Reprodução/Portal Mundo Botonista
Cá com meus botões
- Heraldo Palmeira
Celotex, Jogo de Botão, Futebol de Botão, Futebol de Mesa. O jogo de futebol de botão era um brinquedo. E jogava não só a molecada, os marmanjos entravam em campo com tanta ou maior empolgação. Até que virou esporte de verdade.
Não há certeza de quando tudo começou no Brasil, mas pode ter ocorrido antes de 1894 pelas mãos de Charles Miller, o mesmo esportista paulistano considerado o “pai” do futebol e do rúgbi no país. O que parece certo é que, naquele tempo, já se jogava botão na Argentina, Inglaterra, Itália, Portugal e alguns outros países.
No Brasil, até 1910 o jogo era praticado somente pela elite, inclusive nos intervalos recreativos das melhores escolas. Como o material utilizado na confecção das mesas era importado dos EUA pela empresa The Celotex Co., o brinquedo ficou conhecido inicialmente como Celotex. Também já eram utilizadas mesas de madeira maciça lisa ou com revestimento em feltro.
Naqueles primórdios os times eram feitos de casca de coco ou com botões de casacos e paletós. As bordas eram lixadas para facilitar o desempenho sobre a mesa. Materiais como madeira, chifres bovinos, bolas de sinuca e marfim passaram a ser utilizados na feitura dos jogadores. As bolas eram de uma mistura de água com miolo de pão ou farinha, até que cortiça e lã passaram a ser usadas em sua confecção.
Nos anos 1920, já havia relatos de que o jogo de botão estava presente no Pará. Nos anos 1930, o jogo chegou ao Rio de Janeiro e o publicitário e músico Geraldo Décourt fez a primeira publicação com regras oficiais. A enorme capacidade da então capital federal de ditar tendências foi o ambiente perfeito para o trabalho de divulgação realizado por Décourt nos jornais e na poderosa revista O Cruzeiro. Não demorou, a brincadeira estava espalhada pelo país.
Nos anos 1950, entraram em campo as fichas de plástico usadas nos cassinos, devidamente polidas com água e sapólio em pedras de mármore. Nos anos 1960, foi a vez das tampas de relógios virarem craques, devidamente pintados com escudos e números das camisas. Nos anos 1970, teve início a era do acrílico e o material permanece dominante até hoje.
Naquele período, o jogo estava tão disseminado que ganhou a denominação oficial de “futebol de mesa” e surgiram os campeonatos organizados. O campo de jogo foi uniformizado nas dimensões 2 m x 1,4 m (mais 10 cm de bordas).
Em paralelo e a seu modo a meninada se divertia utilizando todo tipo de botões, que deslizavam em busca do gol sobre diversas superfícies – piso das casas, mesas de jantar e, glória das glórias, o famoso “Estrelão”, campo produzido pela lendária fábrica de brinquedos Estrela. Naquele período, tanto a Estrela quanto a concorrente Trol também fabricavam os famosos botões canoinhas, rebaixados no meio, com o rosto dos jogadores colados no centro. Com preços acessíveis, fizeram a festa durante anos e iniciaram muitos praticantes.
O ápice veio em 1988, quando o Conselho Nacional de Desportos (CND) reconheceu o jogo como esporte e foram oficializadas três modalidades praticadas até hoje. Elas se diferenciam pelo número de toques que o praticante pode dar na bola em cada jogada: Regra Baiana (1 toque), Regra Carioca (3 toques) e Regra Paulista (12 toques). Em 2010, surgiu a Regra Dadinho (9 toques). A regra de 12 toques é consagrada internacionalmente, obedecida em torneios internacionais e no campeonato mundial. Também é utilizada no Campeonato Brasileiro.
Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo concentram o maior número de praticantes do futebol de mesa no Brasil. Da mesma forma que é jogado aqui, com diversas variações de regras, o esporte é praticado com destaque na Argentina, Chile, Croácia, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Hungria, Itália, Japão, Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia, Rússia, Sérvia, Suíça, Ucrânia e Uruguai.
