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A rainha da Camelot
- Heraldo Palmeira
“Todos nós vivemos muito além de nossas mortes. Presidentes virão e partirão e todos eles vão buscar em Jack orientação e inspiração.” (Jacqueline Kennedy)
A família Kennedy era o mais próximo que os Estados Unidos da América tinham de uma realeza. Mesmo cercada de tragédias, como a que se abateu sobre Dallas em 22 de novembro de 1963, quando o mundo testemunhou o brutal assassinato de John Fitzgerald, o mais reluzente dos Kennedy, então presidente dos Estados Unidos. Algo que deixou o mundo atônito. “Os Estados Unidos perderam a inocência no dia 22 de novembro de 1963”, segundo Clint Hill, o agente do Serviço Secreto responsável pela segurança pessoal de Jackie e das crianças, e que se manteve nesse posto até o fim de 1964 — eles estabeleceram uma relação de alto nível de confiança que se transformou em amizade pessoal.
Numa situação como aquela é difícil se ter a dimensão exata da tragédia em razão do choque, mas a notícia paralisou o país a ponto de fechar a Bolsa de Valores de Nova York. Na calçada do Rockefeller Center, em Nova York, pessoas incrédulas ouviam as notícias pelos rádios dos carros parados. Uma moça de um grupo de adolescentes atônitos traduziu o clima reinante: “Agora eu não sei o que fazer. Não sei aonde ir, o que falar. Não tem o que falar”. Na frente do Hospital Parkland, onde John Kennedy foi declarado morto, um cidadão anônimo, na faixa dos 50 anos, foi ouvido na rua por Ed Hogan, repórter do canal WFAA, de Dallas (afiliado da rede ABC), a respeito do ocorrido. Cabisbaixo, envergonhado e claramente emocionado, ele resumiu o trauma que havia se instalado: “É péssimo isso ter acontecido aqui, de todos os lugares do país. Pensei que fôssemos menos bárbaros. Um dos principais aspectos dos Estados Unidos é que muitas pessoas se odeiam. E acho que tem a ver com isso. Espero que algo assim nunca mais aconteça”. A adolescente e o homem eram apenas rostos de uma multidão incrédula, chorosa e revoltada que rapidamente estava replicada em todos os lugares, nos territórios democratas e republicanos. “Sou republicano, mas admirava muito o presidente” foi algo que se repetiu milhões de vezes por todos os Estados Unidos.
Sid Davis, jornalista que se tornou vice-presidente da NBC News, era correspondente em Washington D.C. e cobriu os governos de nove presidentes. Foi um dos três únicos jornalistas convidados pela Casa Branca para embarcar no Air Force One e assistir à posse de Lyndon Johnson — os outros dois foram Merriman Smith, da United Press International (UPI), e Charles Roberts, da Newsweek. Profundo conhecedor do cenário político, e já no fim da longa vida, fez um resumo com óptica histórica a respeito de Kennedy, de quem foi amigo: “Ele era um cara encantador. Não tinha como evitar. Mesmo se não concordasse com ele, você acabava gostando dele. Aquele homem era um presidente gentil e brilhante. Ele era querido por todos. John Kennedy era um grande protetor dos direitos civis do povo norte-americano e sempre pedia por mudança. Vi a mudança acontecer. E há legislação que prova isso. Eu acho que não somos perfeitos e não estamos nem perto do sucesso ainda, mas acho que somos um país melhor hoje do que quando vim para Washington. Porque Kennedy foi presidente. E isso é muito bom”.
Se um assassinato até hoje cercado de mistérios — terminou se convertendo na teoria da conspiração original da América moderna, verdadeira obsessão, com diversos historiadores afirmando que provocou o desgaste da confiança da nação em seu governo — já seria suficiente para fortalecer o mito de uma verdadeira dinastia, a nova viúva Jacqueline Kennedy foi incansável e peça-chave para, a partir desses escombros, construir um legado poderoso. A partir do momento que Dallas ficou para trás ela se consagrou a não deixar ninguém esquecer de seu marido. Afinal, ele foi o homem que convenceu a humanidade de que era possível chegar à Lua!
