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Cinzas
- Heraldo Palmeira
“Morreu Maria quando a folia / Na quarta-feira também morria / E foi de cinzas seu enxoval / Viveu apenas um Carnaval” (Luiz Carlos Paraná)
Quando as primeiras missas de Cinzas estão sendo realizadas no amanhecer da quarta-feira, muitos foliões ainda perambulam pelas ruas cobertas de confete, serpentina e outros lixos deixados pelo Carnaval que acabou pouco antes. Vão pisoteando, cambaleantes de embriaguez e cansaço, a tristeza que sempre convive com a alegria fantasiada do Carnaval. É a Quarta-feira Ingrata dando sequência à Terça-feira Gorda.
Inconformadas com o fim da alegria, as carências humanas trataram de ampliar a festa. Basta lembrar do garçom Isaías Pereira da Silva, conhecido por “Batata”, que não conseguia brincar o Carnaval por motivos óbvios e criou o bloco Bacalhau do Batata, em 1962. O homem marcou a concentração para o amanhecer da Quarta-feira de Cinzas e saiu pelas ruas de Olinda, cercado de amigos que trabalharam durante o reinado de Momo e quem mais chegasse. A brincadeira se consolidou como um dos blocos mais tradicionais do Carnaval pernambucano e ganhou dimensão histórica.
Hoje, uma multidão de foliões fiéis conhecida como “inimigos do fim” se concentra nas primeiras horas da manhã em frente à Catedral de São Salvador do Mundo (Sé de Olinda), a maior igreja quinhentista do Brasil, fundada em 1540. Cenário perfeito para celebrar um rito de passagem de duas tradições que se encontram.
A partir das 6h, o famoso Alto da Sé testemunha o bloco Munguzá de Zuza Miranda e Thais, fundado em 1995, distribuir 5 mil copos (cerca de 2 mil litros) de munguzá ao som de orquestra de frevo, com passistas e bonecos gigantes completando o cenário.
Na sequência, o Bacalhau do Batata arrasta a multidão alimentada pelas ladeiras de Olinda, puxado pelo boneco gigante do seu fundador (falecido em 1993) e o estandarte montado com bacalhau, legumes, verduras e temperos que reforçam a identidade gastronômica do bloco.
O cortejo é a explosão de boemia que promove uma apaixonante despedida do Carnaval de Olinda. Sem dúvida, mantém viva a tentativa do velho Batata de atrasar as cinzas da tristeza, mas termina chegando a hora de a multidão lamentar:
É de fazer chorar
Quando o dia amanhece
E obriga o frevo a acabar
Oh, quarta-feira ingrata
Chega tão depressa
Só pra contrariar
Liturgia religiosa A Quarta-feira de Cinzas é uma celebração católica romana para demarcar o limite entre a festa da carne e um tempo de recolhimento espiritual para reflexão, penitência, arrependimento e renovação de fé que conhecemos como Quaresma.
Como marca inicial dos 40 dias que antecedem o domingo de Páscoa, é uma data móvel que pode ocorrer do início de fevereiro à segunda semana de março. O número faz referência aos 40 dias que Cisto se retirou para o deserto jejuando e orando. Essa contagem quaresmal não leva em conta os domingos do período, o que elevaria o intervalo para 46 dias.
Dentro da liturgia católica, é um dia dedicado à humildade e compreensão da mortalidade humana. Durante a missa de Cinzas, o sacerdote, diáconos e ministros impõem a cinza em formato de cruz, na testa ou sobre a cabeça do fiel. Durante o rito, anunciam uma das citações que representam os dois principais sentidos das cinzas: “Das cinzas vieste, às cinzas retornarás” (Gênesis: 3,19), lembrando a brevidade da vida, ou “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Marcos: 1,15), convidando à mudança de vida onde os prazeres devem dar lugar à espiritualidade.
Em tempos nem tão antigos, a Quarta-feira de Cinzas tinha bastante visibilidade porque o Carnaval era restrito a três noites – domingo, segunda e terça. Mesmo depois de arrastar a sexta e o sábado anteriores para a folia, restava a esperada mi-carême. Festejada pouco depois, na quinta-feira da terceira semana da Quaresma, fazia a alegria das crianças fantasiadas o dia inteiro. Até que a noite trazia para os adultos um esperado baile de Carnaval onde desfilavam amores públicos, grandes paixões proibidas e novos amores nascidos pouco tempo antes.
Além de católicos praticantes, poucos sabem que a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão são os dois dias do ano em que a Igreja define jejum e abstinência obrigatórios. A norma busca favorecer a conversão, a penitência, o autocontrole, a solidariedade com os mais necessitados e a renovação espiritual para celebrar a Páscoa. Entretanto, espremida pelo Carnaval cada vez mais longo e seus reflexos – cansaço físico, ressaca, viagens de retorno para casa, fim de férias –, a Quarta-feira Ingrata terminou diminuída pela sociedade.
Origem A Quarta-feira de Cinzas tem raízes na devoção popular praticada a partir do século 3, quando comunidades cristãs primitivas iniciavam o período de preparação para a Páscoa impondo cinzas sobre o corpo, como forma de penitência pública. O rito estava associado a arrependimento e humildade, e foi oficializado na liturgia no século 7 pelo papa Gregório Magno. Ele mesmo comandava uma pequena procissão silenciosa em Roma, nos arredores da Basílica de Santa Anastácia e Santa Sabina.
Outras datas Além do rito da Igreja Católica Apostólica Romana, a Quaresma também é comemorada na tradição cristã em outras datas.
– Rito ambrosiano No rito católico atribuído a Santo Ambrósio, praticado sobretudo em Milão, Itália, na diocese italiana de Lodi e no cantão de Ticino, único de língua oficial italiana na Suíça, o Carnaval termina no Sabato Grasso (sábado gordo, em português). O dia seguinte é o 1º domingo da Quaresma (o sexto domingo antes da Páscoa), e a imposição das cinzas ocorre na segunda-feira.
– Igreja Ortodoxa A Quaresma Ortodoxa ou Grande Quaresma compreende um período de sete semanas, com 40 dias de jejum mais a Semana Santa. Esse tempo de preparação para a Páscoa é cercado de rigores em busca de intensa purificação física e espiritual, reflexão e aproximação com Jesus Cristo, representando uma das tradições de maior importância do calendário ortodoxo.
Vai muito além das severas restrições alimentares do jejum porque envolve arrependimento, perdão, aumento das orações, ajuda aos necessitados e frequência à igreja. Tem início na Segunda-feira Limpa (em fevereiro ou março) e se estende até o Sábado de Aleluia.
Ouça nos links
Maria, Carnaval e Cinzas https://www.youtube.com/watch?v=VHmJjOYSvd8
É de Fazer Chorar https://www.youtube.com/watch?v=DDvjcMlJrhc&t=2s