Por Heraldo Palmeira
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23 de julho de 2026

Pelé, o sobrenatural

Reprodução/Redes sociais

Pelé, o sobrenatural

  • Heraldo Palmeira

E Pelé disse “Love, love, love. Tank you!” na apresentação ao New York Cosmos.

O narrador esportivo Cléber Machado conta com prazer indisfarçado uma passagem com Pelé. Alguém perguntou quem era melhor, ele ou Messi, e o Rei respondeu com toda majestade que lhe era de direito: “Quando eu comecei, eles perguntavam quem era melhor, eu ou Di Stéfano. Depois, se era eu ou Sívori. Depois, se eu ou Maradona. Agora, eu ou Messi. Fala para eles decidirem quem é o melhor deles, e aí a gente vê!”.

O Casseta Hélio de la Peña traz a letra certa: “Messi jogou seis Copas, venceu apenas uma. O Rei jogou quatro, venceu três. Em 27 jogos, Messi fez 16 gols (cinco de pênaltis) e deu oito assistências. Pelé jogou 14 vezes, fez 12 gols (nenhum de pênalti) e deu nove assistências. E nunca perdeu uma final de Copa do Mundo. Pelo bem da lógica, vamos deixar Pelé de fora dessa discussão”.

É constrangedor ver os bobalhões afirmando que, se Pelé foi o atleta do século 20, Messi é o do século 21. Não entenderam que Pelé foi eleito sobre todos os esportes e tinha no páreo gigantes olímpicos e outros craques do futebol. Convenhamos, Usain Bolt e o próprio Cristiano Ronaldo são muito mais atletas do que La Pulga chorona.

Pelé sempre falou sobre causas coletivas — com sinceridade, sabemos hoje. No milésimo gol, em 1969, diante de um Maracanã abarrotado e da atenção do mundo, pediu providências em favor das crianças carentes e foi ridicularizado por muita gente. Três décadas depois, no posto de ministro do Esporte, idealizou e liderou a aprovação da Lei 9.615/1998, mundialmente conhecida como Lei Pelé, que aboliu a escravidão do passe dos jogadores, que condenava os atletas à condição de propriedade dos clubes.

Messi não fala sobre coisa nenhuma, quase ninguém conhece o som da sua voz que mais parece um grunhido, e não se compromete com nada, nem mesmo diante do vergonhoso racismo explícito de sua patota e da sua torcida. Sempre vestido na camisa do bom-mocismo, depois do papelão da Argentina na Copa 2026 passou a ser confrontado com inúmeros vídeos de diversas épocas, que demonstram que ele é, na verdade, o sumo sacerdote da catimba, da trapaça e da violência covarde, ora dissimulada ora explícita que caracteriza sua escola nacional de futebol. O mais triste: foi dotado de talento de sobra para o posto de um dos maiores da bola, algo que exige a lisura que lhe escapa pela tentação de ser nanico.

Em 1975, quando foi contratado pelo New York Cosmos para popularizar o soccer nos EUA, Pelé passou por testes físicos e cognitivos avançados. O resultado foi publicado pelo jornal The New York Times e não deixou dúvidas: aquele era um atleta fora do comum, com características e habilidades extraordinárias. Os batimentos cardíacos ficavam entre 56 e 58 por minuto, enquanto a maioria dos atletas profissionais marcavam entre 90 e 95 bpm. Corria cem metros em 11 segundos. Capacidade aeróbica que permitia recuperação muscular incomum, a ponto de repetir um grande esforço descansando menos de um minuto. Visão periférica 30% acima da média. “O Pelé tinha uma noção de espaço inacreditável, como se ele tivesse olhos em todo o entorno da cabeça. O cérebro inteiro dele tinha incorporado a bola, os jogadores, o gramado, de uma maneira que nos chocou. Eu nunca vi nada igual”, afirma Clodoaldo, ex-companheiro do Santos e da Seleção.

Um bom exemplo foi aquele corta-luz com o goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz, no que teria sido o mais belo gol de todas as Copas, não fosse a bola passar caprichosamente pela linha de fundo, a poucos centímetros da trave. Outra amostra fabulosa: o passe para o lateral Carlos Alberto fechar a goleada do memorável Brasil 4×1 Itália na final da Copa do Mundo 1970. Ele recebeu a bola e não olhou para trás ou para o lado; apenas percebeu a chegada do companheiro e colocou a Carijó no local certo para o tirambaço de misericórdia do tricampeonato.

Havia ali uma excelência genética que registra um baixo número de lesões, mesmo sendo caçado impiedosamente em campo. Tudo isso em um tempo sem onde não existia um milésimo dos recursos de preparação técnica e física disponíveis agora. “Hoje, se treina para dar ao atleta agilidade, ginga, movimento rápido”, explica o ortopedista e médico de Pelé, Moisés Cohen.

Na verdade, o Rei tinha tudo isso de sobra, além de uma impulsão assombrosa. Apesar da altura modesta de 1,72 m, conseguia subir acima de 1,80 m e se tornou especialista em gols de cabeça. Um exemplo clássico foi a cabeçada monumental defendida pelo goleiro inglês Gordon Banks na mesma campanha do tri. Até hoje considerada a defesa mais marcante da história das Copas, ela tem números impressionantes: Pelé media 5 cm menos que seu marcador e alcançou a altura de 2,43 m. Estava a 70 cm do solo, 20 cm acima do zagueiro.