Embora não gostasse de política nem de participar de eventos políticos, Jackie tinha uma capacidade impressionante de criar fatos em benefício da imagem pública do governo. Logo no início do mandato do marido criou um projeto de lei, aprovado no Congresso, que lhe permitiu empreender uma gigantesca reforma na Casa Branca e estabeleceu que o mobiliário passaria a ser propriedade da Instituição Smithsonian — colocando fim nas reivindicações dos móveis de ex-presidentes.
Ela enviou correspondências pessoais com pedidos de doação institucional a diversos proprietários de peças históricas originais e, ao fim dos trabalhos, em fevereiro de 1962, abriu as portas da casa presidencial às câmeras da rede CBS. Uma audiência estimada em 46 milhões de pessoas ficou encantada com a elegância da nova mobília, que tomou o lugar das antigas reproduções ordinárias e retirou da residência mais importante do país o ar barato e simplório de antes. E a sedução foi ainda maior porque ela mesma atuou diante das câmeras como apresentadora. Aquele tour emprestou um ar acessível que humanizou o casal presidencial, além de reforçar a ideia de preservação e defesa da memória cultural do país e sua identidade nacional.
A França foi o primeiro país que Kennedy visitou como presidente, e Jackie, que já havia morado lá nos tempos de intercâmbio educacional na Sorbonne, aproveitou a viagem oficial para renovar o encantamento com Paris e seu fabuloso ambiente cultural. Falando francês fluente, causou tal sensação na terra de Asterix que a revista Time foi direta ao fim da temporada francesa: “Havia também aquele acompanhante que veio com ela”. O marido-presidente não perdeu a piada: “Eu era o homem que acompanhou Jacqueline Kennedy a Paris”.
Um ano depois ela recebeu o ministro da Cultura francês André Malraux num jantar na Casa Branca. Ela havia inserido um toque de sofisticação nos eventos sociais da presidência, mudando menus e ampliando o perfil dos convidados para tornar as conversas variadas e mais interessantes. O convidado de honra se viu cercado de artistas, escritores, cientistas, diplomatas e políticos, e ela empregou toda sua capacidade de sedução para convencer o governo francês a emprestar a Mona Lisa aos EUA. O projeto exigiu condições especiais de transporte naval pelo Atlântico e grande aparato de segurança. Também provocou protestos acalorados de especialistas ao redor do mundo e tumultos populares na França.
A obra-prima de Leonardo da Vinci estreou na National Gallery, em Washington, com a presença de todo o mundo político e cultural norte-americano. A segunda parte da temporada foi no Metropolitan Museum of Art (The Met), em Nova York. Para Jackie, o saldo foi mais do que positivo e o governo capitalizou o encantamento popular. Foi criado um ambiente de reverência à arte inédito nos EUA — quase dois milhões de pessoas visitaram a Mona Lisa, muitas delas cruzando o país e enfrentando filas enormes sob inverno rigoroso — e o quadro retornou a Paris consolidado como ícone pop. Começou ali, graças a uma mulher visionária, o fenômeno moderno das exposições de arte de grande sucesso popular.
Não faltou quem visse naquela mulher apenas o brilho emprestado pela posição de primeira-dama dos Estados Unidos, ainda mais com um presidente dotado de diversos elementos de fascinação, o mais jovem eleito para o cargo e um dos mais populares da história do país. Até que a tragédia em Dallas revelou ao mundo que ela era talhada para qualquer situação e seu projeto de construir um legado era inexpugnável.
