Bola Trionda (Copa 2026)/Divulgação
Começa o espetáculo!
- Heraldo Palmeira e Sylvio Maestrelli
Estamos entrando em campo para mais uma Copa do Mundo, o maior espetáculo do planeta futebol. Serão 48 seleções disputando 104 jogos em três países da América do Norte, onde o futebol é visto sob diferentes perspectivas. Para o Canadá, um simples evento, já que o esporte está longe de ser uma paixão dos canadenses, mais interessado no hóquei sobre o gelo. Para os Estados Unidos, uma questão de business e entrada de divisas pelos bolsos dos turistas, uma vez que as ondas de deportações podem surtir efeitos quanto à presença dos latino-americanos nos estádios. Para o México, que adora o esporte, a possibilidade de ver Messi em sua despedida, já que o país foi privilegiado pelas exibições fantásticas de Pelé em 1970 e Maradona em 1986.
Também entrarão em vigor novas regras relacionadas com impedimento, demora nas substituições e na cobrança de laterais e tiros de meta, tudo em nome de um jogo mais corrido.
Como de costume, o maior evento do mundo dispensa apresentações. Mobiliza o planeta inteiro, movimenta cifras astronômicas, incrementa uma rede de negócios difícil de mensurar e interesses gigantescos. Este ano, a torcida está boquiaberta com os preços astronômicos dos ingressos e só mesmo o decorrer dos jogos vai comprovar — com as imagens das arquibancadas — se a FIFA perdeu a noção da realidade financeira dos torcedores ou pode mesmo cobrar o que bem entender pelo seu show. Já nas preliminares, a Velha Senhora instalou em seu site uma espécie de revenda parecida com a dos cambistas com base na velha lei da oferta e procura.
No mercado paralelo tradicional, a festa de sempre com golpes de toda sorte. Para os famosos álbuns de figurinhas já existem 160 sites falsos mirando os incautos colecionadores, enquanto outros golpistas clonaram o site da FIFA para enganar torcedores em busca de ingressos para os jogos. Correndo por fora, o uniforme da Canarinho para a viagem aos Estados Unidos virou meme nas redes sociais. Sim, o mundo é uma bola, ainda mais em Copa do Mundo.
Enquanto isso, jornalistas especializados temem pela qualidade técnica do torneio. Afinal, há uma inegável carência de astros que atraiam os olhos do mundo para a competição, como acontecia nos velhos tempos. Outro ponto bastante criticado é o número excessivo de seleções participantes, algumas das quais sem a menor condição de disputar sequer uma série B do nosso Brasileirão. Mas o tal “expansionismo global” da FIFA possibilita esse tipo de “alargamento” baseado em inúmeros “arranjos” na distribuição de vagas. Por isso, seleções tradicionais e bem ranqueadas, como Itália, Dinamarca, Hungria, Polônia e Sérvia ficaram de fora (ausências que tiveram boa ajuda das próprias incompetências), enquanto Nova Zelândia, Jordânia, Uzbequistão, Iraque, Argélia, Panamá, Cabo Verde, Haiti e Curaçao se classificaram muito provavelmente apenas para passear. Outro ponto controverso são decisões nem sempre equânimes da FIFA baseadas em questões de geopolítica que envolvem Estados Unidos, Rússia, Israel, Ucrânia e Irã. Sem contar a submissão às regras de imigração impostas pelos americanos que já estão atingindo equipes, comissões técnicas e até equipe de arbitragem.
O torneio terá como maiores atrações os veteranos sempre efetivos Messi e Cristiano Ronaldo, além de artilheiros como Mbappé, Dembélé, Harry Kane e jovens com grandes perspectivas de consagração como Lamine Yamal, Doué, Olise e Haaland. São nomes que podem fazer da Copa um evento especial, embora este Mundial esteja bem abaixo dos anteriores na quantidade de craques presentes. Os favoritos? Parece unânime que França e Espanha, que hoje se encontram acima dos demais, com elencos poderosos e intensa disputa por titularidade, chegam com boas chances de ganhar o título.
França Conseguiu renovar seu time de forma impressionante desde o título de 2018 e o vice em 2022. Perdeu (por aposentadoria ou lesões) excelentes jogadores como Ekitike, Griezmann, Varane, Matuidi, Pogba e Lloris, mas conta com um time fortíssimo comandado pelo veterano Kanté — ao lado de Mbappé, o remanescente do time campeão na Rússia. Sem contar que o comando técnico permanece com Didier Deschamps, campeão mundial como jogador em 1998 e treinador em 2018.
