Divulgação/Crocs
Beatles nos pés
- Heraldo Palmeira
Há unanimidades em aceitação? Há unanimidades em rejeição? Claro que não – “Toda unanimidade é burra”, cravou o genial Nelson Rodrigues –, mas existem associações inusitadas entre ambas. É o que ocorre agora quando os nomes Beatles e Crocs se unem para lançar um novo produto da marca de calçados mais polêmica do mundo.
O resultado é a novíssima linha de tamancos – é assim que a Crocs denomina seus calçados, embora não sejam de madeira como os tamancos tradicionais – que está chegando às lojas. O negócio, que tem tudo para causar frisson, foi intermediado pela Bravado, representante da marca Beatles para licenciamentos na América do Norte. A novidade começa a ganhar o mundo apresentada em dois modelos, ambos com visual psicodélico e inspirados no filme Yellow Submarine (1968).
Crocs Classic Beatles Yellow Submarine Clog é uma viagem na excentricidade para recriar com graça o famoso submarino amarelo do filme. Na parte frontal da sandália está um periscópio de quatro pontos representando John, Paul, George e Ringo, cujas carinhas aparecem desenhadas nas escotilhas laterais no contorno do solado na parte traseira. Abaixo do calcanhar, estão as hélices náuticas. Mais temático impossível! Entretanto, é importante ter cuidado em escadas rolantes para evitar acidentes com as hélices, principalmente quando o produto estiver nos pés de crianças.
Crocs Beatles Classic Clog é uma peça menos extravagante. Mesmo de forma mais abstrata, a personalização está totalmente associada à estética do filme e ao psicodelismo, com ênfase nas cores vivas e formas características do estilo, aplicadas em contraste com a sola preta de contorno cinza.
Talvez para atiçar ainda mais os consumidores, a fabricante informa que serão edições limitadas, sem dar mais detalhes a respeito. A única certeza é que estamos diante de um artigo de grife, já que um par desses calçados Beatles custa US$ 69.99 (R$ 405,24) no mercado internacional. Aqui no Brasil é mais caro e com preços diferentes para os dois modelos, já disponíveis no site da empresa.
Para deixar o tributo aos Fab Four ainda mais completo, também está à venda uma série especial dos famosos Jibbitz, acessórios temáticos de plástico que se encaixam nos orifícios dos Crocs (até 26 por calçado) e cujos preços partem de US$ 4.16 (R$ 24,08).
Essa parceria é mais uma tacada numa direção vitoriosa: desenvolver produtos para comunidades de interesse, como os beatlemaníacos, o que não é novidade para a Crocs. “Ao desenvolver linhas especiais para comunidades fortes como as dos fãs de Star Wars, a grife ganhou relevância”, afirma Marcos Bedendo, professor de branding da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Apesar de toda a polêmica que sempre causou, Crocs deixou de ser o produto popular e ridicularizado dos primeiros tempos. Nesse embalo, o calçado que chegou a ser tratado como mico estético – algo semelhante ao que ocorreu com as velhas pochetes – deu a volta por cima e virou um ícone fashion. Uma rápida visita ao site da empresa mostra a enorme linha de produtos e preços nada populares. Essa inusitada parceria com Beatles reforça ainda mais o novo posicionamento da marca.
Personagens da parceria O legado dos Beatles é algo impressionante, que parece não sofrer o efeito do tempo. Afinal, a considerada “maior banda de todos os tempos” deixou de existir naquele até hoje lamentado 10 abril de 1970, quando Paul McCartney deu uma entrevista para divulgar seu primeiro disco solo e anunciou que não planejava dar continuidade à parceria com John Lennon e nem lançar novos álbuns com o grupo. E Lennon completou com a célebre frase “O sonho acabou!”. Mesmo assim, continua liderando tudo no mercado da música e cada vez mais distante do resto.