Hoje, as bolas são de plástico ou feltro e os principais praticantes montam seus times com botões-argola de acrílico, cujo furo central melhora a performance ao garantir um atrito mais regular com a mesa. Outro material de primeira linha, que vem sendo muito utilizado, é uma resina acrílica conhecida como “palaton”, empregada na confecção de próteses dentárias. Goleiros e palhetas também podem ser feitos de plástico ou madrepérola.
Desde que os tempos gloriosos entraram em declínio o jogo de botão tem sobrevivido pela paixão de aficionados. Um deles é Carlos Rebouças, que criou o Guerreiros do Sol, timaço de botão formado por cangaceiros famosos, cujo plantel não deixa dúvidas.
São 17 jogadores entre titulares e reservas, sempre prontos para fazer o jogo da morte contra qualquer adversário. O goleiro é Baliza, por razões óbvias. Na defesa, as figuras menos cordiais do bando: Cobra Verde, Pancada, Senhor Pereira, Jurema, Barra de Aço, Jararaca, Sabino e José Sereno. No meio-campo, lugar dos craques, estão Luís Padre, Jesuíno Brilhante, Ponto Fino e Antônio Silvino. O ataque matador não deixa por menos, juntando Corisco, Moita Braba e Velocidade. A estrela do time é o centroavante, o temido Virgulino Lampião.
Segundo Rebouças, num jogo realizado no Recife, esse time foi visitado pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, considerado o maior especialista sobre o cangaço brasileiro, autor do livro Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço. Passada a surpresa com a presença ilustre, o escritor informou que tinha ido matar a curiosidade a respeito daquele escrete tão inusitado.
A decadência do jogo de botão reflete a perda de valores que o mundo vem enfrentando. Enquanto está sendo imposto às novas gerações um modelo de vida individualista, animado por rolagem de tela, vai sendo criado um laboratório de adoecimento coletivo, físico e mental, sem precedentes.
Não dá para construir qualquer futuro retirando das novas gerações o acesso a atividades que exigem socialização, ações cognitivas de vários níveis e decisões rápidas, que geram aprendizados basilares para formação intelectual e civilidade.
O jogo de botão sempre foi diversão garantida, apaixonante e acessível, um tabuleiro de virtudes cada vez mais distante do mundo que se acredita moderno. Tratar do esvaziamento da modalidade e dos esforços para conquistar novos adeptos é uma preocupação oportuna, como surge no texto de Felipe Cunha, leitor do Portal Mundo Botonista (link abaixo), transcrito a seguir:
O declínio da convivência e o colapso do botão
(Felipe Cunha)
Sempre ouvi dizer que o futebol de botão perdeu espaço para o video game, mas será mesmo? Acredito que talvez essa tenha sido a primeira fake news do nosso esporte. Venho amadurecendo uma teoria que desejo compartilhar com vocês, mas, para isso, teremos que voltar algumas décadas. Estamos em meados da década de 1980. Puxem da memória o que vocês mais viam nas ruas dos bairros residenciais. Conseguiram? Deem um salto no tempo e voltem para a realidade que vivemos hoje. Qual a diferença mais marcante das ruas dos típicos bairros residenciais? Nada? Vou ajudá-los. Onde estão as nossas crianças hoje? Se não estão nas escolas de tempo integral, estão no inglês, no balé, na terapia, literalmente uma agenda de adulto. Mas e na década de 80? Onde nós, adultos de hoje, vivíamos naquela época? Nas ruas.
Brincadeiras de rua, soltar pipa, pião, queimada, bola de gude e, logicamente, o nosso futebol de botão, eram a nossa diversão. Acontecia na calçada, na garagem da casa da avó de alguém, embaixo de uma árvore em dias de sol escaldante. Era na rua que a nossa socialização acontecia; ali aprendemos muitos dos nossos valores, resolução de conflitos, lealdade, amizades duradouras. Tudo acontecia em torno da rua. O trânsito era livre para os pré-adolescentes da época, e o futebol de botão estava lá presente, forte, competindo com tudo e todos, inclusive o ancestral dos video games, as mal faladas casas de fliperamas, os pesadelos dos trocos dos pais. Fala a verdade, quem nunca desviou algumas moedas do troco do pão para, no fim de tarde, jogar Pac-Man? E o nosso futebol de botão estava lá, firme e forte; torneios de garagem, de rua, de bairro, tudo acontecia simultaneamente. E por quê? Porque era o ambiente natural dele; era na rua que se aprendia, se trocava times e até se competia.
