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Cravos da Revolução 2
- Heraldo Palmeira
Até o rádio e a música transmitirem as senhas portadoras do sopro de mudança, os cravos brancos e vermelhos enfeitarem fuzis e canhões, Celeste dos Cravos ganhar notoriedade e os portugueses concretizarem sua Revolução dos Cravos naquele mundo conturbado de 1974, uma história sinistra de 48 anos de ditadura dominou Portugal
Portugal se manteve governado por uma monarquia constitucional até outubro de 1910, quando a república foi proclamada. Sob esse novo modelo político o país participou da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e saiu do conflito em grave crise econômica e social. Estava formado o cenário perfeito para que florescessem no país as ideias autoritárias que se alastraram pelo mundo ocidental a partir dos anos 1920, depois da instalação pioneira do fascismo italiano de Benito Mussolini (1922).
O resultado foi o golpe de Estado de 1926 que instalou uma ditadura militar, seguida por uma ditadura civil implantada em 1933 por António de Oliveira Salazar. Ele havia chegado ao poder em 1932, quando se tornou primeiro-ministro. No ano seguinte, uma nova Constituição lhe garantiu amplos poderes para dar início ao Estado Novo – regime pautado por nacionalismo, antipartidarismo, censura, antiliberalismo e perseguição política.
O ditador deixou o poder em 1968, quando sofreu um AVC e terminou afastado. Jamais concretizou o desejo tantas vezes declarado de um dia se retirar para Santa Comba Dão – onde estava encravado o povoado Vimieiro em que nascera – e se dedicar à escrita.
Foi substituído pelo fiel discípulo Marcelo Caetano, que governou até 1974 sem a mesma imponência do seu criador. Ao longo daqueles 48 anos, Portugal ficou submetido a obscurantismo, pobreza, moralismo, repressão e isolamento internacional. Esse longo período abrigou a mais antiga e mais longa ditadura do século 20 na Europa, sob o lema “Deus, pátria e família”.
A morte de Salazar em 1970 representou um sopro de ânimo para os opositores, que buscavam a redemocratização. Ao mesmo tempo em que o país continuava afundado na crise econômica, as Forças Armadas estavam completamente desacreditadas por dar suporte militar ao regime, o que começou a causar cada vez mais inquietação dentro dos quartéis, principalmente no oficialato mais jovem e de patentes médias.
Havia um ponto nevrálgico: a Guerra Colonial Portuguesa, conflito armado iniciado em 1961 como resposta da ditadura contra os guerrilheiros dos movimentos de libertação das colônias portuguesas da África – com destaque para Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.
Desde as Grandes Navegações Portugal mantinha colônias nos litorais da África e Ásia, de grande importância econômica para o país. Mantê-las dependentes era fundamental para o governo salazarista, que não economizou esforços e recursos para reprimir os rebeldes.
Nos 13 anos da campanha militar ultramar, a ditadura agravou sobremaneira a crise econômica do país ao destinar boa parte do orçamento público – os números oscilam entre 20% e 37% – para custear a guerra contra as colônias. De quebra, abriu uma enorme ferida emocional na sociedade em razão do elevado número de vítimas dentre os cerca de 800 mil jovens portugueses (90% do total dessa faixa da população) enviados para o campo de batalha. As famílias começaram a enfrentar uma nova realidade: receber mortos, mutilados e vítimas de estresse pós-traumático, ou ver seus jovens fugirem para Paris como meio de escapar do serviço militar obrigatório. Esse êxodo transformou a capital francesa em verdadeiro reduto lusitano e as especulações sugeriam que apenas Lisboa concentrava maior número de portugueses vivendo numa mesma cidade naquele período.
Com o passar do tempo, a ditadura deu início ao recrutamento compulsório de estudantes oponentes do regime, que vinham das universidades muito influenciados pelo Maio de 1968 parisiense. Eles chegavam ao fronte na África levando na bagagem muitos livros e discos proibidos pelo regime.
Os novos recrutas logo contagiaram militares de carreira já convencidos na prática de que aquela era uma guerra perdida desde o início e muito distante da propaganda oficial que inundava o país. “A guerra nos ajudou a abrir os olhos para a cegueira do governo, para a situação de ditadura aqui, para a legitimidade da luta do nosso inimigo. Eles é que estavam certos, que lutavam pela sua independência, pela sua autonomia. Nós estávamos do lado errado”, declarou décadas depois o líder do movimento dos capitães revoltosos, o então capitão Vasco Lourenço – que não comandou a operação de 25 de abril de 1974 porque foi transferido um mês antes para o arquipélago dos Açores.
Esse intercâmbio pode ter sido a centelha para o surgimento do Movimento das Forças Armadas (MFA), responsável pela operação que derrubou a ditadura. O movimento começou a juntar um número crescente de militares rebelados, cerca de 300 capitães que haviam participado da guerra nas colônias. A primeira reunião clandestina se deu em 21 de agosto de 1973, em Bissau. Poucos dias depois, em 9 de setembro, um novo encontro secreto no monte Sobral, local perdido nas imediações de Alcáçovas, Alentejo, juntou pouco mais de 130 oficiais que chegaram de diversos pontos do país sem chamar atenção..
