Por Heraldo Palmeira
Los Angeles
Nova York
São Paulo
Lisboa
Londres
Fase da Lua
.
.
5 de junho de 2026

Mundo azul

Alicja/Pixabay

Mundo azul

  • Heraldo Palmeira

“Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser. Denim índigo blue.” (Sergio Mineiro e Beto Ruschel)

O dia 20 de maio ficou convencionado como Dia Internacional do Jeans, uma forma de homenagear as calças azuis usadas por praticamente todas as pessoas dos quatro cantos do planeta. Simboliza a data de nascimento do jeans por estar ligada à concessão da patente (em 20 de maio de 1873) da calça em denim índigo blue com rebites de cobre nos bolsos.

O tecido surgiu na Europa, ganhou relevância nos Estados Unidos, virou linguagem universal do vestuário a partir dos anos 1960, se tornou a peça mais democrática do mundo da moda e agora enfrenta má fama pelo impacto ambiental da produção — cada calça consume cerca de 5 mil litros de água, da cultura do algodão, passando pela tinturaria, até as lavagens caseiras durante a vida útil —, embora sem sinais preocupantes à presença de mercado.

Existem três palavras ligadas ao produto de forma simbiótica, e quase se confundem: jeans, denim e índigo. Traduzindo, jeans é a roupa, denim é o tecido e índigo é o corante azul. Desde o início a palavra “jeans” transcendeu o nome de tecido para denominar um tipo de calça que se transformou numa das peças de vestuário mais populares de todos os tempos, um clássico indiscutível. Tamanha aceitação popular pode ser explicada pela extrema versatilidade, durabilidade e preço acessível. Tanto que a revista Time elegeu “o melhor item da moda do século 20”, disputando com outras criações lendárias como a minissaia e o tubinho preto.

Há registros demonstrando que desde o século 16 o tecido de brim era aplicado na produção de lona e peças de vestuário de trabalho. Se a base de tudo está na França do século 17, quando tecelões da cidade de Nîmes tentaram copiar um tecido italiano de algodão bastante resistente e popular, também é certo que foram três marcas icônicas norte-americanas que transformaram o jeans num verdadeiro emblema da humanidade: Levi’s, Lee e Wrangler.

A calça como conhecemos hoje ganhou dimensão histórica a partir da Califórnia, na parte final do século 19. “O jeans é um desses fenômenos que acontecem uma vez a cada século. Começou como roupa de trabalhador e se reinventou ao longo desse tempo todo. Foi sinônimo de juventude rebelde, depois descolada, até virar uma peça chique, de elite, com o surgimento das marcas premium”, diz a crítica de moda Lilian Pacce. Um dos papas da alta-costura, Yves Saint Laurent não deixou por menos: “Queria ter inventado o blue jeans. Ele tem sex appeal e simplicidade — tudo o que eu imagino quando faço as minhas roupas”. Não é pouca coisa!

Em 1890, as calças fabricadas pela Levi Strauss & Co. já eram famosas e a patente caiu no domínio público. Para proteger sua criação, a empresa adotou o número 501 — a probabilidade é que fosse a simples indicação da numeração do primeiro lote de tecidos — para designar o produto dali por diante. Nascia um novo clássico.

Desde os anos 1920 o negócio do brim azul era próspero e dividido regionalmente. A Costa Oeste dominada pela Levi’s e a Costa Leste reduto da Lee — a Wrangler só surgiria em 1947.

A partir dos anos 1930, a indústria se valeu de Hollywood para romantizar suas calças de forma ainda discreta. As primeiras aparições na telona vestiram Gary Cooper (Levi’s 501 com barra dobrada em O Caubói e a Dama, 1938, e O Homem do Oeste, 1940) e John Wayne (Levi’s 501 com barra dobrada em No Tempo das Diligências, 1939). Essas figuras lendárias do cinema começaram a definir o jeans como parte definitiva da indumentária de mocinhos e bandidos empoeirados entre cavalos e tiros.

