Por Heraldo Palmeira
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1 de novembro de 2026

HERALDO PALMEIRA A música em pessoa

Divulgação/Miguel Sampaio/Sol Costa Produções

A música em pessoa

  • Heraldo Palmeira

“Música, música | Irmã, imã, irmã | Farol na cerração dos grandes medos | A força que levanta os bailarinos | Elétrica guitarra entre os dedos aflitos e quentes dos meninos | Ou mansa como o último carinho, quando já chega a manhã” (Sueli Costa-Abel Silva)

Era apenas uma quinta-feira quente de primavera tropical que tinha tudo para ser comum, apenas mais um daqueles dias que passam sem qualquer registro. Mas o fim da tarde havia reservado um portal para o que não se toca, não se vê, é apenas sentido pela cerimônia da música. Era o início das duas horas em que foram revividos trechos de uma vida inteira, de um sacerdócio praticado pelas cordas de uma guitarra com um amor de plena reciprocidade.

Estava começando um passeio pelo tempo espalhado em 60 anos de carreira, que manteve viva uma eterna criança que precisou amadurecer, muitas vezes na marra. Também estavam ali, majestosas, as rugas marcando o rosto como resumo de uma grande história.

No palco intimista de um auditório da Escola de Música da UFRN, um microfone, pedais de efeitos e três guitarras. E o homem de preto, cabelo e barba em prata celeste, a mesma cor que o luar reflete em nossos devaneios criativos e viagens emocionais. Tudo isso diante de uma plateia respeitosa de diversas idades e tribos.

A voz soou contida como sempre, suave sem esconder as dores, muito menos as alegrias. As mãos que escreveram mais de mil arranjos — todos gravados — flutuavam sossegadas, sem correria, reforçando as palavras… até que pousaram sobre as cordas da guitarra. A mesma reação química que aparecia nas domingueiras, nos estúdios, nos palcos, nas noites insones de estudo estava ali, transitando em notas apressadas ou acordes amplos e calmos. Tudo soando claro e exatamente no lugar certo. Um homem e seu ofício, pleno da autoridade de quem nunca transformou música em negócio. Um homem entregue com fidelidade à grande companheira que abriu picadas na selva da sobrevivência nos trechos mais difíceis. Alguém que virou professor para ensinar o muito que aprendeu.

A fala mansa seguiu folheando a partitura pessoal página por página, tocando uma história que acompanhei desde quando eu era pouco mais que um menino encantado por aquele som visceral das domingueiras dançantes dos clubes, nos saudosos anos 1960 e 1970. A banda era o Impacto 5, famosa, refinada. Tocava aquelas grandes músicas — improváveis nos outros bailes — que reviraram nossas cabeças e ajudaram a nos levar para o lado da juventude transviada que assustava a caretice reinante. E o jovem guitarrista era a grande atração daquele reino feliz, reproduzindo à perfeição todos os solos gravados pelos maiores do mundo em discos de sucesso planetário.

Lembro de quando comprei o LP (só chegou aqui importado e bem caro) Venus and Mars, de Paul McCartney. Era 1975, e logo o meu baile já tinha no repertório Medicine Jar (link abaixo) com aquela guitarra assombrosa. E ainda tocavam algumas do álbum Band on the Run (1973). Sim, nossas domingueiras daquela época eram dançadas nesse nível de pista.

Seguimos trombando pela vida no Rio de Janeiro dos anos 1980, ele cada vez mais avançando no conhecimento musical, iniciando uma trajetória em estúdios e bandas de artistas como Elba Ramalho, Clara Nunes, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Gilberto Gil e uma quantidade incontável de artistas independentes, que ganharam pitadas generosas do seu talento. Eu mesmo fui um desses privilegiados, até hoje maravilhado com seus arranjos e guitarras em Trem pra Buenos e Os Lobos (links abaixo) naquele longínquo 1988 em que produzi meu álbum Novas Visões Urbanas.

Aquela quinta-feira de primavera foi uma celebração. Para minha sorte, meu pequeno conhecimento musical jamais foi barreira para que nos aproximássemos. Viramos amigos com pitada de irmãos, confidentes que ora choram junto ora festejam a capacidade de manter a esperança na vida. Concordamos e discordamos. Falamos de música, da nossa saudade doída da Lígia tatuada no coração dele como cara-metade, dos nossos meninos que cresceram tanto, dos amigos que nos completam, dos indesejáveis que nos assustam, até da última notícia.

A esta altura já sabemos que nada será como antes, mas nossos pés continuam levantando o pó da estrada. Da minha parte, é bom saber que Joca Costa está sempre ali do outro lado, do mesmo jeito de sempre, sem surpresas desagradáveis. Com a estirpe de quem não precisa provar mais nada. Com a guitarra como extensão do corpo. Com o caráter reto que retrata sua alma. Com a facilidade de se emocionar. Com a mania de não trastejar. Desafinar jamais.

Foi ótimo ter estado lá. Ter rido e chorado junto durantes os relatos. Ter ouvido prosa e música da boa. Foi bom ter reencontrado a música em pessoa. Obrigado por tudo, meu velho!

Ouça nos links

Música, Música   https://www.youtube.com/watch?v=c2SoWop3bds&t=228s

Medicine Jar   https://www.youtube.com/watch?v=HnA3EDO2UdU

Trem pra Buenos   https://youtu.be/Uha1E3Dt4iY

Os Lobos   https://youtu.be/aQ5O-qCImzM

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