Por Heraldo Palmeira
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3 de abril de 2025

Amigos de araque

Moshe Harosh/Pixabay

Amigos de araque

  • Heraldo Palmeira

Sabemos que o mundo moderno está chatíssimo. A competição é enorme em todos os setores e se expande para os círculos sociais íntimos. Até para os familiares. Talvez seja uma pista para explicar por que cada vez mais pessoas andam dizendo que lidar com gente é um saco e blá-blá-blá.

Sim, de repente o blá-blá-blá passou a dar o tom dos relacionamentos, ainda mais quando se entra no mundinho das redes sociais, onde tudo é majoritariamente dito/vivido na frieza de textos, áudios e vídeos completamente impessoais. A comunicação é truncada porque não estão em cena características comuns a qualquer boa conversa – entonações, gestos, semblantes, reações, sutilezas…

Estamos vivendo a era de gente autorreferencial. É um tempo incrível onde todo mundo quer ser manchete sem ser notícia. Pouco importa, a sociedade está viciada na ostentação que publica em canais onde a comprovação é rasa. São cenas em restaurantes, festas, viagens, locais paradisíacos, carrões, bebidas, grifes… O roteiro clássico que move a vaidade e alimenta uma disputa infantilizada onde pontifica uma regra: ostentar sempre e mais. O que interessa é exibir uma felicidade que ninguém tem.

Nesse cenário gelatinoso de ostentação há um fenômeno cada vez mais constrangedor: pessoas que tentam mostrar uma importância que nunca tiveram. Basta morrer alguém famoso ou semifamoso e essas figuras complexadas resgatam fotos amareladas do baú para tentar demonstrar intimidades que provavelmente nunca existiram – quase sempre, fotos tiradas por educação do famoso em um daqueles incontáveis eventos que se perderam no tempo e sumiram de suas lembranças.

Como complemento, escrevem textos quase publicitários onde se tornam mais importantes do que o morto que pretendem “homenagear”. Tentam aparentar uma amizade que, quase certo, o coitado do defunto sequer teve conhecimento em vida.

Certa feita, diante da morte de uma mulher famosa, um sujeito publicou num grupo a foto de ambos. Ele mal cabia na dentadura exposta e na linguagem corporal, tentando parecer íntimo. Ela com semblante de evento social, parecia só querer se livrar da tietagem e ir encontrar os verdadeiros amigos. No post, ele não economizou na “grande amizade”, mas anotou que lá se iam 13 anos sem contato. Sim, é risível a falta de semancol nessas “amizades” unilaterais.

Há um caso épico de um sujeito que, em posts frenéticos, ficou matando um artista dois meses antes da morte morrida. E, na sequência, um político, uma semana antes do último suspiro. O importante era publicar suas fotos ao lado dos famosos e “sair na frente” no anúncio das mortes, sem qualquer empatia pelo sofrimento que as duas figuras públicas enfrentavam em seus últimos dias de internação hospitalar – querer que um idiota desses pense na dor das famílias já é pedir demais.

Um amigo jornalista, habituado aos bons tempos da comunicação nos melhores meios da nossa imprensa, e agora observando o velho mundo da confortável poltrona da sua aposentadoria, não deixa pedra sobre pedra a respeito desses amigos de araque:

“No momento da perda de uma pessoa conhecida deve-se reverenciar a memória dela, sua contribuição à humanidade, sua importância para aquela geração. Mesmo que você a conheça, tenha desfrutado de sua convivência ou amizade, nunca, jamais deve se aproveitar do finado para engrandecer sua própria biografia. Incrível a capacidade de ser ‘humano’ querer tirar alguma vantagem em cima de uma pessoa que morreu, com o intuito óbvio de se autopromover e enaltecer a si próprio. Que coisa baixa e mesquinha!”.

Esse tipo de gente não tem pudor algum. Por óbvio, nenhum refinamento para compreender que ninguém precisa propagar amizades, elas existem e pronto. Quando uma das partes é figura pública, a divulgação do zé comum é só um meio oportunista de alimentar a própria vaidade.

Os sanguessugas das imagens confiam no óbvio: como o morto famoso já está noutro plano, ocupado em se apresentar ao Divino e conhecer as instalações da Eternidade, não pode mais mandá-los solenemente à merda! – até porque essa linguagem não cabe no ambiente de serenidade do Plano Superior. Fica o dito pelo não dito, até que uma nova morte reative o vexame.

E nós, que ainda estamos por aqui, é que temos de aturar essas malas sem alça entupindo nossas redes sociais com seus desvios patológicos em busca de celebridade. Mas há uma doce vingança: as conversas privadas entre os membros dos grupos, rindo desses bobocas. Pelas costas, como recomendava Ariano Suassuna. Sim, eles até ganham apelidos, e o mais corriqueiro é “Forrest Gump”.

Os mais gaiatos nas conversas privadas apostam que, ao morrer, esses coitados “permanecerão vivos”, pois ninguém sentirá falta. Afinal, não têm amigos de araque como eles. É o que dá querer ser manchete sem ser notícia.

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