Os estúdios ainda proibiam que as atrizes usassem calças (mesmo peças de alfaiataria) até nos bastidores, porque o conservadorismo da sociedade não aceitava mulheres com vestimentas consideradas masculinas. É célebre o episódio da equipe do estúdio cumprindo a ordem superior de esconder a calça da estrelíssima Katharine Hepburn, considerada a maior atriz do cinema clássico e única ganhadora de quatro Oscar de Melhor Atriz. Impassível, ela circulou apenas de roupas íntimas até que lhe devolvessem a peça. Mais alguns anos, apareceu deslumbrante de paletó e calça de veludo em A Mulher do Dia (1942). Além dela, as divas Greta Garbo e Marlene Dietrich também adotaram o figurino quando ainda era “inaceitável”.

Em 1934, o primeiro modelo feminino de jeans chegou ao mercado e causou controvérsias porque marcava muito o corpo das mulheres. Logo começaram a surgir fotos de diversas atrizes da Era de Ouro, como Ginger Rogers e Carole Lombard, vestindo jeans em seus momentos de lazer ou férias. A mensagem subliminar era clara: as calças não eram apenas masculinas e, aquelas de brim azul consideradas vestimenta de trabalho, também eram elegantes e adequadas para mulheres usarem no cotidiano. Quando as revistas de moda começaram a endossar a tendência e a Vogue chamou o jeans de “western chic”, as portas se abriram para o denim esse poderoso segmento de mercado.

Na década de 1940, a máquina de guerra norte-americana fez com que o jeans idealizado pelas telas de cinema se transformasse em algo palpável nas ruas europeias, por onde os soldados passaram cumprindo suas missões militares na Segunda Guerra Mundial.

Os anos 1950 chegaram colocando o conservadorismo de ponta-cabeça, a partir de um caldeirão cultural que tinha a rebeldia como prato principal. A fagulha apareceu ainda em 1948, quando o escritor Jack Kerouac cunhou a expressão “Beat Generation” (Geração Beat) para descrever um grupo de amigos vivendo de forma marginal, apostando na disrupção do modus vivendi tradicional para afrontar o establishment de forma intensa, com desbunde e inconformismo.

Era o início de um movimento cultural embasado num forte impulso de liberdade que conquistou os jovens. O primeiro sinal de que havia algo novo no ar soou com explosão do livro O Apanhador no Campo de Centeio (J. D. Salinger, 1951) — causou tal incômodo ao sistema que foi banido de escolas e bibliotecas dos EUA por muitos anos, e o autor se colocou em isolamento e silêncio. O segundo foi o Movimento Beat, agitação literária e cultural liderada pelos amigos escritores Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs, que se conheceram em 1944 na Universidade Columbia, Nova York.

Eles colocaram em curso uma reação coletiva contra a caretice, o materialismo e o moralismo, sintetizados no American Way of Life tão valorizado no pós-guerra. Para se afastar da sociedade convencional, os beatniks tiveram grande influência estética do jazz quando buscaram inspiração no comportamento, figurino e vocabulário descolado dos músicos. Faz todo sentido que o jazz — cuja base é a liberdade criativa —tenha servido de trilha sonora para uma juventude ansiosa para experimentar novos comportamentos, novas expressões artísticas e novas práticas espirituais além dos dogmas ocidentais.

Os textos que publicaram usando a linguagem desestruturada, compulsiva e cheia de gírias falada nas ruas retratavam do desbunde que vivenciaram cruzando os EUA em viagens caóticas, de carona ou de forma clandestina em vagões de trem cargueiros, atropelando todas as convenções sociais com poesia, álcool, tabaco, sexo livre, drogas e música. As letras se libertaram dos rigores acadêmicos para encontrar a realidade do submundo americano sem colocar filtros.

Os novíssimos heróis culturais e a juventude prenhe desses novos ares adotaram o uniforme azul-anil, alegre, com tom de liberdade. Abandonaram o velho nome “waist overalls” (macacão de cintura) e adotaram o levíssimo “jeans”.

