Reprodução/R. Carlberg
O pai do desbunde
- Heraldo Palmeira
“Tudo é energia, você só precisa entender isso e tudo é possível.” (Neal Cassady)
Há uma velha piada sobre hippies desligados que diz “Se você se lembra dos anos 60, é porque não estava realmente lá”. Mas há também uma certeza: se você esteve lá, há muito que lembrar. Afinal, está ali um momento magnífico da história humana, que começou uma década antes de forma bem mais visceral do que o velho e bom “paz e amor”.
O Movimento Beat foi uma espécie de “segmento desconjuntado da sociedade” confrontando o conformismo daquela América da classe média, cujo início tem como marca dois livros: o profético Uivo (1956, link do poema-título abaixo), de Allen Ginsberg, e On the road – Pé na Estrada (1957), de Jack Kerouac — que se tornou a “bíblia” do movimento.
Houve uma espécie de sujeito oculto, fonte de inspiração para personagens literários e modelo daquela disrupção histórica. Na verdade, um arquétipo, o patrono de todo o desbunde que rolou na juventude ocidental no século 20. Neal Leon Cassady conheceu os beatniks pessoalmente em 1946, ao visitar o amigo Hal Chase — arqueólogo que também terminou inspirando diversos personagens de Jack Kerouac — na Universidade Columbia, em Nova York. Foi o começo da estrada que transformou Cassady em ícone daquela geração que meteu o pé na estrada, e muitas vezes os pés pelas mãos, como se não houvesse amanhã.
Norte-americano de Salt Lake City, Cassady viveu de forma visceral desde a infância espalhada em becos ásperos de Denver, dividindo a miséria com o pai alcoólatra e circulando entre vagabundos daquele novo Velho Oeste americano. Surpresa nenhuma, a adolescência foi vivida entre prisões e reformatórios, mas acrescentada por uma espécie de milagre: o interesse pela leitura, que incluía quadrinhos e Nietzche.
Essa prática de leitura terminou estimulando a escrita de cartas alucinadas e sem pontuação, que enviou a Kerouac e Ginsberg e abriu caminho para a tal literatura de “prosa espontânea”, completamente nova e distante das regras acadêmicas.
Mesmo sem formação acadêmica, Cassady rapidamente se tornou amigo deles e de outros membros da Geração Beat. Nos dias que passou em Nova York visitando Chase, ele convenceu Kerouac a ensiná-lo a escrever ficção. “Neal, tendo sido criado nas favelas de Denver entre os homens perdidos do mundo, estava determinado a se tornar alguém melhor, a ser digno e respeitado. Sua mente genial absorvia todos os livros que encontrava, fossem de literatura, filosofia ou ciência. Jack tinha uma educação formal, que Neal invejava, mas intelectualmente ele era mais do que páreo para Jack, e eles desfrutavam de longas discussões sobre todos os assuntos”, revelou Carolyn Robinson, a segunda esposa de Cassady e provavelmente seu grande amor. “Ele era o arquétipo do homem americano”, completou.
Ninguém esquadrinhou com tal profundidade as estradas amplas e os becos sórdidos da América, personificando uma espécie de doce loucura que o transformou numa força motriz para aquele movimento, que revelaria o “Lado B” do American Way of Life. Por isso se tornou a grande inspiração para o personagem Dean Moriarty, o mítico vagabundo central da narrativa de On the Road – Pé na estrada. E não ficou por aí, pois Cassady apareceu em diversos outros livros do autor na pele de Cody Pomeray. Também aparece em alguns poemas de Allen Ginsberg e obras de diversos outros escritores da Geração Beat e de músicos de gerações posteriores.
Depois da convivência com Cassady, Kerouac abandonou o estilo sentimental que permeia A Cidade e o Campo (1950). “Um ímpeto de êxtase louco, sem autoconsciência ou hesitação mental” estava nas cartas que levaram Kerouac a adotar aquele novo estilo para sua escrita. Uma delas, com 18 páginas, falava de um fim de semana em Denver, anulou o bloqueio criativo (de Kerouac) e gerou On the Road – Pé na Estrada.
