Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

Conteúdo e comportamento

Geralt/Gerd Altmann/Pixabay

Conteúdo e comportamento

  • Heraldo Palmeira

Um grupo de amigos de meia-idade estava reunido num restaurante. A conversa envolvia as mudanças na vida humana observadas nas últimas décadas – tecnologia, dominância das redes sociais, isolamento social, falta de educação coletiva e de empatia, qualidade do ensino, etarismo, impunidade, polarização, violência urbana, adultos infantilizados, crianças indomáveis, descompromisso profissional, pornografia, inversão de valores, alterações comportamentais…

Uma das mulheres chamou atenção para o fato de sua mãe, quase octogenária, ter aliviado a postura extremamente conservadora ao longo dos anos. Outro relatou algo similar, que fortalecia sua convicção de que a exposição a determinados conteúdos massificados vai modificando posições e comportamentos.

As duas senhoras foram criadas sob rigorosa formação religiosa e os filhos suspeitavam que suas novas posturas tiveram enorme influência das novelas da televisão, que ambas adoram, cujos roteiros estão lotados de escândalos, quebram tabus, banalizam valores e relativizam quase tudo.

Importantes universidades internacionais já estudaram a influência de determinados conteúdos sobre o comportamento social, inclusive a associação de certas batidas rítmicas de música com ingestão de drogas sintéticas, uma forma explosiva de afetar o cérebro e o comportamento.

Também há o fenômeno das drogas sonoras – modificações nos tons da música enviados para cada orelha geram pequena diferença na frequência, e os sons resultantes, incorporados às ondas cerebrais, podem causar mudanças cognitivas e mentais com alteração da consciência. Brasil, EUA, México, Polônia, Reino Unido e Romênia lideram a utilização desses recursos digitais.

Todos esses elementos estão incorporados ao ambiente de festas, shows e festivais de grande popularidade, e alguns estudiosos já tratam o fenômeno como “narcocultura”. O que parece inegável é que o ambiente e a difusão de conteúdos moldam o comportamento de quem está submetido a eles.

Já entrou para a história a experiência de uma loja (instalada no Canadá) da rede de conveniência 7-Eleven. Era 1985 e um grande grupo de jovens costumava ficar nos arredores fazendo arruaça. Foi aí que o gerente instalou uma caixa de som na parte externa e passou a tocar Mozart. A ação foi tão eficaz que logo se repetiu em outras 150 lojas da empresa.

Em 2001, a polícia norte-americana reproduziu a ideia para esvaziar uma rua dominada pelas drogas em West Palm Beach, Flórida, e no decorrer do tempo diversas outras empresas e instituições oficiais ao redor do mundo passaram a utilizar a música clássica para modificar ambientes degradados.

A experiência mais reluzente é a do metrô de Londres, que em 2003 passou a tocar gravações de grandes orquestras nas estações e vagões como forma de diminuir condutas antissociais. Passados 18 meses, os números não deixavam dúvidas sobre a eficiência da medida, com queda dos índices de vandalismo (37%), roubos (33%) e atitudes agressivas contra funcionários (25%).

Hoje, em cidades gigantescas como Nova York e São Francisco, ou em locais distintos como Alasca e Austrália, é comum ouvir Bach, Beethoven, Brahms, Mozart, Schubert, Vivaldi em estacionamentos, centros comerciais, parques, ruas, pontos de ônibus, terminais rodoviários, estações de trem e metrô, portos e aeroportos.

Autoridades policiais afirmam que a eficácia da música é indiscutível. “Existe algo na música barroca que os pretendentes a gângsteres metidos a machões detestam”, garante um oficial de Cleveland, Ohio. “Ao tocarmos música clássica, queremos construir um ambiente desagradável para criminosos”, reforça o chefe da polícia de Tacoma, Washington.