As angústias existenciais também estavam na ordem do dia do outro lado do Atlântico, onde o filósofo Jean-Paul Sartre e a escritora Simone de Beauvoir juntavam gente no Café de Flore, em Paris. Eles transformaram o lugar numa espécie de escritório do existencialismo e todos os dias, entre cafés e cigarros, discutiam com outros intelectuais como Albert Camus, Jacques Lacan e Jean-Luc Godard a realidade concreta do indivíduo fora dos modelos convencionais. Embora fossem bem menos desbundados que os beatniks, também estavam discutindo o desejo do indivíduo de levar uma vida autêntica,

Ao lançar seu livro mais famoso, On the Road – Pé na Estrada (1957), Jack Kerouac apresentou a “bíblia” daquele momento espetacular de contestação. Para muitos estudiosos, no século 20, depois de O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald, 1925) nenhuma obra havia capturado o espírito da sua época de forma tão profunda.

A onda azul foi ampliada quando o cinema vestiu de forma casual estrelas como Marlon Brando (Levi’s 501 em O Selvagem, 1953) e James Dean (Lee Riders 101 em Juventude Transviada, 1955, e em Assim Caminha a Humanidade, 1956) em papéis marcados pela rebeldia. Como se fosse pouco, aquele figurino foi complementado por nada menos que uma camiseta branca e um casaco de couro preto, criando o look que jamais saiu de moda. Ali, ao fazer parte da imagem do ídolo adolescente com enorme apelo sexual, o jeans se tornou parte do arquétipo da juventude rebelde.

Enquanto a América suspirava com as curvas monumentais de Marilyn Monroe (a primeira mulher a aparecer de jeans na telona, numa justíssima Foremost em O Rio das Almas Perdidas, 1954), o outro lado do Atlântico mandou uma linda mensagem: Brigitte Bardot curtindo a nova onda numa Seafarer, com cabelos embaraçados — nada mais rebelde — e violão em punho.

Não resta dúvida de que os beatniks foram o embrião do movimento hippie que floresceria na década seguinte, e restou a impressão de continuidade entre eles. Tanto que John Lennon, um dos mais reluzentes porta-vozes dos hippies, batizou os Beatles inspirado na palavra “beat”.

Nos anos 1960 e início dos 1970 o jeans ganhou forte apelo político ao vestir todos os movimentos de protesto dos dois lados do Atlântico — hippies, manifestantes contra a Guerra do Vietnã, estudantes da Primavera de Praga e do Maio de 68 — e se transformou em símbolo onipresente da contracultura. Nessa mesma perspectiva, ao vestir maciçamente as mulheres, evidenciou em linguagem subliminar a igualdade de direitos.

Da mesma forma que eram duramente reprimidas nos países da Cortina de Ferro como valor ocidental, as calças azuis foram proibidas no ambiente de muitas escolas do ensino médio e em restaurantes americanos, o que serviu apenas para aumentar a sua importância no ideário dos jovens e como objeto de desejo.

O mundo estava diante da explosão da roupa presente em três séculos, vestindo marinheiros, mineiros, caubóis, operários, baby boomers, beatniks, hippies, yuppies, gente comum, celebridades, lendas de Hollywood, do rock, do pop, do mundo fashion… Um estilo que assumiu o protagonismo na revolução de costumes, não para de se reinventar, não conhece fronteiras geracionais e se mantém atualíssimo como fenômeno social.

Se Elvis Presley refinou o espírito caubói sempre vestindo Levi’s em seus filmes, numa relação decisiva entre a moda e a cultura pop que consolidou aquele novo visual a partir dos anos 1950, em 1971 os Rolling Stones lançaram Sticky Fingers, um dos grandes discos da história do rock, cuja capa criada por Andy Warhol chegou a ser considerada a melhor de todos os tempos. Ela mostra a região pélvica de um homem usando uma Levi’s, cujo zíper se abre para mostrar que ele está de cueca branca. Em 1984, Bruce Springsteen fez uma espécie de releitura dos velhos caubóis na capa do seu agora lendário álbum Born in the U.S.A., onde aparece de costas numa Levi’s 501 e camiseta branca.