Cassady foi tão avassalador como fonte de inspiração, que Kerouac escreveu seu livro clássico em apenas três semanas — moldar o anti-herói protagonista Dean Moriarty a partir de Cassady pode ter sido uma espécie de retribuição inconsciente do escritor. O livro se tornou uma sensação porque capturou a “prosa espontânea” do seu inspirador para liberar fantasmas que sufocavam a sociedade americana.
Cassady também dividiu sua estrada de excessos com o escritor Ken Kesey — dado a viver sem limites e que se tornaria famoso com O Estranho no Ninho (1962) —, numa lendária viagem de ônibus de costa a costa no verão de 1964. A aventura a bordo do velho International Harvester escolar fabricado em 1939, e agora ostentando uma pintura psicodélica, começou em 17 de junho de 1964 no vilarejo La Honda, distante cerca de 70 quilômetros de São Francisco, e terminou em Nova York em 29 de junho. Devido à falta de combustível e alguns problemas mecânicos, apenas 64 quilômetros foram percorridos nas primeiras 24 horas, chegando a San José. Como o itinerário da viagem foi traçado pelo sul dos EUA, incluindo a Flórida, as estimativas variam entre 8 e 9,6 mil quilômetros percorridos na ida até a Big Apple. Estatística mais beatnik impossível!
O veículo foi batizado Furthur pelo artista Roy Sebern, que pintou a palavra com dois “u” na placa de destino acima do para-brisa, logo corrigida para a forma correta Further (“mais adiante”, em português), espécie de inspiração para não desistirem se o ônibus quebrasse ao longo caminho. Mesmo depois da correção, o nome com o erro ortográfico ainda é usado com frequência nos registros da contracultura.
A parte interna foi customizada com bancos, beliches, pia, banheiro, cozinha, fogão, geladeira com garrafas de suco de laranja batizado com LSD, e equipamento de som com comunicação interna e externa. A parte externa ganhou corrimão e plataforma com assentos no teto. Uma segunda plataforma foi soldada na traseira para acomodar gerador e motocicleta, onde também colocaram uma placa autoexplicativa daquele circo ambulante de maluquices: “Cuidado: carga estranha”.
A bordo estavam 15 pessoas, o próprio Neil Cassady ao volante, Ken Kesey e os Merry Pranksters (“festivos gozadores”, em português), grupo de artistas da contracultura californiana criado por Kesey. Os Pranksters viviam em comunidade na casa de madeira que o escritor mantinha no vilarejo La Honda, a cerca de 70 quilômetros de São Francisco, onde realizavam experiências com LSD e outras drogas para “expandir a consciência”. Serviu também de laboratório para o surgimento da banda Grateful Dead.
Kesey não era novato na liberação dos sentidos pelo uso de drogas. Em 1960, ainda um estudante que não fumava nem bebia, abandonou a preparação da equipe olímpica para fazer parte de experimentos com LSD patrocinados pelo governo. Foi recrutado na Universidade Stanford e recebia US$ 25 por dia para servir de cobaia no Projeto MKULTRA, programa ultrassecreto e ilegal patrocinado pela CIA em diversos hospitais e laboratórios americanos com o objetivo de estudar os efeitos de substâncias psicoativas como LSD, mescalina, escopolamina e psilocibina em seres humanos. Os experimentos eram realizados em pessoas comuns, prisioneiros e pacientes psiquiátricos, com o objetivo de desenvolver técnicas de controle mental, lavagem cerebral, coerção sexual e interrogatórios, e deixaram um rastro de graves danos psicológicos.
O pretexto da grande viagem no Magic Bus era promover o livro Sometimes a Great Notion (Às vezes uma Grande Idéia) escrito por Kesey, visitar a Feira Mundial de Nova York e encontrar o ídolo Jack Kerouac. O mais impressionante é que, apesar de alguns momentos tensos com autoridades do chamado Sul Profundo dos EUA, ao longo do trajeto a polícia considerou aquilo uma aventura entre amigos de uma fraternidade — naquele período, o uso de drogas não despertava muito interesse repressivo, talvez pelo fato de o próprio governo patrocinar experiências a respeito. Os policiais sequer pediram a carteira de motorista do tagarela Cassady, que não tinha uma para apresentar. Talvez tenham achado simpática a plaquinha “Neal resolve as coisas” no painel do ônibus e não flagraram as barbaridades que ele cometeu ao volante.