Ainda no Air Force One ela começou a definir o funeral de Estado do presidente. Exigiu a presença do regimento de cadetes irlandeses que havia encantado Kennedy na visita a Dublin — seria uma referência às raízes irlandesas da família, da qual o presidente sentia grande orgulho — e do grupo de músicos da guarda real escocesa The Black Watch, que se apresentara dias antes na Casa Branca com suas gaitas de foles. Com isso, definiu a única ocasião em que forças militares estrangeiras participariam de um funeral de Estado americano.
Depois que desembarcou em Washington seguiu acrescentando exigências, antes mesmo de chegar à Casa Branca. Na parte de trás da ambulância da Marinha que levou o corpo do avião presidencial para o Hospital Naval de Bethesda — conhecido como The President’s Hospital por ter sido designado para cuidar dos presidentes desde a década de 1940 —, onde ocorreu a autópsia, comunicou ao cunhado Robert Francis Kennedy que o caixão permaneceria fechado, independentemente do previsto no cerimonial oficial. É óbvio que ela tinha plena consciência da dificuldade de disfarçar o estrago das balas na cabeça e pescoço de Jack.
É provável que a parte crucial do plano que ela elaborou para garantir o legado do marido tenha se materializado dentro da mesma ambulância. Depois da autópsia, durante o trajeto entre Bethesda e a Casa Branca, no fim da madrugada do dia 23 de novembro de 1963, Jackie e Bobby estavam ao lado do caixão já encoberto com a bandeira dos EUA. De repente, ela perguntou ao motorista se ele sabia quem era James Garfield e o que ele tinha feito, e o homem respondeu respeitosamente que não. Ela então se dirigiu à enfermeira que os acompanhava e indagou se sabia quem fora William McKinley e qual o seu legado, obtendo apenas um aceno negativo com a cabeça.
Jackie explicou que ambos foram presidentes assassinados a tiros durante seus mandatos, e voltou ao motorista perguntando quem fora Abraham Lincoln e o que ele tinha feito. A resposta foi imediata: presidente que venceu a Guerra Civil e aboliu a escravidão. Nesse momento, ela pediu a Bobby que providenciasse os registros do funeral de Abraham Lincoln, guardados na Biblioteca do Congresso. Estava em Abraham Lincoln, o primeiro presidente assassinado, e na comoção que sua morte provocou, a síntese do que ela pretendia construir para garantir a JFK um lugar especial na memória do país e do mundo.
O dia já estava amanhecendo e ela perambulou por alguns ambientes da Casa Branca, ainda vestida no conjunto rosa manchado de sangue. Finalmente tirou as vestes, tomou banho e se recolheu.
O novo gabinete presidencial resistiu com firmeza quando ela comunicou que, inspirado no funeral de Lincoln, haveria um cortejo fúnebre feito em procissão pelas ruas, num ambiente cercado de prédios. As preocupações do Serviço Secreto eram compreensíveis naquele momento delicado de segurança nacional. Ninguém tinha certeza se Lee Harvey Oswald agira sozinho ou se o assassinato do presidente era parte de um complô maior.
O clima ficou ainda mais tenso porque Oswald, mesmo cercado por policiais, foi assassinado dentro da delegacia por Jack Ruby, dono de uma boate local e conhecido pelas conexões antigas com o crime organizado e a polícia de Dallas — ele afirmou que admirava a família Kennedy, estava se vingando e, matando Oswald, evitava que Jacqueline passasse pelo constrangimento de testemunhar em um tribunal no julgamento do assassinato do marido —, algo que gerou rumores imediatos de queima de arquivo, inclusive porque o FBI havia emitido alerta de que o preso corria risco de vida.
Era legítimo temer pela segurança da família Kennedy, autoridades nacionais e cerca de cem representantes de governos estrangeiros caminhando no meio da rua num cortejo fúnebre, em campo aberto para atiradores. Prevaleceu a vontade de Jackie. Impassível, ela deixou todos à vontade para cumprirem o percurso em carros e protegidos pela segurança, informando que ela e familiares estariam a pé no asfalto. Apenas as crianças seriam poupadas e seguiriam numa limusine.