Na mesma rua, coexistiam famílias com posses, outras de classe média e as que passavam por momentos complicados em termos econômicos. Entretanto, todas as crianças se relacionavam, viviam as mesmas experiências, e isso nos moldou. E lá estava o futebol de mesa. O Brasil começou a se modernizar, bairros reestruturados, as diferentes classes sociais passaram a não ter tanta convivência como antes, surgiram os primeiros bairros emergentes, e o futebol de mesa começou a decair. Afinal, sufocaram seu habitat; as crianças não estavam mais lá. Definitivamente, o vilão da história não é o video game; na verdade, ele é um paliativo, pois alguém entendeu que a sociedade estava mudando e que seu ancestral fliperama ia perdendo força também. Com isso, vieram os primeiros consoles domésticos com a mesma tecnologia, que outrora era acionada por fichas compradas em balcões. Mas, e o nosso futebol de botão? Foi sendo esquecido de ser propagado. A falta de leitura dessa mudança social foi o grande gargalo. Quem conhecia, quem praticava talvez não tenha sentido tanta diferença assim, mas essa desatenção, de não termos feito a leitura correta na época, ocasionou a diminuição de adeptos da nossa modalidade. Meu falecido pai sempre me ensinou que “quem não é visto, não é lembrado”, e foi literalmente isso, na minha opinião, o que ocorreu.
Hoje, passamos por uma nova mudança social. Estamos convivendo com uma geração que tem seus próprios códigos, sua própria maneira de enxergar o mundo. É preciso abrir passagem, ouvir, dialogar na língua deles, entender para poder vender a maravilha que é o nosso esporte, nossa cultura. Não de uma forma engessada, mas permitindo que também se expressem à sua própria maneira. Afinal, o esporte será herdado por eles. Precisamos aprender a falar para fora dos nossos muros e, para isso, eles são essenciais. Um exemplo disso é que aqui na Liga Clube FMC (Futebol de Mesa de Conquista-BA) o responsável pela gravação e edição das nossas redes sociais é um menino de 18 anos. Eu apenas direciono, dou as coordenadas e ele me mostra o trabalho pronto, do jeito dele, da geração dele. Isso gera protagonismo. Para fazer algo pelo futebol de mesa, nem sempre a pessoa precisa se debruçar sobre uma mesa. Hoje, o olhar, a expressão fazem mais efeito além dos nossos muros.
O texto de Cunha defende ajustar a abordagem na busca por novos interessados pelo botão. Afinal, eles podem estar em qualquer parte, principalmente nas novas gerações, e precisam ser alcançados. Inclusive as meninas, que começam a aparecer aqui e ali para bater uma bolinha.
Um sopro de ânimo, que vai muito além do jogo de botão, chega com os sinais de cansaço que a sociedade começa a emitir a respeito desse novo modelo social que exclui valores indispensáveis a qualquer ideia de sobrevivência saudável. Essa suposta evolução carrega um erro de origem: tentar substituir por tecnologias diversos valores intrínsecos à natureza humana. Por exemplo, a boa e velha convivência, essência do caráter social do homem.
É impossível negar que a humanidade sobreviveu, construiu a própria identidade e se desenvolveu agindo coletivamente. Não há como eliminar a socialização como suporte primordial da vida humana, pois é ela que molda comportamentos e estabelece normas e valores essenciais que sustentam a continuidade da espécie.
Como ressalta Cunha, quando nos juntamos ao redor de uma mesa para qualquer atividade, inclusive jogar botão, “aprendemos muitos dos nossos valores, resolução de conflitos, lealdade, amizades duradouras” que estabelecem parâmetros para uma boa vida coletiva. Como disse o poeta popular, “A lição sabemos de cor; só nos resta aprender”.
O jogo de botão é fascinante porque sua alma é a convivência que ergue amizades, ignora distâncias na hora de jogar. Por isso cada gol vai muito além da bola balançando as redes. Pouco importa se foram dados um, três, nove ou 12 toques.
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