A promoção do livro foi caótica, assustando os editores que haviam programado um lançamento tradicional, resumida a uma festa maluca improvisada num apartamento na elegante avenida Madison, onde Chloe Scott, amiga de longa data de Kesey, estava passando o verão. Na mesma festa, o encontro com Jack Kerouac foi decepcionante porque o escritor já não estava interessado naquele modelo louco de vida e mal conversou com os visitantes. A visita à Feira Mundial não foi diferente, pois o público não recebeu bem aquela invasão destrambelhada com a chegada do ônibus. “Kesey e seus amigos queriam mesmo era experimentar LSD em grandes quantidades, e sair pelo país adentro chocando as pessoas com o ônibus colorido, as roupas malucas, ouvindo rock a todo volume e emitindo sons e ruídos através de microfones e alto-falantes instalados no ônibus. O plano era sentar no bagageiro do teto para soprar bolhas de sabão nos transeuntes e tirar um som qualquer dos instrumentos musicais que levavam. Em suma, queriam responder à seguinte pergunta: ‘o que acontece quando um comportamento estimulado por alucinógenos colide com o conformismo das vidinhas banais das pessoas comuns?’”, acredita o jornalista e escritor Marcelo Abreu.
Pouco depois de Nova York, a trupe parou em Millbrook para uma visita de cortesia ao professor Timothy Leary, guru do LSD, na fazenda onde ele realizava suas famosas experiências psicodélicas. O encontro foi organizado por Allen Ginsberg, com a expectativa de um “encontro de mentes” juntando “as cabeças ácidas da Costa Oeste com as cabeças ácidas da Costa Leste”. O resultado foi um choque entre o movimento “científico” de Leary e o estilo caótico e empírico dos Pranksters, que foram embora no dia seguinte sem sequer ver o anfitrião. Cassady foi o único a ser recebido por Leary e naquele ponto abandonou a viagem. A partir dali todos se revezaram na tarefa de dirigir o Furthur de volta à Califórnia.
A viagem terminou imortalizada no livro O Teste do Ácido do Refresco Elétrico (1968), de Tom Wolfe, e pelo documentário Magic Trip (2011, link abaixo), de Alison Ellwood e Alex Gibney — produzido a partir de imagens restauradas das muitas horas de filmagens amadoras realizadas pela própria trupe. Em agosto, o ônibus estava de volta a La Honda.
Aquela viagem despirocada virou moda nos EUA quando os hippies invadiram São Francisco, em 1967. A partir dali a nova ordem era deixar o cabelo crescer, meter o pé na estrada e viver fora do sistema. A coroação do modelo chegou com o Festival de Woodstock (1969), que espalhou esses valores para o resto do mundo. Não por coincidência, o Furthur estava lá. Foi sua última viagem.
O estilo literário de Cassady — que inspirou os beatniks — dispensava pontuação gráfica e isso já estava registrado nas cartas que chegaram a Kerouac e Ginsberg nos velhos tempos de Columbia. Sua única obra publicada foi O Primeiro Terço (1971), póstuma. É a primeira e única parte de uma autobiografia sem filtros, em que ele pretendia descrever sem rodeios sua trajetória de vida. O texto não tem enfeites ou palavras suavizadas para retratar sua infância miserável. Mostra de forma crua como tudo se deu nos primeiros tempos da vida do homem que ficou imortalizado na literatura beat como Dean Moriarty.
O manuscrito de O Primeiro Terço foi produzido na segunda metade dos anos 1950. Dado como perdido, reapareceu em 1969. O texto não contém o refinamento literário dos outros autores da Geração Beat, é um retrato autêntico da própria personalidade de Cassady. Ele pretendia dividir o relato da vida em três partes, mas morreu antes de escrever os dois terços restantes, e perdemos a chance de ler, por exemplo, sua versão da viagem no Furthur. Ou das experiências mexicanas, onde tudo chegou ao fim.
San Miguel de Allende é uma cidade com dois mil metros de altitude no Planalto Mexicano, região central do país, o que lhe garante um clima muito ameno. Ficou famosa pela arquitetura colonial e ruas de paralelepípedos, classificada como Patrimônio Mundial pela UNESCO. Naqueles loucos anos 1960 era pouco mais de uma vila remota e montanhosa. Onde os galos iniciavam a sinfonia diária na última escuridão da madrugada. Onde cães uivavam por todos os lados. Onde os sinos de 27 igrejas católicas tocavam em desalinho aos domingos. Onde era possível viver com US$ 100 por mês e virou reduto de americanos e canadenses sem rumo tentando inventar vidas novas.
Entre 1964 e 1968, Cassady apareceu em San Miguel uma vez por ano e sempre ia embora sem avisar. Em março de 1967, chegou e foi recebido com grande entusiasmo pelos hippies. Estava a bordo de um exótico Lotus Elan conversível vermelho, na companhia do amigo músico George Walker, proprietário do carro exclusivo, e que também dirigiu o Magic Bus na viagem lendária.
A escritora Diane Sward Rappaport, também notável professora, historiadora, ambientalista e pioneira na produção de música independente, era moradora da cidade e se tornou amiga íntima de Cassady. Ao relembrar a noite em que se conheceram, ela dá pistas dos motivos da adoração daqueles jovens marginalizados pelo visitante famoso: “Conforme me aproximava, ouvi-o proferir um monólogo rápido para a lua cheia, descrevendo todos na festa com uma perspicácia, acidez, sagacidade e precisão incomuns. À medida que a festa ficava mais animada, Neal continuava a engolir comprimidos, lúcido como a luz brilhante que o imprimia naquela cena surreal. Quando fomos embora, ele ainda conversava com a lua, o último homem de pé”. Esse primeiro encontro se deu numa festa em Taboada, fonte termal nos arredores da cidade, onde a maioria das pessoas estava nua e consumindo enormes quantidades de tequila associada a anfetaminas, LSD, maconha, cogumelos e peiote.
O cara era idolatrado por Kerouac, cumpriu pena, era rei do LSD, bebia e usava drogas mais do que qualquer um e se mantinha de pé. “Ele era uma lenda por todos os motivos menos prováveis. O que seus amigos consideravam heroico, eu considerava triste. Ao conhecer Neal, entendi que ele também considerava sua vida triste: ele era uma lenda por todos os motivos errados”, complementa Rappaport.
Neal Leon Cassady teve um fim cercado de lendas, beatnik por excelência. Chegara à cidade pela última vez no início de 1968, no encalço da estudante de arte californiana Janice Brown, conhecida pela Geração Beat como “J.B.”. Ela vivia em San Miguel desde o ano anterior, trabalhando no teatro do Instituto Allende.
Ele viera da fronteira, de trem. Logo que chegou foi ter com a amiga Diane Rappaport. “Ele me disse: ‘Olha, estou me tornando a minha pior versão. Estou sem trabalho e sou um péssimo amante. O que mais me resta, afinal?’ Ele confessou querer parar com as anfetaminas, esperava que Allen Ginsberg aparecesse e, de alguma forma, o salvasse. Ele me contou como era atormentado pela horda de pessoas que o cercavam e se agarravam a ele como sanguessugas. Eu conversava com ele sobre como seria viver. Ele foi o primeiro viciado que conheci com detalhes. O que percebi foi que o ódio que ele sentia por si mesmo e pelo vício, e o amor que muitos tinham por ele, não o impediram de arruinar a própria vida”, ela revelou tempos depois.
Intimamente, ele talvez tivesse consciência de que não haveria novas chances. Sua ligação com Ken Kesey na fantástica viagem costa a costa havia ampliado a notoriedade adquirida na parceria com Jack Kerouac, mas tudo aquilo já dava sinais de esgotamento. Era como se pairasse no ar a sensação de que, mesmo tendo sido fundamental para virar o mundo de ponta-cabeça, o Movimento Beat havia envelhecido e contaminado todos os seus expoentes. Afinal, havia lá fora uma série de grandes novidades provocando reações que iam muito além de delinquência juvenil e rebeldia sem causa: o movimento hippie, a Guerra do Vietnã, a luta pelos Direitos Civis, a Guerra Fria, a corrida espacial, a avalanche dos Beatles…
Em 3 de fevereiro de 1968, Cassady retornou à estação nos arredores da cidade porque, quando desembarcou dois dias antes, uma de suas malas seguiu viagem. Ele foi verificar se havia sido devolvida, mas encontrou o local fechado. Voltou por uma estrada paralela aos trilhos e encontrou uma igreja, em cujo pátio estava acontecendo uma festa de casamento à qual teria se juntado.
