Por Heraldo Palmeira
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25 de julho de 2026

Coisa de doido

Débora Palmeira/Alameda

Coisa de doido

  • Heraldo Palmeira

“De puro éter, assoprava o vento | Formando ondas pelo milharal | Teu pelo claro, boneca dourada | Meu pelo escuro, cavalo de pau” (Alceu Valença)

A música brasileira tá ruim. É difícil para quem, como eu, cresceu completamente cercado pela música, conviver com esse cenário desolador. Confesso, sem medo de errar: não sei o que seria de mim se eu não tivesse iniciado esse amor ainda na infância.

A música brasileira tá ruim mesmo? Tá nada! Basta procurar as difusoras alternativas onde estão soando gratíssimas surpresas. Como aconteceu naquela noite agradabilíssima de uma quinta-feira de inverno, no Rio. A Praça Tiradentes refletia suas luzes, ainda envolvida em mais uma das revitalizações urbanas que nunca terminam — pelo menos, estavam em andamento.

Sim, ali está um reduto carioca dos mais significativos, tamanha a memória da arte brasileira contemporânea que concentra. De um lado da praça, o Teatro João Caetano (1.139 lugares). Do outro, o Teatro Carlos Gomes (650 lugares), cujo foyer já estava bastante animado. Gente comum e algumas figuras mais ou menos conhecidas das artes e espetáculos.

De repente, um certo burburinho e aquelas luzes do telejornalismo se acenderam para um senhor de cavanhaque branco e boina, traços familiares ao país inteiro. Ali estava o cavaleiro da alegria Alceu Paiva Valença flanando em seus 80 anos muitíssimo bem vividos. Vívido! Sabe-se lá se estava chegando de São Bento do Una, Recife, Olinda, Leblon ou de um planeta qualquer de sua galáxia particular. O alvoroço é o mesmo em qualquer lugar.

As portas foram abertas, o converseiro se espalhou pela sala histórica, a campainha soou os três toques finais, as luzes foram esmaecendo até a escuridão, a plateia silenciou e as cortinas se abriram. Esse ritual sempre fascinante trouxe à cena Anunciação – Um musical sobre Alceu Valença. Aquela era a noite de estreia, onde costuma ser tradição um certo nervosismo do elenco querendo fazer tudo dar certo.

Antes de qualquer cena é preciso festejar a sorte brasileira de um anjo errante ter acertado cair exatamente em Pernambuco, e acordar do descaminho celestial num terreno baldio onde havia frevo, maracatu, coco, baião, roquenrou e pop, todos separados em seus canteiros. Por sorte, o anjo doidinho foi dotado de escrita fina, melodia polifônica, voz de todos os cantos, curiosidade insana e espírito saltimbanco suficiente para montar seu circo de sonoridades e poesia tão singular, que terminou virando um querubim atemporal para quem tanto faz oito ou 80.

Desde o primeiro movimento, o elenco — cinco homens, três mulheres — inicia uma viagem arrebatadora para celebrar os 80 anos do artista pernambucano. Não há sinais de nervosismo no ar, bons atores não costumam dar bandeira.

Em todos os movimentos o que se viu foi outra sorte: para chafurdar no paraíso da mitologia valenciana, a legião de serafins que protege nossa música saiu do conforto das nuvens e encontrou oito artistas raros, todos atores, todos cantores, todos dançarinos, todos multi-instrumentistas, todos pierrôs e colombinas do universo poético e simbólico do Carnaval particular de Valença.

Em cena, Duda Rios, Luiza Loroza, Maria Pérola, Juzé, Jef Lyrio, Natascha Falcão, Beto Lemos e Rafael Lorga, todos artistas com experiência no dueto teatro e música, levam ao fogo ora brando ora alto um caldeirão que destrincha e tempera, de forma lírica e originalíssima, uma das obras mais singulares da música brasileira. E mundial, ora se não! Tanto que não se vê o tempo passar, como se estivéssemos num transe, numa leitura “prima-irmã do tempo, que faz nossos relógios caminharem lentos causando um descompasso no coração”. E o coração fica bobo de felicidade, desejando que aquilo não termine nunca.

Não seria impróprio fantasiar que os atores vivem juntos num casarão em alguma ladeira de Olinda, ocupados em desvendar a obra de Alceu Valença. Ou não haveria todo aquele realismo em cena. Nem um texto tão complexo e completo — escrito por dois dos moradores do casarão — revirando poesia com métrica e rima, dores, amores, devaneios, imagens e miragens. Nem sons que parecem o outro lado da moeda dos originais e por isso soam tão próximos. Uma nova obra dentro da obra original, e as duas muito bem poderiam ser irmãs gêmeas filhas de um mesmo autor.