Corria fevereiro de 1974 e um fato inesperado acelerou o processo de conspiração dos capitães: o general António de Spínola, calejado pelo cargo de governador militar da Guiné-Bissau de 1968 a 1973 – nomeado diretamente pelo ditador Salazar –, desestabilizou o regime com a publicação do seu livro Portugal e o Futuro, onde apresentava críticas contundentes à política colonial. Por exemplo, defendia que a guerra não poderia triunfar pelas armas, mas pelo campo político e diplomático, inclusive com negociações com grupos revolucionários e algumas concessões políticas em favor das colônias. Nomeado no mês anterior para o cargo de vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, foi sumariamente demitido e arrastou seu chefe, o também general Francisco da Costa Gomes.
Em 5 de março aconteceu o primeiro movimento de conscientização da sociedade civil quando o MFA, desafiando abertamente o regime, fez circular clandestinamente seu primeiro documento oficial Os Militares, As Forças Armadas e a Nação.
A operação denominada Fim-Regime foi marcada para ocorrer em 25 de abril de 1974 porque, naquele dia, Lisboa receberia um grande contingente de tropas mobilizadas para a Guerra Colonial na África. Também seria noite de Lua minguante, com baixa claridade noturna. Todos esses fatores favoreceriam os movimentos dos rebeldes comandados pelos chamados “capitães de abril”.
O levante vinha sendo tramado há meses e a missão dos revoltosos foi planejada pelo major Otelo Saraiva de Carvalho em mais de 40 ações distribuídas entre as tropas. Foi ele quem assumiu o posto de comando clandestino do MFA durante o golpe, instalado no quartel da Pontinha ao lado de outros cinco oficiais do grupo.
A revolução teve grande ligação com o ambiente cultural, com forte presença de músicos, poetas, escritores e jornalistas na sua gestação política. E mantém até hoje sua influência sobre a cultura portuguesa, com presença na literatura, cinema, música, televisão e movimentos sociais. O 25 de Abril também estabeleceu laços definitivos com o feminismo português, em razão dos avanços que propiciou para os direitos das mulheres.
Também não foi pequeno o choque cultural com a chegada de cerca de 600 mil retornados, como ficaram denominadas, inclusive ganhando depois tom pejorativo, as pessoas que viviam nas colônias africanas e retornaram para a metrópole. Quem vinha da África – onde o ambiente era certamente mais moderno e alegre – em trajes coloridos e modernos estranhava encontrar na sede do império tanta gente vestida em bege, cinza e preto, a tristeza reinante e uma imensa quantidade de desdentados.
A face do ditador António de Oliveira Salazar não deixava margem de dúvida sobre sua posição a respeito do poder, emitindo recados diretos como “A legalidade sou eu”; “O conselho de ministros é aqui, nesta poltrona”; “Prefiro que me temam a que me amem”.
O ditador era um sujeito frio, inescrutável, triste e firme em suas convicções autocratas. “Portugal era ele, tinha de ser aquilo que ele decidisse, e sua vida era Portugal”, escreveu o autor italiano Marco Ferrari em seu livro A Incrível História de António Salazar, o Ditador que Morreu Duas Vezes. Já o escritor Fernando Pessoa, que morreu em 1935 quando Salazar mal tinha completado a primeira década de presença na vida pública, definiu que ele era “o produto de uma fusão de estreitezas”, resultado da origem campestre, formação religiosa do seminário e educação pouco humanista de Coimbra. Uma fórmula que pode tê-lo moldado para governar um império colonial com métodos provincianos, a ponto de voltar a economia para a produção rural e patrocinar uma grande operação militar para manter as colônias da África e Ásia.
Era um sujeito metódico com rotina rigorosa em horários e demais hábitos. A cada três semanas recebia o calista Augusto Hilário e o barbeiro Manuel da Encarnação Marques – as barbas matinais diárias eram feitas pela governanta Maria de Jesus, a lendária “dona Maria”. Adorava andar de chinelos, tinha alimentação frugal, não fumava e bebia uma pequena quantidade diária de vinho Dão oriundo de sua pequena propriedade. Conseguia ser louco por café sem consumir a bebida – que considerava a melhor de todas depois da água – e se contentava em apenas cheirá-la como forma de não sofrer a excitação provocada pela cafeína.
Recebia visitas sempre no fim da tarde e depois fazia leituras, ouvia rádio e passeava pelo jardim entre galinhas e pombos. Escrever cartas era uma de suas paixões. Gostava de livros de História, com interesse especial pela norte-americana, biografias de grandes figuras históricas e música clássica, com destaque para a ópera. Era admirador confesso de líderes políticos como Adenauer, Churchill e de Gaulle.
Era também um carola católico, talvez consequência da experiência como seminarista que chegou a receber as ordens menores. Pode ter vindo daí a abertura para que a Igreja desempenhasse papel central no projeto ideológico e sociopolítico do salazarismo, mesmo ele tendo trocado a carreira religiosa pelo direito na Universidade de Coimbra, onde se tornou professor de economia.
Na sociedade portuguesa salazarista o papel feminino era mantido sob controle por costumes arcaicos em plena sintonia com a misoginia característica do próprio ditador. Mulheres não podiam sair do país sem a autorização do pai ou marido, comprar imóveis sozinhas, assumir cargos na magistratura, ter carreiras diplomáticas ou usar contraceptivos contra a vontade do marido – motivo legal para o esposo requerer separação judicial ou divórcio. “Persuadido que uma boa esposa, que se preocupa em bem gerir o seu lar, não pode produzir fora dele um bom trabalho, lutarei sempre contra a independências das mulheres casadas”, declarou Salazar, claramente empenhado em impedir qualquer progresso feminino.
Conservador, puritano e moralista, sua relação com o mundo feminino sempre foi contraditória, insegura e distante da imagem de homem casto, solteirão convicto e “casado com a nação” que o marketing político desenhou para ele. Desde os tempos de seminarista viveu cercado de especulações, com seu nome ligado a muitas mulheres em casos pecaminosos, complexos e confusos, todos abafados. Inclusive a relação com a governanta de vida inteira, a temida Maria de Jesus Caetano Freire – há também a versão de que nunca passou de vinculação profissional que progrediu para amizade profunda. Tudo muito distante do ideal que defendia sobre família, “a célula social cuja estabilidade e firmeza são condição essencial do progresso” que afirmara.
Destituído de brilho e carisma, com voz aguda, estridente e sibilante, cuidava da própria imagem criando a aura de homem humilde e sem ambições políticas, que estava ali para salvar o país oferecendo todos os sacrifícios pessoais. Pura balela, mal conseguia dissimular a falsa modéstia e prepotência. O exercício da autoridade era uma necessidade de vida, algo obsessivo que tentava disfarçar com a elegância britânica dos impecáveis e onipresentes ternos escuros.
Péssimo orador, detestava viagens, aparições públicas e eventos políticos onde era obrigado a conviver com governantes ou representantes oficiais que considerava privados de nível intelectual semelhante ao seu. Essa postura pessoal reforçou ainda mais o isolamento geopolítico que Portugal sofreu em razão do regime ditatorial. Com o Brasil, as ligações foram mais fortes através do ditador Getúlio Vargas, que também teve seu próprio Estado Novo, e do sorridente “presidente bossa nova” Juscelino Kubitscheck.
Salazar era apaixonado por horóscopos, o que esclarece algo que beira o inacreditável: por três décadas, as principais decisões de Estado foram orientadas pelas previsões astrológicas de Maria Emília Vieira, bailarina e astróloga que se apresentava em hotéis e navios. Uma mulher livre, moderna, liberada, esfuziante e exibicionista com quem o ditador manteve longo caso amoroso e transformou em conselheira pessoal, embora ela mantivesse uma relação com o jornalista Adolfo Norberto Lopes.
Seu fim, dividido em dois atos e com elementos de tragicomédia, mostrou que nem mesmo os mais poderosos ditadores conseguem se proteger de si mesmos.
A parte tragédia se deu num acidente doméstico ocorrido em 3 de agosto de 1968. Como enfrentava dores crônicas nos pés que o obrigavam a usar calçados especiais, estava prestes a ser atendido pelo calista quando o pano da cadeira de pano rompeu no momento que ele se sentou. Entretanto, o barbeiro afirma que o homem caiu sozinho: “O doutor Salazar era muito educado, mas muito cabeça no ar”, teria dito. O escritor José Saramago tratou o assunto com ironia no conto A Cadeira, publicado no seu livro Objeto Quase (1978), com a narrativa de um homem velho que desaba quando sua cadeira corroída pelo inseto broca de madeira se espatifa sob seu peso.
Seja lá qual tenha sido a forma da queda, uma violenta pancada na cabeça contra o chão e sua negativa de receber socorro médico imediato resultaram numa cirurgia, realizada um mês depois, para tratar do edema cerebral que se formou. Permaneceu internado até fevereiro de 1969 e restou debilitado. Deixou o hospital com movimentos comprometidos e perdera a condição de governar. Tanto que o pupilo Marcelo Caetano assumiu o poder enquanto o ditador estava em coma.
A parte comédia teve início na residência oficial do Palácio de São Bento, onde foi instalado o ambiente para convalescença. Ao mesmo tempo os bajuladores armaram um verdadeiro circo, cujo picadeiro foi ocupado por ministros e assistentes empenhados em fazer um Salazar inválido acreditar que ainda governava Portugal. Essa ópera-bufa, que também contava com encontros políticos, ganhava o noticiário e eliminava todas as informações sobre Marcelo Caetano – que aceitou de bom grado esse papel constrangedor –, permaneceu em cartaz durante os últimos 17 meses de vida do ditador.
*Todos os militares foram citados com as patentes que detinham nos momentos em que os fatos ocorreram. Alguns passaram à reserva com patentes superiores.
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