Segundo alguns presentes, ingeriu uma quantidade considerável de Seconal (secobarbital), barbitúrico com propriedades sedativas, hipnóticas e anticonvulsivas, misturado com pulque, bebida fermentada à base de maguey — tipo de agave tido como uma das plantas mais sagradas do México antigo e bastante utilizada em rituais religiosos. Pelo visto, era real a tentativa de se livrar das anfetaminas e, por influência de J.B., havia adotado “calmantes”.
Já bastante chapado, supôs que sua mala estaria em Celaya, cidade além das montanhas e distante 50 quilômetros. No melhor estilo Dean Moriarty, deixou o local sozinho depois de dizer a alguém — talvez a namorada J.B. — que iria até lá contando os dormentes da linha férrea.
Caminhava doidão pelos trilhos da ferrovia vestindo jeans e camiseta numa noite fria e chuvosa, quando desmaiou nas proximidades da estação e ficou exposto à intempérie. Foi encontrado caído e empoeirado junto aos trilhos na manhã seguinte por Anton Black, professor do El Paso Community College, que o carregou até a estação postal, de onde foi levado ao hospital.
Era o fim da linha. Cassady estava em coma e faleceu horas depois, quatro dias antes de completar 42 anos, e a causa de sua morte permanece incerta, entre “congestão generalizada em todos os sistemas com exposição a drogas” segundo o legista que realizou a autópsia, e insuficiência renal segundo a viúva Carolyn Robinson Cassady.
No documento oficial mexicano Acta de Defunción de Neal Cassady (certidão de óbito) não existe informação da causa mortis. Provavelmente, morreu de hipotermia. Provavelmente, morreu de cirrose. Provavelmente, morreu de pneumonia — alguns de seus amigos lembraram que ele vinha enfrentando dificuldades respiratórias nos últimos tempos. “Acordei com batidas na porta. Um policial veio me avisar que Neal estava morto. Ele foi encontrado a uns trinta quilômetros da cidade, perto da linha férrea. Ele tinha se envolvido com um grupo de mexicanos e passou o resto da vida à base de anfetaminas e tequila, um trem desgovernado rumo à destruição. Mais tarde naquele dia, descobri que Neal havia escrito seu próprio epitáfio. Rabiscado com batom vermelho no espelho do banheiro da casa de sua namorada, estava: ‘Apenas um gigolô, aonde quer que eu vá’”, recordou a amiga Diane Rappaport.
A morte desconcertante de uma lenda viva como aquela não poderia ficar livre de uma boa dose de fantasia, ainda mais quando ocorre num tempo que ainda não é o de morrer, embora ele “já estivesse apagando”. E logo surgiram teorias da conspiração. Provavelmente, forjou a própria morte para escapar de pendências judiciais na Califórnia. Provavelmente, há algo errado porque viajante experimentado como ele jamais estaria vestido daquele jeito numa noite de chuva e frio. Provavelmente, já que era profundo conhecedor do ambiente ferroviário, o corpo ao lado dos trilhos era de outra pessoa. Provavelmente, teria avisado à ex-esposa Carolyn que estava voltando para casa e, como nunca apareceu, foi assassinado.
Seu corpo obviamente foi reconhecido pelos amigos e depois cremado na cidade. A ex-companheira Anne Murphy viajou ao México para buscar as cinzas. Ela levou a caixa onde se lia “Contém as cinzas de Neal Cassady” diretamente para a ex-esposa Carolyn, figura fundamental na história dele e eternizada como a personagem Camille, de On the Road – Pé na Estrada.
