Divulgação/Disney+
Amor e tragédia
- Heraldo Palmeira
GIRAMUNDO VIU História de Amor: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette (2026) conta a história de amor avassaladora que juntou John Kennedy Jr. e Carolyn Bessette numa vida real que sempre esteve mais próxima do irreal. Criada/produzida por Ryan Murphy, a obra é baseada no livro de Elizabeth Beller, Once Upon a Time: The Captivating Life of Carolyn Bessette-Kennedy (2024). A minissérie tem nove capítulos e está disponível no Disney+.
Não bastasse a poderosa carga emocional da história do jovem casal de celebridades que eletrizava a América, a minissérie leva o telespectador para dentro de “Camelot”, a representação mais próxima de uma realeza que os Estados Unidos já teve: a família Kennedy. Acrescente-se como pano de fundo a fascinante Nova York dos anos 1990 adornada por uma trilha sonora espetacular, perfeitamente encaixada no enredo, e História de Amor: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette consegue ir além, e revisita um pedaço inesquecível do século 20.
A minissérie não poderia escapar de um certo tom histórico e, sob esse prisma, oferece um olhar precioso sobre três mulheres lendárias imersas em reflexões pessoais inesperadas e reveladoras. Jackie Kennedy Onassis, um verdadeiro ícone cultural, idolatrada pelo estilo e elegância, já reclusa, se mostra mãe amorosa e enfrenta com grande destemor o câncer que lhe foi fatal. Caroline Kennedy, inarredável na proteção da privacidade familiar, uma fortaleza que não se furta a expor suas dificuldades emocionais e o amor incondicional pelo irmão. E Ethel Kennedy, ciente de suas limitações, assumindo o lugar de matriarca com a morte de Jackie e se tornando peça de resistência das rígidas tradições familiares. Há uma quarta, não menos forte apesar de desconhecida, Constance Zimmer. Ela perdeu duas filhas no mesmo dia – Carolyn e Lauren Bessette – e foi capaz de dobrar a poderosa família de John na hora de definir como seria o funeral.
Sob o comando de diversos diretores, Paul Anthony Kelly (John) e Sarah Pidgeon (Carolyn) encabeçam o elenco que também conta com Naomi Watts (Jackie Kennedy Onassis), Grace Gummer (Caroline Kennedy), Jessica Harper (Ethel Kennedy), Constance Zimmer (Ann Freeman) e Alessandro Nivola (Calvin Klein).
É uma volta no tempo extremamente bem representada cenograficamente, mostrando o cotidiano festivo do solteiro mais cobiçado do mundo de então. Considerado um dos homens mais bonitos e famosos de sua época, carregava um dos sobrenomes mais icônicos dos Estados Unidos, circulava por Nova York de bicicleta e era um idealista determinado a deixar sua marca no mundo. Caiu de amores por uma mulher repleta de adjetivos: linda, talentosa, singular, ícone da moda, magnética, independente. Uma estrela por mérito próprio, foi de assistente de vendas a executiva de publicidade da grife Calvin Klein e se tornou confidente do estilista. Ele apresentou os jovens que formaram um dos casais mais icônicos do século 20.
Carolyn Bessette substituiu ninguém menos que a belíssima atriz Daryl Hannah – mostrada de forma controvertida na minissérie, provocando reação veemente da atriz – na vida de John, um incansável namorador de beldades e celebridades. Dona de temperamento e convicções pessoais fortíssimos, a moça esfuziante e descolada que não se dobrava a nada ou ninguém deixou claro desde logo que não se impressionava com a fama e o peso do sobrenome do rapaz.
Ela nunca foi sombra dele, era sua igual. Brilhava tanto quanto ele, mudava a energia de qualquer ambiente quando chegava. Leitora voraz, era conhecida por conversas profundas e interessantes. A mesma Carolyn acessível, gentil e acolhedora com as pessoas conhecidas era distante e misteriosa com os desconhecidos. Não bastasse impor um casamento para apenas 40 pessoas realizado em completo segredo na remota ilha Cumberland, na Geórgia – que deixou a imprensa tonta e irritada –, depois do enlace ela jamais concedeu entrevistas.
Tudo que se tem são 11 segundos de sua voz, gravados em duas edições distintas – uma em 1998 (oito segundos), outra em 1999 (três segundos) – do programa televisivo Entertainment Tonight. Essa postura inacessível pode ter alimentado uma imensa animosidade da mídia e um cerco cada vez mais sufocante para alguém que não conseguia lidar com aquele assédio e a perda da privacidade.
É exatamente a questão da privacidade que vai ganhando importância capital no relacionamento, inclusive motivando crises que quase separaram os dois. Afinal, se casar com o mais midiático dos Kennedy significava modificar completamente o estilo de vida e acumular perdas emocionais. Enquanto ele seguia o ritmo costumeiro, para ela havia se tornado impossível continuar sendo a garota comum e feliz de sempre, que tinha um trabalho apaixonante e uma agenda recheada de festas, almoços, jantares e encontros com amigos.
