
Reprodução/PCP
Cravos da Revolução 1
- Heraldo Palmeira
“Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / Ainda guardo renitente um velho cravo para mim” (Chico Buarque)
O comum se caracteriza pela simplicidade. Por isso mesmo, não passa de comum. É corriqueiro, de pouco valor. O comum das pessoas não é diferente, se perde na multidão porque pessoas comuns parecem destinadas a atitudes comuns.
Talvez essa seja uma impressão dominante. Mas há pessoas comuns que contrariam esse aparente senso comum e, por algum motivo insondável, sem premeditar produzem coisas tão incomuns que beiram o inacreditável. Há aquelas ainda mais nobres que fazem algo inacreditável como se fosse algo óbvio, inevitável e seguem vivendo a mesma vida comum de sempre. Sem fazer questão de glórias..
Há pessoas que nascem num ambiente de tantos sacrifícios que parecem pré-condenadas a não vingar para a vida, muito menos para feitos inacreditáveis. A lisboeta Celeste Martins Caeiro driblou a sina de quem não iria longe e viveu longos 91 anos marcados por desafios, violência doméstica, resiliência e engajamento político-social. Por mais triste que seja esse quadro particular de uma mulher portuguesa, é ainda mais terrível constatar que é uma realidade muito mais comum e universal do que podemos imaginar.
Ela tinha 40 anos quando chegou para mais um dia de trabalho no restaurante Sir, o primeiro self-service de Lisboa, localizado no edifício Franjinhas, na rua Braamcamp, cercanias da praça Marquês de Pombal. Era cedo da manhã da quinta-feira 25 de abril de 1974. Seria um dia festivo porque a casa completava um ano de atividades e, para comemorar a data, a administração decidira mimar os clientes – pessoas que trabalhavam nos escritórios espalhados pelas ruas Braamcamp, Castilho e Salitre – oferecendo um cravo às mulheres e uma taça de porto aos homens. Ramos, o gerente, ficou encarregado de ir à praça da Ribeira comprar os cravos e retornou carregado com boa quantidade deles.
Entretanto, as ruas de Lisboa reservaram uma grande surpresa naquele dia que amanheceu com tropas militares e tanques colocando em curso um golpe de Estado contra a ditadura do Estado Novo. Por razões óbvias, o mundo civil não abriu as portas dos seus negócios e o engenheiro Matos Chaves, proprietário do restaurante, avisou os funcionários: “Meus senhores, a casa não vai abrir porque se está a dar um golpe de Estado. Os senhores vão para casa e depois nós avisamos se der para o bem ou para o mal”. Por fim, pediu que levassem embora os cravos brancos e vermelhos que estavam reservados para as clientes, evitando que murchassem no armazém.
Celeste saiu em busca de casa, um quarto alugado no número 14 da Calçada do Sacramento, no Chiado. Pouco depois de desembarcar na estação Rossio do metrô, encontrou na rua do Carmo o aparato militar que chegara de Santarém. Parou na esquina, diante da Tabacaria Caravela, e ficou observando a rua tomada por tanques e soldados. Curiosa, quis saber o que estava acontecendo e um dos militares respondeu: “Nós vamos para o Carmo para deter o Marcelo Caetano. Isto é uma revolução!”. E completou: “Por acaso a senhora não tem um cigarrinho?”.
Ela não era fumante, não tinha cigarros. E de modo prosaico o momento histórico começou a ganhar forma, no relato da própria Celeste: “Olhei para todos os lados para ver se havia alguma coisa aberta para lhes arranjar alguma coisa para comer, mas não havia nada. Tirei um cravo e dei-lhe. Aceitou, podia não ter aceitado. Pôs no cano da espingarda e achei bonito. Depois tirei outro e dei a outro soldado, que também pôs no cano”.
A mulher pequenina seguiu caminho entregando seus poucos cravos – “talvez meia dúzia”, costumava dizer – aos militares revoltosos do Movimento das Forças Armadas (MFA), a quem festejava dizendo “vocês são uns grandes homens”.
Na verdade, ela transformou aquele gesto de delicadeza num marco histórico porque todos os militares foram repetindo o gesto e colocando nos canos dos seus fuzis os cravos brancos e vermelhos – o Centro de Documentação da Universidade de Coimbra guarda imagens com soldados e seus fuzis enfeitados por cravos das duas cores naquela data histórica para as liberdades civis portuguesas.
O tempo formou o consenso de que aquelas flores nas armas foram decisivas para criar um elo emocional imediato com a multidão que começava a tomar as ruas em apoio aos militares revoltosos, e dar um tom pacífico ao que poderia ter se tornado um dia sangrento.