Espanha Apostou em uma renovação organizada pelo pragmático Luis de La Fuente, que tem no grupo alguns jovens que atuam juntos desde as seleções de base, como Lamine Yamal, Nico Williams, Ferran Torres, Pedri, Gavi, Zubimendi e Cubarsí. O único desfalque será o atacante Fermín López, por lesão. É importante lembrar que os espanhóis são os campeões da Euro (2024). Como curiosidade, será a primeira vez em mundiais que o time não tem nenhum jogador do Real Madrid convocado.
França e Espanha chegam à Copa 2026 como favoritos, embora o sorteio das chaves tenha sido antagônico: enquanto a Espanha pegou uma chave teoricamente fácil (Uruguai, Arábia Saudita e Cabo Verde), de cara os franceses terão a surpreendente Noruega (hoje uma das melhores equipes da Europa) e o Senegal (ao lado de Marrocos, as melhores seleções africanas), além do limitado Iraque. Mas, como o novo regulamento diz que, conforme a pontuação, podem passar até três na mesma chave…
Argentina Num patamar abaixo das duas favoritas, mas também no páreo, os hermanos chegam com praticamente todo o grupo que foi campeão em 2022, no Catar. O grande desfalque é Di Maria (por aposentadoria), embora o elenco conte com Almada, Nico Paz e Nico Gonzáles. O time tem ótimo entrosamento e um robusto banco de reservas, foi campeão com sobra das Eliminatórias sul-americanas, ganhou a Copa América e manteve boa invencibilidade desde 2022. Os argentinos vivem um bom momento, a ponto de o técnico Lionel Scaloni receber críticas por não ter convocado algumas revelações que já estão brilhando na Europa. Também contou com a sorte no sorteio do grupo, e enfrentará Áustria, Argélia e Jordânia, que deverão ir pouco além de figuração.
O bloco seguinte é formado por seleções que se equivalem no que vêm apresentando. Algumas têm tradição em Copas e podem chegar ao título, embora seja necessário um encaixe significativo em campo e algumas surpresas na fase de grupos que resultem, no meio do caminho, em confronto direto eliminatório entre as favoritas. São elas:
Alemanha Chega à Copa debaixo de muita desconfiança, mas carrega a tradição de sempre se destacar em Mundiais, embora tenha decepcionado em 2018 e 2022. A nova geração alemã não apresenta craques e sua principal aposta é o conjunto de um time mediano. Talvez os alemães esperem repetir 2002, quando chegaram à decisão com uma equipe bastante limitada, mas encontraram pela frente — para alegria brasileira — um Ronaldo Nazário inspirado. Os germânicos desembarcam como ponto de interrogação e terão pela frente o indigesto Equador (vice-campeão das Eliminatórias da América do Sul), o irregular time da Costa do Marfim e o pior de todos, Curaçao. Tem tudo para passar de fase, mas o título será uma grande surpresa.
Brasil Quando a bola anda murcha, a pachecada coloca superstições em campo. Agora, acredita que repetiremos 1994 e vamos ganhar novamente depois de um novo período de 24 anos longe do pódio, como se esse fosse um número mágico. A crendice também repete que trouxemos o caneco todas as vezes que saímos desacreditados — difícil é lembrar quando saímos acreditados —, com desfalques importantes ou jogadores do Botafogo no escrete. A verdade é que a Canarinho segue como enigma difícil de decifrar. Se temos um técnico dos mais vencedores do mundo no ambiente de clubes, respeitado pela seriedade, competência e bom senso, é bom lembrar que ele terminou “tropicalizado” pelo velho oba-oba nacional: chora emocionado em entrevistas, fala em meritocracia enquanto convoca alguns de méritos duvidosos, diz o que a mídia quer ouvir e parece ter entrado na disputa do recorde de comerciais com Sebastião Lazaroni.
Temos de concordar que a bruxa se instalou no departamento médico, tirando de campo Éder Militão, Estêvão, Rodrygo e Wesley. Há também uma pressão por estarmos fora do título há 24 anos, e quase por milagre seguimos como único país pentacampeão e que disputou todas as Copas. Difícil acreditar em algum milagre quando nos representa em campo uma das mais fracas gerações da nossa riquíssima história futebolística. Por isso, vamos para a disputa com goleiros que não passam segurança, improvisando laterais por absoluta falta de modelo próprio, carentes de meio-campistas criativos, um artilheiro vocacionado para comandar o ataque, torcendo para Vinícius Jr. e Raphinha incorporaram os espíritos de quando vestem as camisas de seus clubes… Como se fosse pouco, ainda temos nossa versão de O Médico e o Monstro protagonizada por Neymar, devastado por lesões e escolhas pessoais, e que vai a Copa sem que ninguém saiba se sairá do outro lado como tragédia ou comédia, pois acreditar numa ressurreição à la Ronaldo (em 2002) parece utópico demais. Até porque o próprio jogador não parece devoto dessa possibilidade, se levarmos em conta tudo que (não) fez no seu retorno ao Santos. Com tanta coisa em jogo, ainda há um contingente de torcedores que bota fé na camisa amarela e sua tradição. Parece pouco.