O mercado de luxo abriu as portas para o jeans nos anos 1960, quando o estilista francês Ted Lapidus vestiu os Beatles. No fim da década, as grifes Gucci e Ives Saint Laurent incluíram peças nas suas coleções e muitas outras seguiram a mesma trilha. Mas quem colocou na passarela pela primeira vez foi Calvin Klein, em 1976, causando certa indignação nos mais conservadores. Foi o bastante para outros estilistas também abrirem espaço em seus desfiles, conferindo caráter premium a um dos maiores símbolos de rebeldia que a humanidade já inventou.

O jeans passou a fazer parte do imaginário coletivo e se tornou ícone global de estilo, liberdade, atitude e reinvenção, esbanjando conforto e versatilidade sem qualquer sinal de envelhecimento. Está estabelecido com pompa e circunstância o reino do blue jeans, onde as calças Levi’s 501, Lee 101 e Wrangler Cowboy Cut são as referências seminais e suas estrelas originais e mais reluzentes.

É difícil imaginar paramento mais adequado do que o jeans para vestir os momentos fabulosos do século 20. Por isso se tornou um figurino pronto para avançar pelo futuro, acompanhado de descendentes ilustres e complementares do jeanswear.

Jaqueta A primeira jaqueta foi a Levi’s Blouse, criada por volta de 1905. Era uma peça de trabalho para mineiros, ferroviários e caubóis, que não parou de evoluir e logo foi adotada por outras marcas como a Lee. Versátil e prática, ao longo do tempo foi integrada como item básico por caminhoneiros, atores, músicos, hippies — marcaram os anos 1960 as customizações com remendos, tingimentos, bordados e pinturas —, motociclistas e punks. Consolidou-se como item unissex e atemporal, inspirou outras linhas da indústria da moda e mantém valores originais de rebeldia e liberdade.

Jardineira No final do século 19, a jardineira começou a ser industrializada pela Levi’s e Lee, logo seguidas pela Big Smith. A peça era destinada a agricultores, ferroviários, operários e pintores. Nos anos 1950, celebridades como Elvis Presley e Marilyn Monroe começaram a usar a peça em momentos de lazer e logo virou febre nas ruas. Nos anos 1960, se tornou símbolo de resistência vestindo ativistas do Movimento dos Direitos Civis nos EUA. Nos anos 1990, houve um grande revival e personalidades como o ator Will Smith e Lady Di deram sentido urbano e descolado ao figurino.

Macacão Em 1913, a Lee criou o Union-All, um macacão conhecido como coverall, resultado da costura de uma jaqueta diretamente em uma calça. Essa primeira peça inteiriça foi desenhada para mecânicos, ferroviários e trabalhadores rurais e, diante do sucesso imediato, terminou adotada pelo Exército americano a partir da Primeira Guerra Mundial.

Short Nos anos 1960, o conceito do “faça você mesmo” da contracultura levou os jovens a cortarem calças velhas, fazendo pinturas, aplicando tingimentos e rasgando barras. Nesse processo de reciclagem criaram peças artísticas e únicas. A indústria se apropriou da tendência e a peça se tornou um sucesso, ainda mais quando um exemplar minúsculo vestiu a personagem Daisy Duke (vivida inicialmente pela belíssima Catherine Bach, de pernas esculturais) da série de TV Os Gatões. Nos anos 1980 e 1990, ganhou versões despojadas e mais largas adotadas pelos movimentos grunge e hip-hop, e skatistas.

Saia A origem é a mesma do short, quando os jovens reciclaram calças velhas nos anos 1960. Eles descosturavam as pernas e costuravam retalhos triangulares nos vãos, dando origem a peças longas e fluidas. Nos anos 1970, a peça se tornou popular depois de desfilar nas passarelas e chegar ao varejo, abandonando o ambiente hippie para ganhar as ruas com extrema versatilidade. Nos anos 1980, subiu muito sobre as coxas das adolescentes, ficou bem justa e ganhou diversos tipos de lavagens. Os anos 1990 trouxeram a diversidade de cortes e comprimentos. Artigo atemporal, passou a fazer parte das coleções de marcas famosas e segue adequada a qualquer ocasião casual.

