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As bengalas
- Heraldo Palmeira
O dia amanhecera nublado, aqui e ali uma suave neblina – a garoa dos paulistas – caia sobre a cidade. Ainda não estava claro se a brisa fresca que vinha do mar traria sol ou chuva.
Logo depois do café, as primeiras letras do dia sendo rabiscadas com BiC Cristal azul, papel e teclas de computador – o melhor dos dois mundos que faço questão de manter em harmonia. A frente envidraçada do apartamento garante visão do alto sobre os arredores, uma privilegiada torre de guarda sobre o que ainda não aconteceu.
O som baixinho espalhava Venus and Mars (o quarto álbum da carreira de Paul McCartney pós-Beatles ainda no período em que buscava proteção como banda – The Wings), lançado em maio de 1975. À época do lançamento o vinil era raro, pois só chegou ao Brasil a versão importada custando o triplo dos outros.
Uma cena que chamou a atenção lá embaixo do prédio: um casal de cegos brancos vinha caminhando pelo asfalto, guiado por um homem negro. Ali era um encrave do bairro beira-mar que concentra turistas na cidade que se vende como destino turístico. Muita gente acredita, dada a quantidade de visitantes o ano inteiro.
Era hora de as pessoas saírem para o trabalho e os veículos trafegavam no mesmo sentido daqueles pedestres, chegando pelas costas deles com seus ocupantes aparentemente não percebendo as bengalas. Mas carregavam a afiadíssima impaciência que domina as ruas e todos os lugares públicos. Não dá para esperar dessa gente algum conhecimento da legislação que concede prioridade a pedestres, ciclistas, motociclistas… numa ordem crescente derivada do grau de risco que correm em acidentes de trânsito.
Aqueles caminhantes tentavam escapar dos finos de carros e motos – alguns emitindo buzinadas de irritação pela “invasão” do asfalto. Um motoqueiro (sem camisa, sem capacete e com o escapamento aberto) chegou a tirar um daqueles finos acrobáticos – erguido apenas sobre a roda traseira – e claramente proposital, e gritou alguma coisa que não entendi. Depois olhou pelo retrovisor, deu uma desacelerada, mas não sei tinha capacidade cognitiva para reconhecer as múltiplas faces da própria imbecilidade.
O apartamento cercado de janelas permitia acompanhar em visão de 360 graus o trajeto daquelas pessoas que, pelos trajes e acessórios, pareciam turistas. Era como se fosse possível colocar sobre ela um drone reportando a iminência de um atropelamento ou a falta de empatia que estamos vivendo.
Na primeira esquina depois do prédio, pararam para atravessar e dobrar à esquerda. Entraram numa rua de paralelepípedos e a caminhada perdeu ritmo. A visão do alto mostrava outra via, perpendicular, onde ia um senhorzinho castigado pela idade, maltrapilho, bengalinha tateando o mesmo piso irregular de pedras e saliências. Levava dois sacos de supermercado como quem carrega no perímetro do corpo o patrimônio possível.
Aquelas pessoas estavam próximas, mas não se cruzaram. Sofreram pela ausência ou péssimo estado das calçadas, semelhança que une as cidades brasileiras. A cena também continha diversidade de raças, pessoas com deficiência e etarismo, a cara do país e matérias-primas dos discursos politicamente corretos.
Sem câmeras, microfones e plateia as bengalas anônimas seguiram silenciosas e invisíveis em busca do direito de ir e vir na realidade urbana, incapazes de chamar atenção de uma sociedade que pouco está se lixando para si mesma, mas vive uma epidemia de especialistas do bem-estar que recomendam a todos pelo menos caminhar diariamente.
Uma hora depois que todos haviam sumido em seus labirintos pavimentados, a questão de sol e chuva do início da manhã ficou definida. A suave neblina que os paulistas chamam de garoa deve ter ficado puta da vida com tanto descaso e virou tempestade composta de tudo que tem direito: chuva, vento, raios, trovões e procelas no mar logo adiante. Só faltou granizo. A tormenta durou horas.
No dia seguinte, a cidade que se vende como destino turístico poderia até incluir “parece Veneza” na sua propaganda. Mas os redatores da publicidade oficial só conseguiram sussurrar pela mídia que as escolas ficariam fechadas e que as pessoas evitassem sair de casa. Já não faltavam calçadas apenas, muitas ruas haviam sumido sob as águas. Um atestado público do colapso urbano que se instala perante qualquer intempérie.
A visão abstrata de bengalas marcando o chão parece ter deixado o rastro real da ira da natureza. Concreta como ela só.
*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural