Por Heraldo Palmeira
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6 de setembro de 2026

Brasil em campo 1

Divulgação/Nike

Brasil em campo

  • Heraldo Palmeira

A Copa começou para a Seleção Brasileira. O time chegou aos Estados Unidos com um elenco cuja média de idade é de 29 anos, uma das mais altas da história da Canarinho, vestindo um figurino de Ricardo Almeida pronto para virar meme nas redes sociais.

Por aqui, ficamos numa situação nova que pouca gente perdeu tempo em se dar conta. A hegemonia da Globo virou pó nas transmissões. A controvertida “voz nacional” de Galvão Bueno virou a vuvuzela da audiência diminuta do SBT. A Cazé TV, nova dona do jogo televisivo “platafórmico”, começa a encher o saco com gritaria e palavrões ao confundir transmissão de um evento planetário com roda de amigos desbocados. O narrador do nosso jogo de estreia é cansativo porque não para de falar assuntos paralelos. Mais Galvão, impossível! E ainda temos de aturar aqueles grupos de música rastaquera que viraram parte integrante das coberturas jornalísticas em quase todos os canais.

Correndo no tapetão antes da bola a velha politicagem da CBF, cujo troféu mais recente é a deferente — há palavras mais adequadas, mas façamos essa deferência — inclusão de Neymar lesionado na lista. Mesmo que ele consiga fazer algo positivo por lá, tudo se deu de modo bastante questionável, inclusive pelo papel vergonhoso do Santos a respeito da real situação física do jogador. E ninguém vai esquecer aquela papagaiada no Museu do Amanhã para anunciar os convocados.

Talvez por perceber que os ares soprados pelo “mister” italiano Carlo Ancelotti são menos amenos que os dos “professores” brasileiros — Mano, Felipão, Dunga, Tite, Diniz e Dorival, baita corpo “(in)docente” — que o bajulavam como “menino rico dono do time”, Neymar parece ter tomado uma poção mágica de semancol e está pianinho, deixando para Casemiro o papel de bobo da corte que acredita ser o galo do terreiro, mesmo por procuração do chefe (agora em modo morto fingido) da panelinha.

É muita coisa negativa junta, mas temos história, tradição e camisa no mundo da bola. Por isso, não podemos ser subestimados. O problema é convencer esses boleiros naturalizados que seguem naquela empáfia que não passa de breguice de nouveau riche, tipo levar na bagagem coleção de relógios, cabelereiros, fotógrafos e cinegrafistas particulares para garantir a autopromoção, likes cliques e “futriques”.

Quando finalmente o foco chega às quatro linhas, nem mesmo a falação bajulatória da mídia pacheca consegue esconder a realidade. Nossos goleiros não merecem confiança. Não temos laterais agudos — o que é grave! O meio-campo é tão bisonho que tem a cara do Casemiro. Os atacantes batem cabeça e fazem a festa dos zagueiros alheios.  Copa após Copa, parecemos algo que não tem conserto e nunca terá. O que será?

Os céticos afirmam que só uma seleção de milagres nos dará o título. Os gaiatos de plantão, que não perdem uma, decretaram uma verdade absoluta: o Brasil será hexa de qualquer jeito. Se ganhar, trará a sexta taça. Se perder, completará a sexta Copa sem ganhar. Portanto, a recomendação para os crédulos é sofrer com moderação.

A Seleção Brasileira estreou na Copa do Mundo 2026 empatando (1×1) com o Marrocos. O time esteve completamente intranquilo e os primeiros 30 minutos de jogo ficarão guardados dentre os piores da Canarinho em Copas. Também causou espanto a quantidade de passes errados e de bolas rifadas em chutões que demos durante a partida, alimentando nós mesmos o domínio dos marroquinos.

Não adianta forçar a barra, o adversário não pode ser visto como um grande time, tem muitas limitações e ainda perdeu dois jogadores importantes — Abde Ezzalzouli, artilheiro do Betis, e Aguerd, xerifão do Olympique de Marselha —, cortados por contusão antes da estreia. Foi a mediocridade brasileira em campo que desenhou a falsa ideia de que havia algo bem melhor do outro lado.