Se uma trilha sonora pode reduzir a criminalidade, parece razoável acreditar que as decisões e comportamentos sofrem impacto dos conteúdos consumidos. Basta olhar ao redor e perceber o efeito da massificação de músicas com mensagens de traição, misoginia, ostentação, homofobia, humilhação, violência…

Os detratores afirmam que essas medidas apenas deslocam a delinquência de lugar, sem conseguir diminuir ou acabar com a violência. Elas atacariam somente pequenas infrações como vadiagem e vandalismo, crimes que alvejam propriedades e não pessoas, e a maioria das propriedades pertencem aos poderosos. “Negócios e lideranças governamentais usam a música clássica não como uma força moralizante positiva, mas para marcar território”, escreveu Lily Hirsch no livro Music in American Crime Prevention and Punishment (Música como Prevenção e Punição do Crime Americano).

A visão do jornalista Theodore Gioia, da revista cultural Los Angeles Review of Books vai mais além: “A metáfora que destaca o poder da música deve mudar para uma panaceia da punição. De unificadora, ela vira força que segrega, deixando de ser enobrecimento estético e moral para se configurar em realocação econômica. Mozart trocou a carreira de doutor da alma pela de agente do despejo de pobres. […] Em uma mutação bizarra, a música clássica deixa de ser ‘a linguagem universal do ser humano’, lembrando a todos uma humanidade em comum, para ser uma cerca sonora que protege áreas privilegiadas, dizendo aos plebeus em código autoritário que eles não são bem-vindos ali”.

O problema é que não é possível apagar das estatísticas os índices alarmantes de pessoas comuns, sem grandes patrimônios, vitimadas diariamente pela vadiagem e delinquência em locais públicos. Ainda mais quando esse tipo de análise não apresenta o roteiro da mudança de lugar, demonstrando onde estavam e para onde foram os “expulsos” pela música.

A oportunidade de discutir as razões da eficácia da medida, e sua aplicação até como ferramenta de saúde na área do comportamento e da reintegração social, se perde naquele discurso cada vez mais surrado e contaminado por posições ideológicas tipo “poderosos versus oprimidos” – que nunca resolve coisa alguma, nunca vai além da estridência militante, e quase sempre provoca o aprofundamento das diferenças.

A defesa de posições politizadas finge ignorar que os shows de orquestras continuam lotados em palcos nobres e apresentações populares ao redor do mundo, o que deixa óbvio que também há plateia para ouvir música clássica em seus próprios equipamentos particulares.

Também é ignorado o efeito devastador do volume quase insano que os operadores de som – quase sempre com baixa formação técnica e audição já muito afetada – impõem às plateias na transmissão de músicas que beiram o constrangimento, de tão ruins, depreciativas e repetitivas. Não passa nem perto do “enobrecimento estético e moral” cobrado por Gioia, já que há muito os espectadores perderam a capacidade de apreciar a nobreza estética de sonoridades elaboradas e lirismo de letras, e se entregam sem qualquer sentido moral a esse novo modelo de diversão que se espalhou como praga – onde a arte foi substituída por entretenimento dominado pela vulgaridade.

As argumentações descem ao ponto de afirmar que os sons percussivos dos primatas – que remontam aos tempos primitivos da civilização e foram ampliados pelos hominídeos – e o talento canoro dos pássaros teriam função específica para demarcar territórios na luta pela sobrevivência. O que dizer da percussão africana com presença magistral em diversos ritmos musicais mundiais? Onde enquadrar as sonoridades de Hermeto Pascoal ou inspirações de Tom Jobim retiradas da natureza? E o retrato precioso das quatro estações escrito por Vivaldi?

Se há fortes indícios de que conteúdos moldam comportamentos, a sociedade poderia esquadrinhar o que serve para crescimento, simples entretenimento ou manipulação predatória e trabalhar isso em seu favor. Como o Brasil tem a melhor música popular do mundo, já seria ótimo que ela voltasse a ocupar o lugar correto. Se o interesse coletivo chegar ao repertório clássico algum dia, nem se fala.

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