Os mais pragmáticos acreditam que esta Copa será apenas um rito de passagem para a maturidade do trabalho de Carlo Ancelotti. Encurralado por pressões de todos os lados, ele parece ter conseguido apenas ferir de morte a maldição das panelinhas na Seleção Brasileira. De contrato renovado até o fim do Mundial de 2030, poderá finalmente montar seu time e trabalhar com uma nova geração que começa a pedir passagem, num ambiente bem mais favorável e livre de algumas figuras que estão em fim de carreira e gostaríamos de esquecer. Seja como for, ainda somos relativamente respeitados e não será zebra se chegarmos ao hexacampeonato. Sonhar não é proibido.
Holanda A seleção laranja vive uma fase de transição, sem talentos de fazer brilhar os olhos. Comandado pelo ex-zagueiro Ronald Koeman, o time não tem estrelas. Está muito longe de ser a Laranja Mecânica de 1974 e 1978, que escreveu uma nova página do futebol. Não bastassem as ausências por lesão do experiente defensor De Vrij e do meia Schouten, o time desembarca cercado de controvérsias, já que o treinador não convocou o ala Frimpong, o meio-campista Xavi Simons, o atacante Zirkzee e o zagueiro De Ligt. Os holandeses têm tradição em Copas, e tanto poderão disputar o título quanto decepcionar no início, pois caíram em um grupo enjoado, onde também estão o Japão (melhor seleção asiática) a tradicional Suécia e a Tunísia (uma boa equipe árabe).
Inglaterra É especialista em cair nas quartas de final, muitas vezes com ótimos elencos. Sempre entre as favoritas, não raro decepciona. Desembarca com um time de alto nível e um técnico pragmático em suas convicções, o alemão Thomas Tuchel, que causou fúria na torcida e imprensa inglesas por não convocar queridinhos da galera como os laterais Alexander-Arnold e Luke Shaw, o zagueiro Maguire, os meias Cole Palmer e Jack Grealish e o atacante Phil Foden, todos multicampeões e destaques em seus clubes. Mesmo assim, não se pode barrar os ingleses do clube de candidatos ao título.
Noruega Cotadíssima na Europa como provável boa surpresa da Copa 2026, a seleção norueguesa tem a melhor geração de sua história, atropelou a Itália nas Eliminatórias e suas principais estrelas jogam na Premier League, com destaque para o artilheiro Haaland, o volante Berge, o meia cerebral Ødegaard e os atacantes Sørloth e Antonio Nusa. Apesar da equipe muito entrosada, pesa contra os nórdicos a reduzida experiência em competições internacionais — esta será sua 4ª Copa —, o extremo calor do horário dos jogos e o azar de ter caído no chamado “grupo da morte” da primeira fase, onde enfrentará duas encrencas consideráveis, França e Senegal, e o provável figurante Iraque. Apesar disso, muita gente aposta que o time deverá surpreender o planeta bola.
Portugal Atual campeão da UEFA Nations League, tem a melhor geração de sua história, com grandes jogadores como Nuno Mendes, Rúben Neves, Vitinha, João Neves, Bruno Fernandes e Bernardo Silva. Já não vive da dependência de Cristiano Ronaldo, embora conte com sua experiência, que se coloca à disposição do grupo como mais um, aceitando inclusive o banco de reservas. A surpresa foi a não convocação do meio-campista Palhinha, por opção do competente treinador Roberto Martinez, espanhol que comandou a ótima Bélgica da geração de Hazard, De Bruyne e Lukaku. Na fase de grupos, os portugueses terão como principal adversário a Colômbia, já que Congo e Uzbequistão parecem estar bem abaixo do escrete lusitano. Portugal chega à sua 9ª Copa do Mundo com uma seleção experiente, bastante equilibrada, com craques espalhados em todos os setores do campo e pode sonhar com seu primeiro título mundial.