Pelé marcou 1.283 gols em 1.363 jogos, dos quais 95 em 113 jogos com a Amarelinha. Foram quase 40 títulos em duas décadas de carreira. Os detratores sempre balbuciam que boa parte foi em amistosos, como se não estivessem lá multidões que pagaram ingresso apenas para ver o Rei em ação. Uma gente que fica muda sobre a camisa 10, que deixou de ser mais uma na rouparia para se tornou a mais importante do futebol, “condenada” a vestir o craque do time depois que um simples sorteio definiu que ela seria de Pelé na Copa do Mundo 1958, e por tudo que ele fez na Suécia vestido nela.

O mesmo soberano que, reza a lenda, parou uma guerra separatista entre Nigéria e Biafra em 1969, quando os lados em conflito decidiram por um cessar-fogo de 48 horas, para garantir a segurança da delegação do Santos e a realização do jogo contra uma seleção do centro-oeste nigeriano na cidade de Benin — em setembro de 2022, o Santos lançou um terceiro uniforme preto com motivos africanos, numa referência ao episódio.

Existem também relatos de que a mesma situação teria ocorrido numa excursão do time ao Congo Belga (atual República Democrática do Congo) e República do Congo. Na ocasião, os exércitos dos dois países suspenderam uma guerra civil, para que o jogo acontecesse.

O mesmo soberano que, comprovadamente, foi expulso, o juiz foi trocado e ele voltou a campo. Tudo isso aconteceu em 1968, numa partida entre o Santos e a Seleção Olímpica da Colômbia realizada no estádio El Campín, em Bogotá. O árbitro Guillermo “Chato” Velásquez expulsou Pelé por reclamação sobre um gol dos colombianos. Nada menos que 60 mil torcedores iniciaram um protesto com vaias, queima de jornais e ameaça de invasão. Diante da revolta, os organizadores substituíram “Chato” pelo bandeirinha, que imediatamente chamou Pelé de volta ao gramado, para delírio da galera.

Diante dessa surrada ladainha sobre quem foi o melhor do mundo de todos os tempos, é recomendável refrescar a memória:

1980 Pelé foi eleito “Atleta do Século” pelo tradicional jornal francês L’Équipe — e ainda faltavam 20 anos para terminar o século 20.

1999 Pelé foi eleito “Melhor Jogador do Século do Mundo (1900 – 1999)” pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS), com votos dados por jornalistas e ex-jogadores de todos os continentes. O Rei ganhou por uma grande vantagem e a lista é honrosa e clara, pela ordem: Pelé, Johan Cruyff, Franz Beckenbauer, Alfredo Di Stéfano e Diego Maradona — Pelé parou de jogar em 1977 e Maradona em 1997, dois anos antes da eleição, e mesmo assim ficou 500 votos atrás do Rei do Futebol.

Além do troféu de maioral do mundo, Pelé ganhou automaticamente, na mesma votação, duas subcategorias: “Melhor Jogador Sul-americano do Século” e “Melhor Jogador Brasileiro do Sésulo”.

1999 Para bater o prego e virar a ponta, naquele ano o Rei também recebeu o título de “Atleta do Século” do Comitê Olímpico Internacional (COI). Detalhe fundamental: Pelé nunca disputou uma Olimpíada — foi profissionalizado pelo Santos quando tinha 15 anos.

O comitê eleitoral foi composto pelos presidentes de 200 Comitês Olímpicos nacionais, dando um tom planetário à eleição. O brasileiro concorreu contra atletas monumentais que ganharam múltiplos ouros olímpicos. Os dirigentes do COI entenderam que sua genialidade transcendia a ausência em disputas olímpicas, e o mundo reconheceu o impacto global de Pelé não só para o futebol, mas para todos os esportes.

O Rei foi eleito numa lista das mais honrosas. Pela ordem: Pelé, Muhammad Ali, Carl Lewis, Michael Jordan e Mark Spitz — concorrentes extraordinários que ganharam 18 medalhas de ouro em várias Olimpíadas, de 1960 a 1996, disputando modalidades diversas como boxe, atletismo, basquete e natação. Na mesma época, a agência de notícias inglesa Reuters realizou votação paralela e o resultado ratificou o destino da coroa.

Há quem insista em misturar épocas completamente distintas (a começar pela quantidade de jogos que organiza as estatísticas em favor de quem veio depois) para justificar essa infantilidade de que Zé Ruela, Mané das Couves, Orêia Seca, Ventania, Quindim de Iaiá, Chico Aluado e Quebra-Pedra foram melhores do que Pelé. Só que o desenho da realidade é implacável: ele não apenas jogou futebol, ele inventou o futebol moderno. Definiu o futebol como espetáculo, entretenimento, negócio e arte. Com sua presença sobrenatural em campo, conquistou o encantamento popular para os outros esportes. Já disseram por aí que Pelé é para o futebol o que Shakespeare é para o teatro e Bach é para a música.

Acompanho futebol há quase 60 anos. Vi aquele sujeito jogar bola inúmeras vezes pela televisão, nas telonas do cinema pelo inigualável Canal 100 e, glória das glórias, duas vezes em carne e osso. Estar ali encarnado era certamente uma concessão dos deuses para nós, pobres mortais apinhados na arquibancada. Coitados dos maradonas, messis, cristianos ronaldos e todos os demais joões que fizeram fama e fortuna correndo atrás de uma bola insuflados por patrocinadores, campanhas publicitárias, assessorias de imprensa e mídias sociais, e acreditam que foram melhores do que Pelé. Eles e quem mais vier vão morrer tentando copiar as jogadas sobrenaturais do arquiteto divino do futebol moderno. Feitas há décadas. Obrigado, Pelé. Olé!

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