Por fim, enfrentando a própria família, achou que o jazigo dos Kennedy não era suficiente e escolheu pessoalmente um local privilegiado no Cemitério Nacional de Arlington, com vista para o Memorial Lincoln. E teve a ideia de inserir na sepultura a Chama Eterna, inspirada no túmulo do soldado desconhecido que está localizado na base do Arco do Triunfo, em Paris.
O funeral de Estado teve um cerimonial inesquecível, que se estendeu de 23 a 25 de novembro de 1963 e se dividiu em velório privado na Casa Branca (23), velório público na Rotunda do Congresso (23 a 25), Missa de Réquiem na Catedral de São Mateus (25) e sepultamento no Cemitério Nacional de Arlington (25). A música esteve presente com grande destaque, a cargo de diversas bandas militares [Exército, Marinha, Força Aérea, Fuzileiros Navais, Guarda Costeira, Coral Católico da Academia Naval, The Black Watch (gaitistas escoceses), Coro de São Mateus (acompanhado pelo órgão de tubos) e USAF Pipe Band (gaitistas da Força Aérea)].
Em todos os trajetos o caixão foi levado numa carruagem de armas puxada por seis cavalos brancos perfilados em duplas, os três da esquerda montados por militares. Um sétimo, também branco e montado por um militar, seguiu à frente como guia. Logo atrás, um cavalo preto, selado e sem cavaleiro, conduzido por um militar a pé.
O cavalo sem cavaleiro é uma grande honraria militar e significa que o líder caído nunca mais montará. Ele carrega as botas pretas de montaria do cavaleiro colocadas ao contrário nos estribos, para simbolizar o líder olhando para trás, fitando sua família e as tropas pela última vez. O animal escolhido foi Black Jack, um Morgan/Quarto de Milha a serviço da The Old Guard, que no futuro cumpriria o mesmo papel solene em outros funerais notáveis — Herbert Hoover, Lyndon Johnson e Douglas MacArthur.
Ao deixar o Capitólio, o caixão foi saudado na Praça do Capitólio pela Banda da Academia da Guarda Costeira. Dali até o retorno à Casa Branca, três bandas militares marcharam nesta ordem: Banda dos Fuzileiros Navais, Banda da Marinha e Banda da Força Aérea. O cortejo foi recebido na Casa Branca pelo Coral Católico da Academia Naval.
Logo depois, teve início a famosa procissão de familiares e autoridades nacionais e estrangeiras até a catedral. Ouvia-se apenas o som dos cascos dos oito cavalos, das quatro rodas da carruagem de armas, da marcha dos milhares de militares e das gaitas de foles escocesas do grupo The Black Watch.
Tudo transcorreu sem qualquer incidente, com todas as autoridades caminhando na rua, inclusive o novo presidente Lyndon Johnson e a esposa Lady Bird. Jackie seguiu ladeada pelos irmãos Bobby e Ted Kennedy como uma espécie de guarda especial. O caixão foi levado para dentro da catedral e as portas de bronze se fecharam para ter início a Missa de Réquiem.
Quando as portas de bronze da catedral se abriram depois do serviço religioso, o caixão foi novamente colocado na carruagem de armas, sob o som da Banda do Exército. Uma dose extra de emoção foi a coincidência de naquele dia o menininho John John fazer aniversário de três anos. Foi ali que ele arrebatou o mundo fazendo continência diante do caixão do pai, uma cena que emocionou todos os militares que faziam a mesma saudação ao presidente morto. Há quem desconfie que Jackie ensaiou o garotinho, pois as imagens mostram que ela falou alguma coisa e ele imediatamente assumiu a posição militar.
