Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

HERALDO PALMEIRA Bodas de sangue

Tim Kawasaki – montagem (Martina Mainetti/Pixabay)

Bodas de sangue

  • Heraldo Palmeira

Olha o sangue na mão | Ê José | Juliana no chão | Ê José | Outro corpo caído | Ê João (Gilberto Gil)

Quando meu pai morreu eu tinha dez anos. Seis anos depois, se foi meu avô materno, o único que conheci. A partir daí, minha vida foi vivida por muitos anos numa casa de mulheres – mãe, tias, irmã, primas e funcionárias (que faziam tudo acontecer a tempo e à hora). Resolvemos criar cachorro e ganhamos Lili, uma cadela pastor-alemão espetacular. Ao mesmo tempo, sempre havia alguma gata mundana que se encostava pela suavidade da casa e terminava parindo seus filhotes sob nossos cuidados.

Não tenho a menor dúvida de que aquele mundo feminino doméstico foi a maior e melhor influência emocional que ganhei da vida, me deu a segurança de que tudo sempre termina bem. Algo que me garantiu absoluta normalidade para conviver com mulheres em qualquer situação. Inclusive ser chefiado por elas em várias ocasiões profissionais, experiências riquíssimas que adorei.

Na contramão do meu casulo familiar seminal e do meu encantamento com o feminino, estou alquebrado diante da explosão de violência masculina contra mulheres. Sim, sabemos que essa praga não é novidade, é uma ferida humana milenar.

Sinto uma dor imensa na parte da alma que aquelas mulheres da minha casa enfeitaram com seu espírito feminino. É óbvio que a agressão física é mais impactante do que costumes dissimulados que atacam o direito à liberdade, à igualdade cotidiana com os homens. Por exemplo, mulheres submetidas a burca, proibidas de dirigir automóveis, obrigadas a trazer um dote, pedir permissão para tudo a um homem (pai ou marido), dividir o lar com outras esposas do marido… Costume religioso ou traço cultural é o catso! Que uma delas experimente se livrar daquela prisão de tecido preto ou viver numa casa com diversos homens e logo estará diante de um pelotão de apedrejamento ou selvageria pior, tudo em nome de um Alá que só os homens podem representar na Terra.

Nos últimos dias fomos sacudidos por uma explosão de violência contra as mulheres. Parece que abriram as portas da jaula dos monstros e eles saíram cuspindo fogo! E essa explosão transformou 2025 num manancial de casos (e dados) que exige um esforço conjunto da sociedade para enfrentar o problema. Todas as aberrações produzidas pelos agressores ao longo do ano desfazem qualquer dúvida de que estamos diante de uma verdadeira epidemia social.

Eles deram de ignorar o mundo ao redor e atacam suas vítimas de forma cada vez mais violenta à luz do dia, na frente de todos – inclusive da polícia e de câmeras cujas imagens serão divulgadas massivamente nas redes sociais. Tamanho destemor pelas consequências embute um recado claro: as políticas públicas e o conceito de autoridade têm se mostrado um completo fiasco.

Os discursos vigentes mexeram na educação e na pedagogia inserindo ideologia política no ambiente exclusivo do conhecimento. Algo que se comprova pelo sucateamento dos ensinos infantil e fundamental, que retirou o condão que a escola tinha de encantar crianças que chegavam para complementar a educação familiar. Sem contar a pá de cal que proíbe reprovações até o 2º ano do fundamental, vulgarizando o valor da formação numa cabecinha fácil de ser influenciada. Se o esforço do aprendizado e do mérito torna-se desnecessário, a mente fica disponível para as seduções mundanas perigosas e fora de controle.

Com tamanha desfiguração, o ambiente da formação básica foi sendo contaminado por grades educacionais “diferenciadas”, pedagogia mais liberal, diálogo sem cobranças, relativização de costumes e traços culturais machistas, desmantelamento do conceito de autoridade, descompromisso com resultados…

Pressionado pela vergonhosa realidade, o governo anunciou que o INSS passará a pagar pensão a filhos e dependentes de vítimas de feminicídio, respeitadas algumas regras – apenas menores de idade, renda familiar determinada e divisão do benefício por todos os dependentes de uma mesma mulher. Uma medida paliativa de eficiência incerta, que não ataca o problema, penaliza o contribuinte, amplia o déficit público e não disfarça o tom eleitoreiro. Enquanto isso, grupos militantes acordaram de um longo sono de leniência para anunciar manifestações de protesto.

A questão é estrutural e precisa ser tratada como tal. O publicitário Pedro Fonseca foi cirúrgico quando afirmou “A gente precisa criar meninos maiores”. É uma fala emblemática porque, mesmo sendo de compreensão direta, traz um recado subliminar poderoso diante de casos e mais casos dessa brutalidade de homens contra mulheres que não escolhe hora nem lugar.

As estatísticas são alarmantes pela quantidade de mulheres mortas ou agredidas covardemente todos os dias e mostram algo ainda mais estarrecedor: nesse calvário cotidiano que inclui estupros, crianças também são vítimas. Sem contar a estatística paralela da violência imposta pelos labirintos digitais – quase 9 milhões de mulheres já sofreram violência digital no Brasil.