Na coletiva pós-jogo, Carlo Ancelotti não disfarçou a óbvia irritação e insistiu numa tecla: “confiança”. Sinal de que um técnico dos mais experientes e vencedores do mundo já entendeu nossa dificuldade emocional como mais um problema que a comissão técnica terá de enfrentar, e que poderá enterrar nossa campanha. O italiano sempre disse que queria uma equipe resiliente, mas, pelo visto, foi apresentado na prática ao “complexo de vira-lata” — tradução genial do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues do nosso fracasso depois do “maracanaço” imposto pelo Uruguai na final da Copa 1950, diante de um Maracanã superlotado em clima de “já ganhou”.

Aliás, somos especialistas nesse negócio de “já ganhou” e a dose mais amarga nos foi dada em Belo Horizonte, no “mineiraço” da Copa 2014. Pelo menos, já não somos o único saco de pancadas dos alemães, que acabaram de impor outro 7×1 numa Copa, desta feita à potência futebolística de Curaçao.

Surpreende que essa fragilidade emocional boleira ocorra com o único país cinco vezes campeão do mundo e a participar de todas as Copas. Essa honrosa exclusividade resolve algum jogo? Claro que não, mas deveria servir como reserva histórica suficiente para moldar algum lastro de autoestima, dar equilíbrio e impor respeito aos adversários. Desde 2002, o que se vê é que o mesmo silvo do apito que autoriza o início do jogo também dispara o mecanismo de pernas bambas e descontrole dos jogadores.

No gramado do MetLife Stadium, em Nova Jersey, o goleiro Alison saiu mal, antes da hora, escancarou a trave e tomou um golaço marroquino. Ibañez e Douglas, nas laterais, apenas comprovaram o problema gravíssimo que temos no setor, que piorou muito com a lesão/corte de Wesley e vai nos obrigar a improvisações perigosas. Casemiro sequer merece comentário, até porque parece não ter mais qualquer condição de estar em campo, muito menos como titular — a única missão tem sido tentar atrapalhar a vida de Endrick, inclusive solando covardemente o garoto nos treinos. Paquetá parece que usa pés de pato no lugar das chuteiras, sempre errando passes. Raphinha, como de costume, tem algum tipo de alergia à camisa amarela e nem parece a mesma pessoa que joga no Barcelona. Igor Thiago é um desses fenômenos inexplicáveis que surgem do nada e viram titulares da Canarinho. Pior, deixando Pedro no Brasil e Endrick assistindo o vexame do banco, com a enorme torcida no estádio gritando seu nome.

Fosse mesmo o Marrocos um time exuberante, teria ido bem além do empate e aumentado muito a tragédia verde-amarela; sairíamos da apresentação desastrosa para uma derrota por goleada. Por sorte, os marroquinos cansaram e tentaram até apelar para a velha cera na parte final da partida, driblando as novas regras da FIFA pela leniência do juiz.

Na sequência da noite, o jogo Escócia 1×0 Haiti mostrou que a trajetória brasileira na fase de grupos pode ser bem mais complicada do que previram os criadores de galinhas-mortas da mídia pacheca. Basta que nossa bolinha continue murchinha e teremos problemas com nossos vizinhos de chave.

Os mais pragmáticos acreditam que a Copa 2026 será apenas um rito de passagem para a maturidade do trabalho de Ancelotti na CBF. Ele pegou um bonde andando descarrilado e está empenhado em conter os danos. De contrato renovado até o fim do Mundial de 2030, poderá finalmente montar um novo time e trabalhar com uma geração que começa a pedir passagem, num ambiente bem mais favorável e livre de algumas figuras do álbum das panelinhas, que estão em fim de carreira e gostaríamos de esquecer.

O desinteresse da torcida com a Canarinho é parte de um distanciamento iniciado depois do caneco de 2002, e só tem aumentado a cada Copa. O resultado desse distanciamento vem retirando das ruas a alegria espontânea e contagiante que cobria tudo de verde e amarelo, algo que não combina com o país do futebol. Mais do que nunca, a bola está com os boleiros. O resto é papo de boteco.

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