Teve início o cortejo final até o Cemitério Nacional de Arlington. As autoridades e familiares embarcaram em limusines e, antes do sepultamento, Jacqueline achou conveniente que as crianças voltassem para casa. As três bandas militares que haviam feito o trajeto do Capitólio à Casa Branca marcharam na mesma ordem. De repente, surgiu no céu o som característico do Air Force One voando baixo e o mais lento possível sobre o cortejo, com o comandante realizando um leve balançar de asas como gesto de despedida do seu presidente. Enquanto o caixão era transferido da carruagem de armas para o local do sepultamento, a música ficou a cargo dos gaitistas da Força Aérea, membros da USAF Pipe Band.
Já à beira da sepultura, o silêncio quebrado pelas três descargas de artilharia e a salva de 21 tiros de fuzis, o toque de silêncio a cargo do corneteiro do Exército, sargento Keith Clark, a belíssima cerimônia Perfuração Silenciosa dos cadetes da 37ª Turma da Defesa Irlandesa com seus rifles Lee-Enfield, incluindo a manobra Reversão de Armas (as armas são apontadas para os próprios pés dos militares em sinal de respeito aos mortos), a bandeira norte-americana retirada do caixão, dobrada e entregue à família, o acendimento pela viúva Jacqueline Kennedy da Chama Eterna na sepultura — que permanece ardendo até hoje utilizando uma mistura de gás e uma centelha elétrica constante — e o sepultamento.
Jackie realizou o show que desejava. “Vou dar a ele a melhor despedida possível e tudo que ele merece”, havia prometido. Ela era uma mulher de 34 anos reconhecida pela inteligência, formação requintada, sofisticação, coragem e estilo impecável, que ajudara a moldar a estética refinada dos anos 1960. Adorada pelos americanos, agora tinha diante de si o mundo curvado pela emoção e solidariedade diante daquela tragédia pessoal. “Uma grande mulher, dona de uma vontade de ferro e imbuída de um raro sentido da história, escondida atrás de uma delicada aparência de refinada futilidade. […] A imagem chique, até meio distraída, era a armadura de uma mulher determinada e sofrida, que sabia de tudo”, avalia o jornalista Elio Gaspari.
Em meio àquele furacão engendrou uma jogada de mestre para criar um conto de fadas que manteve o legado de JFK por décadas. Poucos dias depois do funeral recebeu Theodore Harold White, jornalista político e historiador americano, ganhador do Prêmio Pulitzer e amigo da família. O encontro ocorreu em Hyannis Port, Cape Cod, no famoso complexo de verão dos Kennedy. Jackie compreendeu perfeitamente o poder daquela entrevista exclusiva para todas as partes envolvidas, e nas negociações impôs a condição de ela fazer a edição final do texto que seria publicado.
Da longa conversa resultou um ensaio, publicado com estrondoso sucesso em duas páginas da edição de 6 de dezembro de 1963 da revista Life, apenas 11 dias depois daquele funeral espetacular. Muito astuta, tinha plena convicção de que a matéria transformaria Hyannis Port, local até ali conhecido como “Casa Branca de verão”, no símbolo máximo do reino imaginário que ela instalaria no inconsciente coletivo.
O ensaio teve um tom de epílogo para o presidente Kennedy, construído pelo relato que ela fez dos momentos trágicos em Dallas e tudo que se sucedeu. De detalhes simples como o calor que fazia na cidade texana, a multidão entusiasmada no cortejo e a vontade de usar óculos de sol. De feridas dolorosíssimas como tentar recolher pedaços do cérebro do marido espalhados sobre a lataria da limusine após os tiros, a cabeça dilacerada deitada em seu colo a caminho do hospital, a expressão perplexa dele que a assombraria para o resto da vida, a decisão de permanecer vestida no conjunto rosa Chanel manchado com o sangue dele, respondendo com “Deixe que vejam o que fizeram” à sugestão da nova primeira-dama Lady Bird para trocar de roupa antes da posse do marido, e o estranhamento com a pressa do vice-presidente Lyndon Johnson assumir o cargo, a ponto de a cerimônia acontecer dentro do Air Force One ainda estacionado no aeroporto de Dallas, algo inédito na história americana. “Durante toda aquela noite, tentaram separá-lo dela, sedá-la e cuidar dela, mas ela não permitiu. Ela queria estar com ele. Ela se lembrou de que Jack havia dito sobre seu pai, quando este sofreu o derrame, que ele não conseguiria viver daquele jeito. ‘Não deixem que isso aconteça comigo quando eu tiver que partir’, ele dissera”, revelou White.