O quadro fica ainda mais chocante quando se sabe que as agressões têm motivos torpes, quase sempre uma cadeia de violência desencadeada por ciúme. Também há um dado surpreendente: a maioria dos ataques não vem de estranhos que saem de um matagal numa rua escura, mas de homens conhecidos – parceiros amorosos ou parentes – que parecem se sentir donos das mulheres que agridem, como se estivessem exercendo um direito que imaginam ter adquirido pelo relacionamento próximo com a vítima. E pela certeza de impunidade.

O clima de perplexidade que domina este momento deve servir para pressionar as autoridades por medidas que vão muito além de pensões, discursos ideológicos e manifestações que servem apenas para deixar no ar a falsa impressão de que algo está sendo feito.

É urgente conceber algum plano de ação que junte educadores, orientadores pedagógicos, psicólogos, policiais, juristas, gente qualificada para se debruçar sobre a fragilidade da atual legislação e estabelecer metas que garantam segurança para mulheres e crianças. Inclusive ensinar a sociedade a compreender sinais emitidos por quem está sofrendo violência e não consegue denunciar claramente por incapacidade ou medo.

Essas bodas de sangue entre homens violentos e mulheres indefesas formam o quadro tenebroso que a sociedade moderna enfrenta em pleno século 21, o tal século da modernidade absoluta, da tecnologia dominante e de tantos frangalhos emocionais e afetivos. O destino trágico traçado pelas nossas fragilidades que evitamos encarar de frente.

Até quando autoridades e instituições seguirão transmitindo, pela voz da negligência, a ideia de que as mulheres são cidadãs de segunda classe? É lamentável que as cenas grotescas de agressões e feminicídios ganhem uma prioridade que ofusca conquistas de interesse comum.

Temos exemplos de como medidas simples podem ter reflexos positivos imediatos e grande repercussão no combate à violência masculina contra as mulheres.

Em São Paulo, lei estadual de dezembro de 2024 proibiu dispositivos eletrônicos em salas de aula – que inspirou lei federal com mesmo fim – e completou um ano festejando visível melhora do desempenho escolar e interação social dos alunos. A medida tem total apoio das famílias, que testemunham as mudanças positivas na sua meninada, inclusive nas questões de relacionamento.

No Espírito Santo, uma lei estadual de julho de 2025 determina que pais e responsáveis de menores de idade que cometam atos de violência (verbal e física) contra professores e demais profissionais da educação respondam na Justiça nas áreas civil e criminal, cabendo indenizações e multas. Doravante, a omissão dos responsáveis na educação dos filhos poderá ser um agravante, e as escolas estão obrigadas a acionar a polícia e o Conselho Tutelar quando houver ocorrências.

Também em julho de 2025 entrou em vigor a lei federal que aumenta a punição para crimes cometidos dentro de escolas. O novo dispositivo legal “modifica o Código Penal e a Lei dos Crimes Hediondos para reprimir agressões e homicídios no ambiente escolar, tendo alunos, professores e funcionários entre os grupos protegidos”, informa a Agência Senado.

São decisões legislativas importantes para a sociedade, já que o ambiente escolar costuma revelar as primeiras manifestações dos perfis violentos. Reagir a tempo protegendo alunos, professores e funcionários escolares com medidas legais contra menores agressores e seus responsáveis pode inibir crianças sem limites de avançarem para o estágio de adultos violentos.

Na Itália, o Parlamento aprovou em novembro de 2025, por unanimidade, uma lei histórica que passa a tratar o feminicídio como crime autônomo no Código Penal, estabelecendo pena de prisão perpétua a quem matar mulheres por questões de gênero, discriminação ou controle. É resultado da mobilização dos italianos em razão dos números da violência apurados em 2024, ano em que 116 mulheres e meninas foram as vítimas dos 327 homicídios registrados no país.

Essa decisão italiana deverá sacudir o mundinho violento dos valentões e as estatísticas mostrarão seu efeito. É um caminho que pode ser facilmente repetido no âmbito nacional. Basta que o Congresso arranje um tempinho para fazer algo além de bons negócios.

Ninguém aguenta mais ver mulheres agredidas covardemente, muitas perdendo a vida ou carregando mutilações físicas e emocionais definitivas, e, passo seguinte, os agressores simplesmente ganhando liberdade como se apenas tivessem cumprido mais uma tarefa do próprio rosário de misérias.

Esse mundo masculino que está aí montado em arrogância, vaidade e músculos perdeu a conexão com o feminino, entrou em desespero e resolveu partir para a ignorância. Por isso é tão urgente criar meninos maiores.

Sentir vergonha pela violência contra mulheres não é apenas para quem, como eu, teve a sorte de crescer num ambiente feminino. É para qualquer menino que precisa crescer aprendendo que masculino é apenas a parte complementar do feminino. Para nossa sorte. E sorte de quem vira homem vivenciando tamanha maravilha.

*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural

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Domingo no Parque   https://www.youtube.com/watch?v=OztuGomczAo&t=3s

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