Por puro acaso, a mulher apanhada de surpresa pela revolução lhe deu batismo e criou com os soldados a poderosa iconografia da Revolução dos Cravos. Ali também foi rebatizada como “Celeste dos Cravos”. De alguma maneira intangível Celeste ajudou a pôr abaixo a ditadura instalada por António Salazar em 1933, e comandada desde 1968 por seu fiel discípulo Marcelo Caetano, falecido seis anos depois em seu exílio no Brasil.
Celeste virou personagem de honra na comemoração anual do 25 de Abril. Mesmo cercada de atenções populares, políticos, artistas, intelectuais, jornalistas e todo o aparato da mídia, nunca perdeu a simplicidade de quem fez algo inacreditável como se fosse óbvio, inevitável. Manteve a vida comum e costumava repetir com nobreza “sou uma pessoa como as outras, não sou mais importante. Aconteceu”. Talvez por não entender aquele acaso como um enorme papel histórico, ponderava de forma singela “comprou cravos, podia ter comprado outras flores quaisquer”. É quase certo que a revolução ganharia o nome de qualquer flor colocada nos canos das armas. Será que o senhor Ramos escolheu cravos por serem mais baratos?
Os portugueses sentem orgulho legítimo pela forma como se fez a passagem da ditadura para a democracia. Além de tudo, naquele dia Portugal espalhou uma onda democrática pelo mundo. Passado um ano exato da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1975 foi realizada a primeira eleição direta desde que Salazar tomou o poder e, no dia seguinte, foi promulgada uma nova Constituição. A Carta amparava a retomada da democracia e garantia direitos à habitação, educação e saúde. Algo imenso que teve o ornamento decisivo criado por uma mulher de metro e meio de altura.
Celeste morreu em 15 de novembro de 2024 sem pompa nem circunstância, mas a tempo de festejar o 50º aniversário do seu ato inacreditável. A mulher comum deixou um registro poético e definitivo nas páginas da História. “Portugal despede-se da mulher que pôs os cravos na revolução”, afirmou o primeiro-ministro António Costa. “Celeste dos Cravos partiu, mas o seu legado permanecerá vivo na história e na memória de todos nós. São as pequenas ações que dão início às grandes transformações”, registrou o Exército Português em suas redes sociais. O Partido Livre destacou que “Celeste transformou a Revolução de Abril na Revolução dos Cravos, ao oferecer aos militares uma flor como símbolo de paz e esperança”.
A dama dos cravos Naquele mesmo 1933 em que Salazar iniciou sua jornada de poder absolutista com o Estado Novo, nasceu em Lisboa, na freguesia do Socorro, aos 2 de maio, Celeste Martins Caeiro, uma criança cuja infância foi marcada por enormes dificuldades. A mãe espanhola, Teodora de Viana Martins Caeiro, abandonada pelo marido, deixou a menina com 18 meses e seus dois irmãos um pouco mais velhos confiados a instituições de caridade, fazendo-lhes visitas esporádicas. A partir da creche do Alto do Pina, a menina passou por diferentes lares assistenciais.
Aos 14 anos foi morar no Asilo 28 de Maio, conhecido como “Lazareto” porque servia de quarentena para viajantes que chegavam a Lisboa por via marítima. Construído em 1869, ao longo do tempo seu espaço imenso também serviu como hospital, abrigo para religiosas e moças pobres e lar de meninas carentes – chegou a acolher 1,5 mil. Após a Revolução dos Cravos, foi moradia para centenas de famílias africanas chegadas das ex-colônias.
Revoltada com a rispidez e severidade das freiras, Celeste terminou despachada do Lazareto para o Colégio de Santa Clara, onde recebeu formação técnica em enfermagem e saiu aos 20 anos. Entretanto, problemas pulmonares a impediram de exercer a profissão.
A vida de carências, desigualdades e injustiças deve ter semeado naturalmente a conscientização política, mas a centelha parece ter surgido quando esteve em férias no Alentejo, presenciou reuniões clandestinas na casa dos tios e foi alertada para manter segredo absoluto a respeito. Mais adiante, em Lisboa, passou a aproveitar as folgas do trabalho para assistir a julgamentos de presos políticos do regime no Tribunal Plenário, onde aprendeu a reconhecer os agentes da repressão infiltrados no meio dos presentes e testemunhou suas abordagens assustadoras.
Encontrou o caminho da sobrevivência trabalhando numa fábrica de camisas na avenida Almirante Reis, depois na tabacaria do Café Patinhas, na rua da Prata. Foi lá que conheceu um homem alcoólatra com quem dividiu parte da vida, teve uma filha, sofreu violência doméstica e foi embora com a criança quando ela completou três anos.