Jacqueline era uma leitora bem mais qualificada que o marido, dotada de grande perícia em utilizar jornais, revistas, televisão e ambientes da arte para transmitir mensagens políticas. Por isso, mesmo vivendo um momento de grande abalo emocional, se guiou pela razão de forma sábia ao decidir pela entrevista para a Life poucos dias depois do funeral. Naquele momento, era tudo que precisava para levar adiante seu firme propósito de consolidar o legado nobre que escolheu para JFK.
O timing foi perfeito porque ela se dispôs a enfrentar a realidade no momento certo. Estava incomodada com as primeiras avaliações muito negativas que a imprensa começara a publicar nos últimos meses a respeito do governo Kennedy, e com diversos rumores que sempre pairaram sobre vários assuntos.
Circulavam comentários para todos os gostos. O frágil quadro de saúde do presidente em razão de problemas na coluna adquiridos no futebol americano, e agravados na guerra — um grave ferimento nas costas quando o PT-109, barco patrulha que comandava no Pacífico, foi partido ao meio por um contratorpedeiro japonês —, que o obrigava a utilizar um coquetel de medicamentos (cortisona, esteroides, anfetaminas, opiáceos da classe da morfina) para conseguir se manter em atividade, especialmente depois de cirurgias malsucedidas na coluna. Suas relações perigosas com a Máfia, inclusive um longo caso amoroso com a belíssima Judith Exner (com encontros até na Casa Branca) enquanto ela também era amante do chefão do crime Sam Giancana e servia de mensageira entre os dois. Acusações da organização de extrema-direita John Birch Society, que fazia forte oposição às políticas liberais do governo e considerava JFK “parte de uma conspiração comunista interna que estava destruindo os EUA”. O rosário de mulheres das relações extraconjugais, sintetizadas na fulgurante Marilyn Monroe cantando aquele sensualíssimo Parabéns pra Você. Conturbações na vida doméstica do casal presidencial com o incremento de álcool e remédios..
O livro Aqueles Belos Dias: O Último ano de Jack e Jackie (2013), do jornalista Christopher Andersen, é focado nos meses finais do casal na Casa Branca e nas tensões domésticas. Ele revela que Marilyn passou a ligar constantemente para a Casa Branca e chegou a dizer a Jackie que se casaria com John. A resposta foi desconcertante: “Formidável! Eu saio e você se encarrega de todos os problemas”. A deusa loura do cinema que morreu em 1962, era amante simultânea de John e Bobby, e até hoje permanecem versões divergentes sobre o fim dela de acordo com o narrador: suicídio, overdose e assassinato — CIA, FBI, Máfia e o poderoso clã Kennedy incluídos nas suspeitas.
Naquele momento em que a Guerra Fria inflamava ainda mais a disputa política entre liberais e conservadores, além das controvérsias suficientes para manchar definitivamente a memória do marido, Jackie foi precisa ao se valer de dois pontos para construir o legado que desejava para ele: a comoção causada pela tragédia e a associação histórica com Abraham Lincoln. Estava a caminho um novo herói nacional.
O ponto central do relato estava minuciosamente planejado por ela. Disse que, quando tudo acabou, não conseguia parar de pensar numa cena costumeira vivida por John e ela na Casa Branca: sempre que se recolhiam à noite, o presidente colocava na vitrola alguns discos, dentre eles o preferido, a trilha sonora do musical Camelot, grande sucesso da Broadway, e ouvia a última música do lado B — Camelot Finale Ultimo (link abaixo) —, espalhando pelo ambiente o som da orquestra, a voz do solista Richard Burton e o coro poderoso. No relato ao jornalista, deu sua própria ênfase a um trecho da música: “Não deixe que esqueçam que certa vez houve um lugar, por um breve e reluzente momento, que ficou conhecido como Camelot”.
