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Sons vizinhos
- Heraldo Palmeira
Não é novidade que o mundo ficou sem graça, sem identidade, sem ânimo. Já não vivemos em grupos que se encontram ao redor de interesses comuns, pessoas que se acompanham a vida toda, escrevem suas histórias num mesmo cenário. É cada vez mais difícil estabelecer uma conversa interessante, ainda mais quando há novas gerações presentes, porque os jovens andam parecendo velhos rabugentos, resumidos às suas telas.
É fato que uma pandemia e o individualismo implementado pelo mundo tecnológico desenharam um novo padrão de comportamento, que contaminou todo mundo e desmanchou o império emocional que as relações afetivas construíram ao longo do tempo.
Na verdade, perdemos a prática de ser íntimos, e agora os especialistas começam a discutir o que fazer para que o mundo volte a ser como era antes no trato afetivo. Sim, todos estão com medo desse futuro sem pessoas felizes, de crianças indomáveis, apenas um espaço de zumbis desprovidos da personalidade que atravessa uma vida. Sem emoção, sem amores arrebatadores, sem trilha sonora, sem gestos largos, sem nada.
Confesso que foi revigorante me deparar com o velho costume de as pessoas ouvirem boa música em casa. Não era rádio, streaming ou qualquer outra fonte externa, mas a simples ação de pegar um disco e colocar na vitrola, que permite o litúrgico movimento de mover braço e agulha para trocar de música ou recomeçar a mesma — reconheci o som característico da cápsula perdendo contato com o vinil enquanto descia a escadaria externa da casa de vila que me acolhe nas Perdizes paulistanas.
Abri o portão da calçada e ouvi espalhada pelo ar a doce canção de grande amargura, cujos elementos — letra e música — atravessaram décadas até juntarem dois mundos criativos. Alguém na vizinhança estava ouvindo Rosa de Hiroshima. Sem incomodar os vizinhos, sem alarde. Apenas ouvindo Ney Matogrosso e o grupo Secos & Molhados, revisitando as altitudes rarefeitas em que permanecem guardados momentos definitivos da nossa arte e de um tempo certamente melhor. Uma peça que juntou o poema escrito em 1946 por um Vinícius de Moraes ainda em choque com o cogumelo atômico que arrasou o Japão no ano anterior e a melodia de um Gerson Conrad prestes a fazer história num dos álbuns mais celebrados da música brasileira.
O volume do som, íntimo, sequer permitiu identificar a casa da origem, mas a música me seguiu cristalina até o portão em que a vila encontra a grande avenida de tantos destinos. E, mal digitei a senha para sair, começou a tocar Pinball Wizard. Ora, ora, Tommy estava retirando a poeira do seu fliperama.
Desci a ladeira em busca da padoca para o almoço de domingo. Meu pensamento voltou para aquele início dos anos 1970, maternidade em que aquelas duas músicas vieram à luz. Secos & Molhados e The Who, o rock’n’roll da vida com as tintas vocais de Ney Matogrosso e Roger Daltrey, hoje dois oitentões que disseram tanto com vozes indispensáveis e recursos cênicos de atores.
Pensei nas crianças de hoje, mudas que se imaginam telepáticas porque “falam” com inteligências artificiais. Tive pena delas, órfãs de uma existência bordada de valores culturais que definiram nossa identidade cultural. Tive pena delas por jamais conhecerem o significado de tratar feridas emocionais fechando a porta do quarto e ligando o toca-discos, às vezes completando a terapia rabiscando papéis com as bobagens que viessem à cabeça — o simples fato de, ao fim, amassar o papel e arremessar no cesto era um grito silencioso que ainda permitia fantasiar uma cesta espetacular do basquete.
A padoca estava animada, era sempre assim. Os velhos amigos atrás do balcão, alguns rostos conhecidos ao redor das mesas. As conversas fiadas de sempre, as gozações, as risadas. A TV no alto da parede, ligada, sem som, mostrando os mentirosos da política em suas mímicas de campanha no horário eleitoral — deixá-los calados na tela plana era a melhor manifestação do nosso desprezo gratuito que souberam conquistar.
Permaneci quase duas horas naquela convivência gratificante, até que a Defesa Civil disparou pelos celulares um “Alerta severo” de chuva forte com raios, vento e possibilidade de granizo. Levantei de pronto, paguei a “dolorosa” e me despedi. “Vem jantar?”, quis saber o gerente. “Pra variar!”, concordei e rimos.
Já na calçada, olhei para o céu carregado por uma tempestade que ameaçava desabar e me ensopar na subida da ladeira de volta para casa. Apressei o passo. Digitei a senha no portão da rua e entrei na vila. Agora estava no ar Paul McCartney, uma espécie de voz coletiva do mundo, espalhando Venus and Mars. Como explicar para quem não tem trilha sonora que é possível enxergar luzes coloridas, estrelas, Vênus e Marte, e que isso faz parte da vida?
Os sons vizinhos seguiram embalando a tarde. A tempestade não veio, apenas o vento açoitou árvores, pássaros e folhas secas por algum tempo. Da minha janela frontal no terceiro pavimento da casa, fiquei pensando se não era uma tentativa dele de fazer parte daquela sinfonia suave oferecida por um toca-discos abençoado.
*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural
Ouça nos links
Rosa de Hiroshima https://www.youtube.com/watch?v=xjAdCroaMFQ&t=4s
Pinball Wizard https://www.youtube.com/watch?v=fW0ix2pYqBo&t=5s
Venus and Mars https://www.youtube.com/watch?v=i_DgoXQTb6U&t=4s