É nesse ponto que a minissérie se debruça sobre os efeitos devastadores da mídia de fofocas, com os paparazzi fazendo seus cercos infernais, mostrando inclusive o enorme impacto que a morte da princesa Diana teve sobre Carolyn. Como o casal passou a ser uma espécie de obsessão nacional, havia um verdadeiro acampamento de repórteres e fotógrafos diante da portaria do prédio residencial em TriBeCa, uma das regiões mais cobiçadas de Manhattan e onde vive a elite de NYC.
Eles moravam no último andar de um edifício com apenas 19 unidades e pé-direito generoso, uma construção de 1921 seguindo as linhas arquitetônicas típicas dos lofts industriais que definiram a estética descolada do bairro. Foi nesse imóvel decorado sem excessos, muito distante do padrão luxuoso da família Kennedy, que o casal começou a enfrentar sérias dificuldades no relacionamento em consequência da fama. A atenção que despertavam afetava ambos de forma completamente diferente.
John nasceu debaixo de flashes e se tornou celebridade instantânea aos três anos. O mundo estava desolado com a tragédia do assassinato na via pública, com imagens brutais depois mostradas pela TV, do mais popular presidente norte-americano de todos os tempos. Nesse ambiente de consternação planetária, surge aquele menininho de três anos fazendo continência diante da urna funerária presidencial onde jazia o corpo mutilado do próprio pai. Algo que lhe impôs viver sob os olhos do mundo, um peso tal que Jackie chegou a se arrepender de tê-lo batizado como o nome de JFK.
Carolyn perdeu contato com o costume comungado com o marido de andar pelas ruas e frequentar estabelecimentos simples, inclusive no próprio bairro. Em pouco tempo havia sucumbido às complexas consequências da perda de privacidade, e passou a viver trancada no apartamento constantemente vigiado pela mídia. Algo absurdo para alguém que só desejava manter uma vida interessante e um cotidiano comum.
Chegou ao cúmulo de usar o mesmo figurino todos os dias – jeans e camisa branca, cabelo preso em rabo de cavalo e óculos escuros. Imaginou que deixando as fotos dos paparazzi sempre iguais, eles parariam de persegui-la em todos os lugares. Doce ilusão.
Quando a pressão ficava insuportável, o casal se recolhia numa discreta casa de verão em Sagaponack, nos Hamptons. Para contornar a questão da privacidade eles adquiriram um terreno em Connecticut, onde pretendiam erguer uma residência com acesso controlado e cercada pela natureza. Estava em curso a busca por uma vida menos exposta, até que, em 1999, o pequeno Piper Saratoga pilotado por John caiu no oceano Atlântico, nas imediações de Martha’s Vineyard, e colocou ponto final numa história que o mundo acreditou ter vivido junto.
John, Carolyn e sua irmã, amiga e confidente Lauren morreram jovens e não tiveram a chance de envelhecer para contar suas versões da história espetacular que viveram.
Muitos consideram Carolyn tão estilosa quanto a sogra e que ela daria sequência natural ao legado de Jackie. Por um capricho da vida não se conheceram, a matriarca morreu quando o namoro ainda não era sério o suficiente para as apresentações oficiais.
Não tivesse a vida interrompida tão cedo, talvez conseguisse desfazer a imagem de “rainha do gelo” criada pela mídia que a perseguia por Nova York. “Carolyn adorava rir e tinha uma risada contagiante. Muitos de seus amigos ficam tristes por ela ser lembrada principalmente como um ícone de estilo. Carolyn também deveria ser lembrada por sua gentileza e generosidade, por seu humor, por sua compaixão e, acima de tudo, por seu grande senso de diversão”, lamenta Colleen Curtis, amiga e colega de quarto na Universidade de Boston.
História Camelot é a cidade e o castelo que teriam servido de sede para a lendária corte do Rei Arthur. Como não há provas de que tenha existido de fato, é considerada uma história poética ficcional que se passa em locais históricos da Grã-Bretanha posterior ao período romano, e faria parte do Ciclo Arturiano, parte central da chamada Matéria da Bretanha – conjunto de lendas medievais de origem geralmente celta, cujas histórias mais conhecidas estão relacionadas às figuras do Rei Arthur e seus Cavaleiros da Távola Redonda.
Camelot atravessou o Atlântico e chegou aos Estados Unidos como uma metáfora criada pela mítica ex-primeira-dama Jackeline Kennedy, logo depois que seu marido presidente John Fitzgerald Kennedy foi assassinado diante de uma multidão em Dallas. Em meio à comoção mundial com a tragédia, a sempre antenadíssima Jackie queria garantir o legado daqueles mil dias que viveu na Casa Branca e citou a lenda do Rei Arthur, tema central do clássico musical Camelot (encenado na Broadway em 1960) para descrever a breve presidência do esposo como um período jovem, brilhante, idealista, glamoroso, cheio de bondade e esperança. Foi assim que ela estabeleceu semelhanças à mítica corte do Rei Arthur e criou uma marca que permanece viva desde 1963. O termo ficou imediatamente popularizado e associado à família Kennedy, como que estabelecendo uma espécie de corte norte-americana, o mais próximo que os Estados Unidos tiveram de uma realeza.
O musical de 1960 foi criado por Alan Jay Lerner e Frederick Loewe, tendo no elenco Richard Burton, Julie Andrews e Robert Goulet.
Veja o trailer neste link https://www.youtube.com/watch?v=Nt8NjcvjGCE