Jackie estava encenando o ponto alto do seu espetáculo, associando o breve governo do marido com a lenda da cavalaria medieval britânica, “o único e breve momento de brilho” citado na canção. Criava ali, a seu modo, uma corte, o mito da Camelot americana que sustentou o legado de JFK por muitas décadas.
O diretor chileno Pablo Larraín lançou em 2017 o filme Jackie (disponível do Prime Video), mostrando como Jacqueline Kennedy (vivida pela atriz Natalie Portman) lidou com o trauma nos quatro dias posteriores ao assassinato do marido. A fala da personagem no roteiro de Noah Oppenheim para o filme ajuda a decifrar como ela foi tecendo sua teia narrativa exposta no ensaio da Life: “O Jack amava História. Foi ela que o fez como era. Imagine um menininho com escarlatina na cama, lendo histórias do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Essa é a história da Camelot. Homens comuns que se unem para lutar por um mundo melhor. Não se engane, Jack não era ingênuo. Ele tinha ideais que acabavam unindo as pessoas e sem dúvida esses ideais continuarão existindo. É claro que haverá avanço e outros grandes presidentes. Mas não haverá outra Camelot, nada igual a Camelot”. Em dado momento da conversa, foi lapidar: “Agora ele é uma lenda, enquanto ele queria ser um homem”. O herói nacional começava a ganhar forma.
Ao fim e ao cabo, Jackie queria que o mundo sempre se lembrasse que por um breve e reluzente momento existiu algo tão especial nos Estados Unidos que ela só via analogia na Camelot do Rei Arthur. Analogia que ela usou com grande habilidade para dar legitimidade à Camelot americana. Um movimento genial e calculado para que houvesse justiça póstuma a JFK e seu legado não se perdesse, já que ele não teve tempo de alcançar uma plenitude pois tudo ficou reduzido àqueles dois anos, dez meses e dois dias de mandato presidencial (20 de janeiro de 1961 a 22 de novembro de 1963).
Ela sabia que a matéria seria publicada com destaque e repercutida no mundo inteiro, que a tragédia tinha deixado a sociedade americana sensibilizada o suficiente para endossar aquela Camelot construída com sutileza em palavras impressas. Também tinha plena noção de que as pessoas gostam de acreditar em contos de fadas, ainda mais em momentos de enorme dor coletiva.
Foi assim que ela inseriu de forma brilhante o tom particular de sua tragédia no contexto histórico da política e na alma americana. “O país inteiro assistiu ao funeral do começo ao fim. Após décadas as pessoas vão se lembrar de sua dignidade, sua grandiosidade, todos se lembrarão da senhora”, reconheceu, ao fim da agora histórica entrevista à Life, o jornalista Theodore White. O tabloide britânico Evening Standard não deixou por menos: “Jacqueline Kennedy deu ao povo americano uma coisa da qual eles sempre careceram: majestade”. A narrativa que ela construiu criou uma memória intocável, de onde o presidente emergiu como um herói nacional que venceu todas as dificuldades — algo distante da realidade, mas que pouco importava a partir dali pois a lenda estava criada.
Essa majestade se fez sentir algumas semanas depois dos funerais, quando ela se dirigiu ao povo americano novamente escoltada por Bobby e Ted Kennedy, iluminada pela beleza e compostura e com cada palavra milimetricamente escolhida: “Quero aproveitar esta oportunidade para expressar minha gratidão pelas centenas de milhares de mensagens, quase 800 mil ao todo, que eu e meus filhos recebemos nas últimas semanas. Perceber o afeto que meu marido recebia de todos vocês me deu forças. E o carinho desses tributos é algo que nunca vou esquecer. A luz brilhante dele foi apagada. Todos que me escreveram sabem o quanto nós o amávamos e que ele correspondia esse amor. Todas as mensagens serão valorizadas, não só pelos meus filhos, mas para as gerações futuras saberem o que o nosso país e pessoas de outras nações achavam dele. Quero agradecer em nome dos meus filhos e da família do presidente. Obrigada!”.