Vi com olhos marejados lágrimas em muitos olhos ao redor, e não é para menos. Não é todo dia que se tem uma noite daquelas, em que se entra num mundo particular onde é possível reencontrar intocado o território do orgulho da nacionalidade construída pela arte verdadeira.

A plateia vai sendo arrebata a cada fala, a cada poesia, a cada música, a cada passo de dança, a cada gesto sensual, a cada ato daquele agora. Alma lavada com a água limpa da fonte de cinco letras, com o movimento que o texto propõe para “caule” virar Alceu.

Faltam palavras para descrever o cortejo de instrumentos carregados pelos músicos, um achado cênico de realismo fantástico que soa como encantadora representação dos retirantes da seca carregando seu mundo particular que cabe nos ombros, o que é indispensável para vencer a viagem em busca de um desconhecido chamado futuro. A alegoria da “ave que avoa sem ser avião, papagaio do futuro montado no futuro indicativo, uma para-raios ao luar”.

O musical é um espelho cristalino do Nordeste que Alceu Valença fez universal, uma fresta iluminada na escuridão que nos cerca e permite “ver a luz do passado e do presente, viajar pelas veredas do céu pra colher três estrelas cintilantes e pregar nas abas do chapéu”. Mergulha no universo simbólico do artista, revelando diferentes camadas da sua obra por meio de uma dramaturgia — assinada por Luiza Loroza e por Eduardo Rios — que coloca em cena canções antológicas, poética, personagens e a força estética do universo valenciano.

O cenário é referencial às raízes culturais, ao realismo mágico e aos motivos carnavalescos do criador da obra. Um caleidoscópio poderoso, uma luneta do tempo em que o amarelo dá o tom principal como quem espalha ouro, a cor tão presente na sua poética, que aparece em “Papoulas vermelhas, a rosa amarela/E agora penso na réstia daquela luz amarela/Um beija-flor traindo a rosa amarela, pétalas, asas amareladas/Eu sou a terrível febre amarela”. Mas, como não poderia deixar de ser, também estão lá todas as cores da composição valenciana, roxo, azul, rosa, grená, vermelho carmim…

O único incômodo apareceu aqui e ali na operação do som. Logo na abertura, o subgrave estava muito além do necessário, embaçando as outras frequências. Não chegou a fazer tremer o ambiente, mas aquele deselegante “prrruuuummm” apareceu sem convite no monólogo inicial. Felizmente, foi logo convidado a se retirar pela equipe de segurança dos tímpanos saudáveis. Claro que era a estreia, onde um certo nervosismo e os acertos finais sempre são necessários e didáticos, mas a sonorização do espetáculo precisa de uma urgente sintonia fina que apresente uma mixagem mais equilibrada para que todas as trilhas gravadas, sons e vozes ao vivo fiquem em planos mais justos — em favor da inteligibilidade de todas as sonoridades, instrumentos e palavras ditas e cantadas —, inclusive evitando o atraso no acionamento dos microfones de alguns atores (em textos e canções).

Ao final do espetáculo, Alceu Valença subiu ao palco junto com toda a equipe e fez um agradecimento especial. “Eles fizeram esse trabalho em cima da minha obra, mas eu não vi nenhum ensaio e não sabia como ia ser feito. Dei toda a liberdade. E eu adorei, tá? Parabéns e muito obrigado a vocês”.

O musical foi idealizado por Miguel Colker. A direção artística é de Duda Maia, reconhecida por trabalhos que integram música, expressão corporal e narrativa. A direção musical é de Rico Viana, criador de trilhas sonoras teatrais. Os arranjos vocais são de Beto Lemos, músico e pesquisador que também faz parte do elenco.

Ao fim da temporada carioca, Anunciação – Um musical sobre Alceu Valença iniciará turnê nacional que começará por Recife.

Nota Problemas de sonorização viraram uma espécie de praga generalizada em qualquer evento. Quase todos os técnicos apresentam problemas auditivos, consequência direta de tanto ouvir tudo muito alto em tudo que é lugar, com o reforço dos exageros dos subwoofers. É claro que isso provoca a perda da acuidade auditiva e compromete o refinamento sonoro do que chega às plateias. Sem contar que a maioria desses profissionais se formaram por empirismo amparado em pendor e algum talento pessoal, e quase sempre atuando na assistência de alguém já estabelecido no mercado.

Serviço

Rio de Janeiro

23 de julho a 16 de agosto

quinta a domingo

Teatro Carlos Gomes

Recife

2 a 6 de setembro

quarta a domingo

Teatro do Parque

Citações Cavalo de Pau (Alceu Valença), Solidão (Alceu Valença), Papagaio do Futuro (Alceu Valença), Espelho Cristalino (Alceu Valença), Estação da Luz (Alceu Valença), Sete Desejos (Alceu Valença), Pétalas (Alceu Valença–Heberth Azzul) e Veneno (Alceu Valença–Rodolfo Aureliano da Silva).

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