incluir os pontos de luz dos lampiões dos pescadores amigos vistos do alto: “As pessoas veem estrelas de maneiras diferentes. Para aqueles que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes”.

Com dificuldade de pronunciar o sobrenome do francês, os pescadores terminaram rebatizando o aviador como “Zé Perri”. Rafael Manoel Inácio (Seu Deca) era um desses caiçaras e se tornou amigo de Exupéry, a quem ensinou a pescar e preparar os peixes com beiju – a história dessa ligação improvável está contada no livro Deca e Zé Perri (2000), escrito por Getúlio Manoel Inácio, filho do pescador. Outra obra sobre o mesmo tema é Zé Perri: A Passagem do Pequeno Príncipe pelo Brasil, de Claudio Fragata, com ilustrações de Rogério Coelho (2009).

Já a passagem dele por Natal não é tão nítida. O escritor José Mauro de Vasconcelos, autor do clássico Meu Pé de Laranja Lima, viveu na cidade naquele período – seu pai era médico da Aéropostale – e deixou registrados pedaços da própria memória: “Naquela fase em que as primeiras linhas internacionais se preparavam para se instalar no Brasil, os aviadores franceses passaram por Natal. Jean Mermoz me carregou nos ombros. Lembro-me dele em todos os detalhes. E talvez tenha conhecido Exupéry nessa época, em 1930”.

Há quem duvide que Exupéry tenha realmente estado na cidade, alegando que não existe qualquer comprovação oficial a respeito. E logo aparece o argumento de que seria improvável que alguém tão famoso, numa época de poucos famosos, não recebesse qualquer cobertura da imprensa local – como ocorreu com aquele voo pioneiro de 1922. Não poderia ser diferente das visitas de Exupéry a outros locais do país, documentadas inclusive por fotografias. Ainda mais que se tratava do tarimbado executivo de escritórios internacionais estratégicos da Aéropostale, também escritor, o que certamente provocaria frisson nas autoridades e na elite da província.

Jean Mermoz, aviador de grande fama que realmente esteve na cidade pelo menos duas vezes, teria apresentado o baobá a Exupéry na suposta visita de 1930, o que para muitos apenas reforça a tese de que a população confundiu os dois ases franceses ou foi induzida a isso por interesses políticos ou privados (ou ambos), e o “engano” narrativo foi perdurando no tempo atendendo a interesses promocionais públicos e privados.

É possível que o caráter autobiográfico da obra do escritor tenha alimentado a ideia de que os baobás que ameaçavam a existência do asteroide B-612, e aparecem no capítulo 5 de O Pequeno Príncipe, foram inspirados num grande baobá que ele teria visto com encantamento em Natal. “É preciso que nos habituemos a arrancar regularmente os baobás logo que se diferenciem das roseiras, com as quais muito se parecem quando são pequenos. É um trabalho sem graça, mas de fácil execução”.

Aí surge o argumento de que o livro só começou a ser escrito em 1942, nos Estados Unidos, 12 anos depois da suposta visita. Outra argumentação lembra que Exupéry esteve diversas vezes na África e viveu no Marrocos de 1927 a 1929, quando assumiu a chefia do campo de aviação de Cabo Juby. Essa temporada africana influenciou sobremaneira sua obra literária, especialmente os livros Correio do Sul (1929), Terra dos Homens (1939) e O Pequeno Príncipe (1943). Por isso, muitos consideram bem mais plausível que ele tenha conhecido os baobás inspiradores nesse período imediatamente anterior à sua missão na Argentina, quando passou a frequentar o Brasil.

Também é inegável que a história do baobá potiguar ganhou corpo apenas a partir de 1991, quando um amante das artes contornou a ameaça de uma construtora que pretendia erguer um edifício no local e comprou o terreno, assumindo uma postura de preservação da árvore pela suposta ligação que ela teria com Exupéry e sua obra.

Em 7 de maio de 2009 o baobá foi visitado por François d’Agay, sobrinho e afilhado de Exupéry, que estava de passagem pelo Brasil. Mesmo assim, a pesquisadora Mônica Corrêa é taxativa: “Não há evidências da passagem de Exupéry por Natal. Só rumores”.

O baobá “inspirador” existe até hoje. Considerado o maior da América Latina, exibia 19 metros de altura e tronco com 26 metros de diâmetro. Teria mais de 300 anos e sua própria origem é repleta de controvérsias. 1) Foi trazido por Maurício de Nassau em 1637, dentro do projeto do holandês de construir um jardim botânico no Nordeste – na verdade, o conde ergueu apenas um horto zoobotânico que durou menos de oito anos nas cercanias do palácio que mandou construir na atual Praça da República, no Recife, já demolido. 2) Veio em forma de semente na bagagem de escravos africanos. 3) Chegou como semente na barriga de pássaros migratórios oriundos da África.

A chegada com os escravos é a possibilidade mais consistente porque os baobás são considerados sagrados nas religiões de matriz africana, representam ancestralidade, resistência cultural, conexão espiritual e resiliência, e foram plantados de forma aleatória principalmente em Pernambuco e Rio Grande do Norte durante o período colonial.

No fim de 2025, tomado por fungos e apresentando sérios riscos de desabamento, o baobá potiguar passou por avaliações de especialistas de diversas áreas contratados pela empresa que adquiriu o terreno meses antes. O laudo da equipe, chancelado por órgãos públicos de proteção ambiental, autorizou o Corpo de Bombeiros a realizar uma poda severa que limitou a altura a três metros, ponto de partida para a tentativa dos novos proprietários de recuperar um dos símbolos históricos da cidade.

O capítulo de Exupéry em Natal é apenas um ponto vago numa história enorme que construiu a importância da cidade na aviação comercial e militar mundiais. Dos passos iniciais do correio aéreo internacional à participação decisiva na Segunda Guerra Mundial, quando Parnamirim Field se tornou a maior base militar norte-americana fora dos Estados Unidos, é mais do que merecido o título de “Trampolim da Vitória” para a sociedade livre em que vivemos. Afinal, é difícil imaginar como seria o mundo se o Eixo tivesse vencido o conflito.

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