O distanciamento trazido pelo tempo permite avaliar o grande senso histórico dela ao organizar com tamanha pompa o funeral do marido, levando em conta os mínimos detalhes e pensando em como tudo iria aparecer na televisão para causar o maior impacto. Da mesma forma, arquitetou minuciosamente a entrevista à Life. “Ela sabia qual seria a reação das pessoas e o que representaria para a reputação de seu marido”, afirma o roteirista Oppenheim.
Com a habilidade conhecida, ela estabeleceu que o marido tinha gosto especial pelo musical da Broadway e sua trilha sonora. Chegou a afirmar que o presidente adorava aquele disco, embora alguns estudiosos neguem isso, considerem essa parte um exagero. De qualquer forma, ela estava interessada apenas em desenhar uma visão da era Kennedy como uma Camelot que pudesse perdurar, inclusive por questões de sobrevivência.
A Camelot americana que Jackie montou com tanto esmero teve novo impulso com o assassinato de seu cunhado Bobby Kennedy durante a campanha em busca da Casa Branca, em 1968. De novo, tragédia e dor sensibilizaram o mundo ao redor da família. Mas chegou ao fim de forma melancólica, liquidada por mais duas tragédias na corte: as mortes dela própria em 1994 e do filho John Fitzgerald Kennedy Jr. em 1999.
Claro que John Kennedy permanece no panteão dos heróis nacionais como um dos maiores presidentes dos EUA, embora a aura de nobreza que era espalhada cotidianamente tenha perdido a perspectiva original e não exista mais. Afinal, as pessoas mais jovens dentre as que viveram seu governo meteórico e a tragédia de Dallas já caminham para os 80 anos de idade e levarão consigo o que sobrou daquele fascínio.
É inegável que a Era Kennedy teve impacto duradouro e muita gente acredita que os Estados Unidos seriam outro país, bem mais avançado, se John tivesse terminado sua carreira política e, mais, fosse sucedido pelos irmãos Bobby e Ted. Diante do que se tornou real, a ideia da Camelot criada por Jackie traduziu uma percepção nostálgica do governo do marido, e que o presidente representou uma nova fronteira de esperanças e um sonho americano interrompido.
É certo que um dos maiores traumas nacionais da América seguirá fascinante, misterioso, distante de qualquer possibilidade de conclusão e cada vez mais restrito a historiadores e estudiosos políticos. Para as novas gerações se tornou apenas parte da grade curricular do ensino médio.
É compreensível. Já não existe a rainha da Camelot Jacqueline Kennedy incluindo novos capítulos ao conto de fadas que criou como meio de garantir a própria sobrevivência e da sua descendência. Também já não existe seu herdeiro John Jr., que poderia ter caminhado daquela continência inocente no funeral do pai a quarto Kennedy programado para chegar à Casa Branca — em razão do fascínio pessoal que exercia a partir da pulsante Nova York dos anos 1990, muitas vozes passaram a trabalhar a ideia de levá-lo à política, via Senado. Mas veio o acidente fatal.
A entrevista que criou a Camelot americana naquele fim de novembro de 1963 teve uma pitada do romantismo dos bons tempos: o texto final, revisado por Jacqueline, foi ditado por telefone pelo jornalista Theodore White, da cozinha dos Kennedy. As rotativas estavam literalmente paradas para que a matéria pudesse entrar naquela edição da Life, que se tornou histórica. O resto é História!
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Camelot Finale Ultimo https://open.spotify.com/intl-pt/track/1QJkWaKVvy10n4glFiLJJ4?si=ec6ea1cb9d7d4117