Jack Kerouac e Neal Cassady se viram pela última vez em 1964, numa festa dos Merry Pranksters em Nova York. Kerouac havia se afastado de Cassady porque já não se sentia à vontade com ele. Contava para o cisma a suspensão das cartas no período prisional (de Cassady) em San Quintin (1958 a 1960), condenado por oferecer maconha a policiais à paisana e, principalmente, o tom de lenda que ganhou pelas façanhas ao volante do Magic Bus.
Kerouac achava que Ken Kesey e o LSD haviam arruinado Cassady, e Cassady achava que Kerouac bebia demais — o escritor morreu em 1969, aos 47 anos, de uma hemorragia intestinal provocada pelo álcool; estava devastado pelo vício. As discordâncias entre os dois jamais foram superadas.
Reza a lenda que as últimas palavras de Cassady foram “sessenta e quatro mil, novecentos e vinte e oito!”, indicando que não abandonara a missão de contar dormentes que se determinou. E tudo ficou ainda mais real porque Ken Kesey escreveu o conto semificcional The Day After Superman Died, uma reflexão melancólica e filosófica sobre a morte do herói da contracultura. É ali que um moribundo Cassady aparece murmurando o número lendário.
Na verdade, um mito desmanchado: “Ken e eu já tínhamos ouvido a história de Neal caminhando pelos trilhos. Eu conhecia aquele caminho. Aliás, foi assim que Neal e eu chegamos a San Miguel quando fomos de carro para lá em março do ano anterior. Eu sabia onde era. Sabia do que se tratava. Sabia a distância entre as cidades. Sugeri o número — 64.928 — e Kesey concordou. Neal não chegou tão longe. Eu fui a pé. Logo depois da igreja, fora do alcance dos postes de luz, há uma área gramada ao lado. Depois disso, eram só trilhos de trem, trilhos de trem e mais trilhos de trem, subindo em um aterro de cascalho, sem nenhum lugar para descer. Neal não foi encontrado nos trilhos. Ele foi encontrado ao lado deles. Acho que Neal estava bêbado, era tarde e ele estava cansado”, encerra George Walker, o dono do Lotus Elan conversível vermelho que causou sensação nas ruas de San Miguel.
Essa versão mais realista dos fatos não diminui a importância de Neal Cassady para a posteridade, em razão das mudanças que inspirou na cultura pop e no comportamento social do século 20. “O nobre selvagem que influenciou toda a literatura e a geração beat foi um desses personagens definitivamente maiores que a vida. Foi o frenético protagonista de On the Road, de Jack Kerouac, o ‘herói secreto’ de Allen Ginsberg, um coquetel de James Dean com Marlon Brando e uma pitada de Maiakovski, o vagabundo celestial, o pai de todos os hippies, o patrono da delinquência juvenil e da rebeldia sem causa, o motorista sem limites. Um genuíno herói americano”, define o historiador Eduardo Bueno.
É difícil imaginar Neal Cassady na velhice. Talvez por isso tenha morrido antes de envelhecer. Afinal, aquele era o cara que terminou mitificado por duas poderosas culturas rebeldes, a dos beatniks e a dos hippies. Fica o registro de um homem que viveu intensamente, nunca publicou uma linha em vida nem obteve qualquer lucro com o que acrescentou à obra de outros escritores e músicos, mas foi uma espécie de eixo do Movimento Beat. Passou de lenda underground a figura de culto nacional e se tornou imortal no ambiente literário. “Às vezes penso em Neal Cassady, cuja Estrada do Excesso terminou de bruços nos trilhos da ferrovia nos arredores da cidade. Talvez não haja realmente um lar, apenas o fim da estrada”, filosofa Tony Cohan, morador de San Miguel de Allende e autor de On Mexican Time.
Cassady desenvolveu uma espécie de simbiose com a ferrovia e foi exatamente numa delas que viajou rumo ao desconhecido que Diane Rappaport chamava de “galáxias além”. A família reagiu com dor, mas também resignação por acreditar que finalmente ele descansara da vida errante na estrada. “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”, escreveu Allen Ginsberg em Uivo. Apesar das dores viscerais de tantos personagens, houve um, aquele um que pilotou o Magic Bus, uma espécie de tapete voador da contracultura. Não por menos foi o pai do desbunde.
*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural
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