Por Heraldo Palmeira
Los Angeles
Nova York
São Paulo
Lisboa
Londres
Fase da Lua
.
.
3 de abril de 2025

HERALDO PALMEIRA As pedras das perdas

Spinxh21/Pixabay

As pedras das perdas

  • Heraldo Palmeira

“Depois que eu envelhecer / Ninguém precisa mais me dizer / Como é estranho ser humano / Nessas horas de partida” (Rita Lee)

As perdas são como pedras no sapato, no meio do caminho, dentro do coração. Ferem profundo e cada um tem seu próprio jeito de lamber suas feridas. As pedras das perdas causam dor há milênios e parece que nunca encontraremos algum antídoto capaz de trazer alívio. É como se estivesse decretado como causa pétrea, estabelecido que é irrevogável sentir, atravessar o deserto em expiação e aprendizado.

É como se o relógio parasse e nos paralisasse para pensar na busca do sentido, se há mesmo algum. Nos sentimos a criança jogada no tempo parado, enquanto um grande pedaço de tudo que somos está indo embora sem combinar, com destino secreto. É tal o desconforto que, mesmo que se tenha todos os confortos à disposição, até o olho marejado só enxerga uma terra seca com tudo árido ao redor. Nem a palavra mais doce adoça o gosto do desgosto que se instala ou nos protege da tempestade.

Não há resposta para as perguntas mais óbvias. Nem na cabeça, na razão, nas palavras que alguém nos garantiu que eram sagradas. Por maior que seja a fé, é perdoável duvidar do que vem depois? Há mesmo esse tão falado depois? Não será somente um ensaio de conforto que criamos para minimizar o solavanco do buraco que apareceu numa curva da estrada?

Tudo fica muito estranho quando topamos nas pedras das perdas. Não há calçado que amacie o caminhar nesse terreno. Quem já não se fez a pergunta consagrada em verso e música, “Existirmos: a que será que se destina?”, mesmo sabendo que não obterá resposta concreta?

Como é estranho ser humano

Nessas horas de partida

É o fim da picada

Depois da estrada, começa uma grande avenida

No fim da avenida

Existe uma chance, uma sorte, uma nova saída

Qual é a moral?

Qual vai ser o final

Dessa história?

Eu não tenho hora pra morrer

Por isso sonho

Ah, são coisas da vida

E a gente se olha e não sabe se vai ou se fica

As perdas nos levam às maiores solidões. Exigem muitas fés para contornarmos montanhas de incertezas, muitos silêncios para que o som da confiança se faça ouvir renovado depois de tantos medos descontrolados.

Não é para menos, o relógio do tempo parado nos obriga a quebrar o futuro que ainda poderia ser. Por isso nos ocupamos em revolver a memória tentando passar a limpo passados felizes, um gesto quase desesperado para atualizar tudo num presente que se acabou. É quando se impõe o processo de transformar a falta definitiva numa saudade serena, algo sempre difícil pois não há fórmula pronta.

A despedida nos leva a um beco apertado por onde temos de passar para encontrar o ponto final da mesma história que vai mudando atores e personagens. O teatro é o mesmo para todos, o roteiro nos leva para o sonho de quem não tem hora para morrer porque pode morrer a qualquer hora.

Não há alívio quando o cenário do beco se abre para a estrada porque não há sinal de alerta, e, a grande avenida que vem depois, pode começar em qualquer esquina sem que a gente saiba se é chance, sorte, nova saída ou apenas a hora da própria partida.

Em homenagem a Socorro de Carvalho, amante da música e das outras artes, leitora contumaz do Giramundo que nos deixou no frescor dos 84 anos.

Trechos incidentais Coisas da Vida (Rita Lee) | Cajuína (Caetano Veloso)

*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural

Ouça/veja aqui

Coisas da Vida   https://www.youtube.com/watch?v=rrk0Bi7RwJU

Cajuína   https://www.youtube.com/watch?v=nmd7Nw9KqaE

©