Anos azuis O Brasil também sucumbiu à encantadora invasão azul a partir dos anos 1940. Começaram a chegar na bagagem dos militares americanos que estabeleceram sua base militar no Rio Grande do Norte (Natal e Parnamirim), durante a Segunda Guerra. Em 1948, a empresa Roupas AB lançou a Rancheiro, primeira calça nacional, destinada aos trabalhadores rurais. Era uma peça desconfortável e inadequada para o clima do país, com o agravante da sazonalidade das colheitas.

Em 1956, a Alpargatas, dona das sandálias Havaianas, criou o brim Coringa — tecido azul escuro e resistente que não encolhia nem desbotava — e produziu com ele as calças Rodeio e Far West, que começaram a conquistar os consumidores urbanos. No mesmo ano, a Staroup iniciou a produção da sua linha de jeans, longe do glamour que experimentou a partir dos anos 1970.

Nos anos 1960, o jeans estava muito presente por aqui, mas o distinto público já desejava um produto que desbotasse e perdesse o vinco, algo que somente as calças importadas ofereciam. A Alpargatas fez uma nova tentativa com a Topeka que, embora tivesse a aparência e o toque das americanas, mantinha a cor escura original e o vinco marcante.

Um novo passo veio das empresas Chaddad e Staroup, que firmaram contrato com os ídolos da jovem guarda, inundando o mercado com as calças Calhambeque (Roberto Carlos), Tremendão (Erasmo Carlos) e Ternurinha (Wanderléa). As vendas explodiram e em pouco tempo as confecções do bairro paulistano do Brás estavam vendendo suas falsificações.

Todos esses produtos nacionais pecavam pela qualidade inferior em relação às americanas, e dependíamos de amigos que viajavam ao exterior ou dos contrabandistas conhecidos para enfeitar nossos armários com as sonhadas calças Lee — as Levi’s eram menos desejadas por aqui e o brasileiro chegou a cunhar a expressão “calça Lee” para fazer referência aos jeans. E a encomenda podia ficar ainda mais reluzente com os tênis All Star importados dos EUA.

Em 1972, a Alpargatas finalmente apresentou sua linha de jeans US Top, um segmento da Topeka. O projeto foi desenvolvido em sigilo absoluto sob o código “US” — uma referência direta aos Estados Unidos, pois o objetivo era lançar um produto em autêntico denim índigo blue para competir com marcas importadas (que não paravam de chegar pelos descaminhos). O mais importante: a novidade desbotava e perdia o vinco. Por isso, a marca ficou associada ao primeiro jeans de verdade no país. Tanto que trazia impresso na embalagem “O jeans autêntico – Legítimo denim índigo blue”.

Pouco depois surgiu a Gledson, seguida por diversas marcas de grande sucesso como Ellus — criada por um ex-sócio da Gledson —, Staroup, Soft Machine, Zoomp, M. Officer, Forum, Yes, Brazil, Dijon, Toulon, Vilejack, Colcci… Cada uma delas representou épocas, tendências e estilos de vida, vestindo tribos específicas.

Os anos 1980 ficaram conhecidos como “anos azuis” em razão da grandeza do mercado nacional de jeans, que transformou o Brasil num dos maiores produtores e consumidores de denim. Somos um país que domina toda a cadeia produtiva do jeans, do algodão à comercialização do produto ao consumidor final.

Na base desse boom havia a presença decisiva de grandes indústrias têxteis. A Vicunha segue como a maior fabricante de denim da América Latina, concorrente direta da Santista. Tínhamos também a Ferreira Guimarães, que sucumbiu na grande crise que o setor enfrentou nos anos 1990, mas deixou sua assinatura inesquecível: “Toda nudez será bem vestida. Ferreira Guimarães”.

Um dos momentos mais lembrados da relação brasileira com o mundo jeans vem de 1976, quando um comercial de TV (link abaixo) arrebatou o coração de quem ainda sequer tinha completado 20 anos, como eu. Foi uma das mais belas campanhas da US Top e marcou uma geração. Um filme simples de 30 segundos, gravado na fazenda Pimenta, em Indaiatuba (SP), mostrando um grupo de jovens embarcando em um velho trem. Carregando suas mochilas, vestidos da cabeça aos pés naquele azul e embalados por uma canção inesquecível, do tipo que gruda na cabeça — os compositores são Sergio Mineiro e Beto Ruschel, mas há quem garanta que Renato Teixeira deu uma ajudinha naquela romaria.

Aqueles jovens no trem sequer conseguiriam conceber a tal conectividade de hoje. Afinal, representavam um mundo construído por conexões físicas que realmente importam. Havia curiosidade suficiente para saírem por aí em busca de aventura, em cima de um vagão cargueiro aberto cruzando imagens bucólicas. Tanto fazia descer na próxima estação ou seguir adiante. Estava ali o desenho perfeito da vida idealizada pela juventude de qualquer época. Algo que faz enorme falta hoje em dia. A identidade foi imediata porque tínhamos cabelos compridos, aquele visual riponga, queríamos uma vida adulta independente como aquela, cheia de romance e aventura.

É inegável que aquele comercial também embutia uma atitude corajosa ao transmitir poderosa mensagem subliminar, emblemática e irreverente, desde a palavra “liberdade” que abria a música até o estilo de vida dos personagens. Afinal, o país vivia um contexto histórico de liberdades restritas e severa vigilância sobre comportamento, ideias, artes e a vida em geral.

O comercial hoje é lendário, no início dos anos 2000 a Alpargatas encerrou a operação do produto e em 2023 vendeu a marca US Top para a holding mineira Cia. dos Jeans, que também é dona da Vilejack e licenciada da Wrangler. Hoje, essas marcas já não têm o charme original, mas seguem no mercado.

História O índigo, pigmento original na base do jeans, é um dos corantes mais antigos do mundo — utilizado pelos povos do Egito e da Ásia há mais de 4 mil anos — e ficou conhecido como “Rei dos Corantes” e “Ouro Azul”. Já no século 12, o historiador romano Plínio, o Velho, escreveu: “índigo, um produto da Índia, sendo uma gosma que adere à película sobre os juncos. Quando peneirado, é preto, mas, em diluição, produz uma maravilhosa mistura de roxo e azul”.

O corante tem origem em duas espécies da natureza. Indigofera tinctoria, arbusto tropical com registros históricos na Índia (origem do nome), China, Egito e Peru. Polygonum tinctorium, planta abundante no Japão e originária do Vietnã e sul da China.

Em 1883, o químico alemão Adolf von Baeyer revolucionou a indústria têxtil ao desvendar a estrutura química do índigo em laboratório. Em 1897, o corante sintético chegou ao mercado pela Basf, substituindo completamente o produto natural na produção, barateando muito o custo e padronizando o processo. O trabalho com corantes orgânicos, especialmente a síntese do índigo (anil), garantiu a Baeyer o Prêmio Nobel de Química de 1905. O índigo sintético permanece até hoje como base no tingimento do tecido denim usado na produção do jeans.

A base de tudo isso está na França do século 17, quando tecelões da cidade de Nîmes tentaram copiar um tecido italiano de algodão, bastante resistente e popular, utilizado na confecção das roupas de trabalho dos marinheiros genoveses. Os franceses terminaram chegando de forma acidental a uma espécie de sarja com estrutura diagonal inédita, que entrelaçava em sua trama fios brancos com fios tingidos pelo corante natural de índigo (anil) — extraído da planta Indigofera tinctoria, dando o clássico tom azul.

O material gerado, uma sarja ainda mais resistente e durável, passou a ser conhecido como “sérge de Nîmes”. Não demorou, teve o nome abreviado para “de Nîm”, um passo para “denim” na linguagem das ruas. Já a origem do nome “jeans” tem duas hipóteses. Vem de “Gênes”, forma como os franceses chamavam a cidade italiana de Gênova. Ou de “gene fustian”, nome original do tecido similar genovês do século 16 que era utilizado para fazer calças de trabalho dos marinheiros. São casos claros de reformulação da linguagem em razão da pronúncia original mal compreendida, e reprodução deformada por fala e escrita.

O novo tecido de Nîmes passou a ser utilizado nas roupas de marinheiros e camponeses, foi aprimorado e chegou aos Estados Unidos, onde Jacob Davis, alfaiate de Reno, ainda reaproveitava o tecido marrom das coberturas das carroças, conhecido como “brown duck” (pato marrom) para fazer calças utilizadas no trabalho pesado de mineiros, caubóis, operários de fábricas e trabalhadores em geral da Califórnia. O problema é que o material era duro demais e provocava desconforto em quem usava a roupa.

Davis é reconhecido como o inventor do jeans moderno porque passou a fabricar suas peças naquele tecido azul e aplicou rebites de cobre para reforçar costuras nos cantos dos bolsos — área de tensão onde o tecido costumava rasgar com facilidade por conta do atrito de ferramentas ou do peso do ouro transportado. O acessório destinado a garantir durabilidade às calças terminou virando elemento de autenticidade e estilo.

Sem recursos para bancar uma patente e certamente percebendo o potencial do novo produto, Davis propôs parceria a Levi Strauss, industrial têxtil de São Francisco e seu fornecedor de tecidos. A patente nº 139.121 foi concedida em 20 de maio de 1873, tendo como titulares Jacob Davis e Levi Strauss & Co. A data marcou o nascimento do jeans azul — denominado originalmente “XX” porque era considerado extraforte —, que se transformou na roupa mais conhecida do mundo, um nicho de mercado tão fabuloso que muitos chamam de “ouro azul”, cuja ideia original da calça desembocou em outras peças icônicas como macacão, jaqueta e saia.

As calças fabricadas com o denim índigo e rebites terminaram reconhecidas pela extrema resistência e durabilidade, intrinsecamente associadas ao trabalho duro no Oeste americano. Para representar a robustez da peça, a Levi’s colocou na etiqueta traseira de couro o desenho de dois cavalos amarrados a um jeans, puxando em direções opostas tentando rasgá-lo, obviamente sem sucesso.

Mesmo com a famosa Corrida do Ouro tendo ocorrido bem antes da patente (1849 a 1855), sua associação com o jeans se deu a partir de três pontos essenciais: 1) O comerciante judeu-alemão Levi Strauss abriu sua loja em São Francisco em 1853, onde começou a vender lonas e roupas feitas desse material para os garimpeiros; 2) A continuidade da exploração de ouro e outros minérios — durou até 1884 com mineração mecanizada, depois da febre inicial do garimpo artesanal — gerou a oportunidade de criar uma roupa mais confortável para os trabalhadores; e 3) A Levi’s tratou de construir a lenda para solidificar a imagem de suas calças como “as autênticas roupas dos pioneiros e garimpeiros do Oeste”.

Alto padrão O Japão produz hoje o denim mais respeitado do mercado, conhecido como selvedge, e por isso seu jeans é considerado um dos melhores do mundo. Os fabricantes japoneses utilizam índigo natural ao invés de corantes sintéticos. Não raro, os fios são tingidos à mão e a tintura natural garante ao tecido proteção antibacteriana, resistência ao fogo e repelência a odores e sujeira. Sem contar que a ponta não desfia.

Esse tipo de produção exclusiva, que muitas vezes ainda utiliza teares antigos fabricados pela Toyota, coloca no mercado produtos premium cotados em alguns milhares de dólares. Algumas grifes de alto padrão — Samurai e Momotaro — associam seus produtos ao universo dos samurais, transferindo para suas peças o conceito de “armadura moderna” da cultura guerreira.

A fama construída com esse alto nível de qualidade se reflete também nos produtos que utilizam corantes sintéticos, que também custam bem caro.

Veja o neste link

Jingle US Top   https://www.youtube.com/watch?v=4xnR8wsEAYs&t=19s

©