O Crocs é um calçado que provoca reações de amor e ódio desde que surgiu. Um momento que reforça essa dicotomia remonta a 2010, quando foi classificado pela revista Time “uma das 50 piores invenções da história”. Indiferente a uma opinião tão negativa e influente, a empresa estabeleceu parcerias comerciais com marcas consagradas e designers descolados, uma aposta certeira que resultou em modelos customizados, intenso marketing nas redes sociais e explosão das vendas.
História Scott Seamans, Lyndon Duke Hanson e George Boedecker eram três amigos velejadores norte-americanos e desejavam encontrar um calçado que lhes garantisse conforto e segurança em suas aventuras aquáticas. Até que viram no Canadá um calçado náutico desenhado em forma de barco, com solado antiderrapante, e terminaram adquirindo os direitos de fabricação. Era 2002 quando montaram a Crocs Inc. na cidade de Broomfield, Colorado e iniciaram a produção. Mais uma vez valeu a máxima popular famosa na América do Norte: “os canadenses inventam e os americanos aperfeiçoam”.
O grande trunfo foi adquirir também os direitos do croslite, resina leve que mistura plástico e espuma e resistente a odores e fungos, já utilizada em sapatos para marinheiros. Era o material ideal para um calçado perfeito para ser usado em barcos. Batizado pela aparência que lembra um crocodilo, o Crocs não acumula água, não derrapa, é extremamente higiênico, confortável e durável.
Disponível apenas em grandes redes, os 200 pares iniciais esgotaram rapidamente. Se a marca se tornou um fenômeno de vendas em 2006, o sucesso global só veio depois de uma grande crise que a empresa enfrentou em 2008, que exigiu novas estratégias.
Se antes as sandálias eram vendidas apenas pelas grandes redes, o que dificultava a ampliação da linha de produtos para conquistar novos mercados, hoje a marca conta com 350 lojas espalhadas em 90 países. Tamanho reposicionamento se valeu de parcerias com designers descolados como o britânico Christopher Kane e a irlandesa Simone Rocha, além de colaborações comerciais com marcas consagradas como Bad Bunny, Balenciaga, Benefit Cosmetics, Bretman Rock, Liberty London e até a KFC.
Com a Balenciaga surgiu o Crocs scarpin e os negócios crescerem 88% em pouco tempo. Com a KFC veio um calçado inspirado nos baldes de frango vendidos na rede de lanchonetes e o sucesso foi enorme. Hoje a Crocs produz até botas e consolidou um robusto marketing nas redes sociais com impacto direto nas vendas.
Essas parcerias criativas e comerciais surpreenderam o mundo da moda, ofereceram novos modelos com muitos estilos e cores, conquistaram novos públicos e ajustaram a rota dos calçados Crocs na direção dos objetos de desejo. Tantas novidades cheias de bossa desemperraram o setor comercial e resolveram um problema prosaico para o crescimento da empresa: como a sandália clássica tinha alta qualidade e grande durabilidade, os consumidores não precisavam comprar novos exemplares porque os antigos simplesmente não estragavam.
O lançamento de novas linhas e parcerias midiáticas conquistaram clientes fiéis do mondanité como Ariana Grande, Justin Bieber, Natalie Dormer, Paris Hilton e Post Malone. Como se não bastasse, a realeza britânica também se rendeu pelos pés do rei Charles III e do seu neto príncipe George de Cambridge. Essa lista estelar garantiu espaço consolidado no mundo da moda internacional. Tanto que em 2017 as vendas ultrapassaram 300 milhões de pares e os números seguem crescendo. Em 2024, o faturamento alcançou US$ 1,1 bilhão (R$ 6,3 bilhões).
Outra curiosidade é a forte presença dos Crocs nos ambientes hospitalares, inclusive em centros cirúrgicos, pois os profissionais da saúde ressaltam o grande conforto dos calçados. Enfim, a suposta deselegância tem driblado as críticas, invadido closets refinados e dominando o segmento com folga.