O emprego no Patinhas ampliou sua militância e reforçou o orçamento, pois o local era ponto de gente de esquerda a quem ela vendia livros proibidos pela ditadura. O patrão tinha conhecimento da atividade clandestina e demonstrava preocupação de que ela fosse descoberta pelos órgãos de repressão.
O próximo emprego foi na chapelaria da boate Marygold, na rua do Sol ao Rato. O local era conhecido como ponto de homossexuais, de consumo de drogas e alvo recorrente da polícia. O fato de ser mãe solteira e trabalhar num local de má fama serviu de justificativa para ser despejada pelo senhorio da casa onde vivia.
O restaurante Sir estava abrindo as portas na rua Braamcamp e Celeste conseguiu emprego na área de limpeza do restaurante. Foi de lá que ela partiu para um inesperado lugar na história portuguesa.
O dia 26 de abril amanheceu em meio à euforia da população com os novos ares de liberdade. As imagens dos soldados com cravos nos fuzis e nas bocas dos canhões haviam ganhado o mundo e toda a mídia perguntava onde nascera a ideia genial daquela revolução florida. Sem qualquer intenção de reconhecimento, Celeste contou às colegas de trabalho o que havia ocorrido e, não demorou, a informação chegou à revista Crónica Feminina. A primeira entrevista, concedida à jornalista Ruth Quaresma em 13 de junho de 1974, é hoje uma peça histórica da imprensa portuguesa.
Aquele primeiro soldado jamais foi identificado, bem como não há qualquer registro fotográfico da dama dos cravos distribuindo suas flores. Mesmo assim ela ficou conhecida como “Celeste dos Cravos”, que se recusou a sentir medo naqueles tempos de repressão. Não há espanto, o destemor foi desde sempre seu parceiro de vida.
A velhice não trouxe mudança ao padrão de sacrifícios. Já aposentada, em 1988 perdeu tudo no grande incêndio que destruiu uma parte do Chiado, onde sobrevivia num apartamento alugado. Nos últimos tempos vivia com uma pensão de € 370 (R$ 2,42 mil) numa pequena casa nos arredores da avenida da Liberdade. Por fim, foi levada para morar na casa da filha e neta em Alcobaça, enfrentando sérios problemas de audição, locomoção e visão, e precisou de uma mobilização pública para comprar um aparelho auditivo.
Celeste ainda participou do desfile do 25 de Abril deste 2024. Sua presença ao lado da família na avenida da Liberdade foi um dos momentos mais especiais da celebração popular, com destaque para o momento em que distribuiu cravos repetindo o gesto icônico que completava 50 anos. Morreu meses depois no hospital de Leiria, vencida por problemas respiratórios.
“Já murcharam tua festa, pá / Mas certamente esqueceram uma semente / Nalgum canto de jardim” (Chico Buarque)
Outros cravos Os famosos cravos que ocuparam os canos dos fuzis e dos canhões dos blindados geraram uma série de lendas urbanas sobre como chegaram até os soldados. Oferta de uma florista do Rossio. Trazidos de um cartório onde haveria um casamento, cancelado em razão da revolução. Despachados do aeroporto da Portela, onde estavam em vias de exportação.
As declarações de Celeste em diversas entrevistas desmancharam todas essas versões. Na verdade, depois que ela distribuiu seus cravos e os militares começaram a colocá-los nos canos dos fuzis, floristas do Rossio passaram a imitar seu gesto porque, parece óbvio, também desejavam mudanças e logo compreenderam o profundo significado daquilo.
É nesse ponto que entra em cena Tavira, na costa do Algarve. Em 20 de abril de 2024, a jornalista Mara Gonçalves publicou no jornal Público a reportagem Cravos de Tavira, o último segredo de Abril. A matéria divulgou o papel relevante da cidade para a iconografia da revolução, a partir do cultivo de cravos no Posto Agrário de Tavira. Também destacou Guilhermina Martins Madeira, uma das responsáveis pela colheita e envio costumeiro das flores para Lisboa por meio do senhor Laranjeira, um despachante alfandegário especializado no comércio de frutas e flores no Mercado da Ribeira.
Os cravos – inclusive os de Celeste, comprados para mimar as clientes do restaurante – distribuídos aos militares vieram de Tavira para abastecer as floriculturas do Rossio como parte das encomendas corriqueiras. A explosão da flor como ícone da revolução provocou uma encomenda urgente na segunda-feira seguinte, a ponto de o senhor Laranjeira pedir que lhe enviassem toda a produção disponível. As imagens da revolução expostas na mídia mundial e a comemoração que se faria do 1º de Maio criaram uma pressão por cravos nunca vista na cadeia de negócio dos floristas portugueses.
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