Diversas outras seleções têm condições de se destacar na disputa. Croácia Sempre perigosa, chega sem tantos talentos como nas últimas Copas e ainda continua muito dependente de Luka Modrić. Suíça Sempre surpreende com a oscilação do desempenho entre grandes jogos e partidas bisonhas. Turquia Desembarca com sua melhor geração desde 2002. Bélgica Mesmo com um elenco entrando em decadência, deverá manter a constância de bons desempenhos dos últimos Mundiais. Colômbia e Equador Times sempre traiçoeiros e com a malícia sul-americana. Uruguai Sem grandes opções de ataque, tem excelente meio-campo e o grande estrategista Marcelo Bielsa no comando técnico. Marrocos Nosso primeiro adversário vem experimentando grande ascensão nos últimos anos e foi semifinalista na Copa 2022. Senegal A mais técnica das seleções africanas, entra em campo com as estrelas Sadio Mané e Koulibaly. Japão Protagoniza um grande crescimento no futebol e vem derrotando seleções europeias e sul-americanas até em amistosos.
Os anfitriões Nunca estiveram entre as grandes forças do futebol. Para irem além do esperado podem contar com o fato de jogarem em casa, com forte presença de suas torcidas. Canadá Dos três países-sede, pegou o grupo mais acessível, embora as seleções da Suíça, Catar e Bósnia e Herzegovina tenham mais experiência e são imprevisíveis. Estados Unidos Não deverão ter vida fácil, pois enfrentarão as equipes muito competitivas do Paraguai, Turquia e Austrália. México Caiu num grupo enjoado onde também estão República Checa, África do Sul e Coreia do Sul, o que pode significar um risco para passar da primeira fase.
Novas tecnologias A cada Copa do Mundo a FIFA abre as portas para diversas inovações e diversos avanços que utilizam tecnologias de ponta estarão em campo.
A bola Trionda foi batizada com uma tradução do espanhol para “três ondas”, celebrando a primeira vez que três países — Canadá, Estados Unidos e México — sediam solidariamente uma Copa do Mundo. “Traz adornos como referência aos anfitriões: a folha de bordo para o Canadá, uma águia para o México e uma estrela para os Estados Unidos, enquanto detalhes em dourado homenageiam o Troféu da Copa do Mundo”, informa a FIFA. A nova bola é resultado de mais um projeto desenvolvido pela Adidas com sua tradicional parceira Kinexon, empresa dedicada a sistemas de rastreamento e análise de dados para esportes.
A Trionda tem apenas quatro painéis — a anterior, utilizada no Catar, tinha 20 — formando sua estrutura e o sensor de movimento fica embutido em um deles, enquanto os outros três (painéis) recebem contrapesos para manter o equilíbrio perfeito durante o jogo. Ela também vem equipada com chip, IA, bateria e funciona como um “computador”. Na verdade, é uma ferramenta para ajudar a arbitragem dos jogos.
O sensor rastreia tudo que acontece durante a partida e envia dados em tempo real para o sistema de VAR, numa proporção de 500 vezes/segundo. Assim, a equipe de arbitragem pode tomar decisões muito mais precisas, pois cada movimento da bola estará devidamente registrado. Essas informações são associadas com o posicionamento dos jogadores em campo e tudo passa pela análise de IA, inclusive situações de impedimento e toques de mão, permitindo uma revisão muito mais rápida por parte dos juízes. “Um dos nossos principais focos foi ajudar os árbitros a tomar decisões corretas o mais rápido possível, porque qualquer revisão do VAR interrompe o ritmo da partida” explica Hannes Schaefke, líder de inovação em futebol da Adidas.
Essa versão tecnológica da Trionda será utilizada apenas nos jogos oficiais e não estará disponível ao público — que terá à disposição uma linha de bolas com diversas versões (e preços) repetindo o design da original. Mesmo assim, não é bola para qualquer bolso. Nas lojas especializadas, os preços oscilam entre R$ 180 a R$ 999.
Já os gaiatos de plantão dizem que a FIFA poderá se arrepender de ter proibido a Rússia de participar da Copa. A vingança viria dos famosos hackers russos, que invadiriam o sistema e dariam vida própria às bolas.
Digitalização 3D Num projeto desenvolvido pela FIFA em parceria com a Lenovo, todos os jogadores convocados pelas 48 seleções terão sua versão digital. Esses avatares permitirão que os juízes vejam a exata posição dos atletas, e vai auxiliar na marcação de lances duvidosos.
Football AI Pro Ferramenta de IA criada pela FIFA, é destinada a dar suporte às comissões técnicas com análises dos dados dos jogos. Ela gera relatórios com informações sobre desempenho e posicionamento dos jogadores e aspectos táticos, com base em estatísticas e vídeos das partidas, gerando conteúdo útil para ajudar a corrigir erros e definir estratégias de jogo.