Por Heraldo Palmeira
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4 de abril de 2025

Cravos da Revolução 3

Reprodução/Sintrajufe (RS)

Cravos da Revolução 3

  • Heraldo Palmeira

“Quis saber quem sou/ O que faço aqui/ Quem me abandonou/ De quem me esqueci/ Perguntei por mim/ Quis saber de nós/ Mas o mar não me traz tua voz” (José Calvário-José Niza)

O salazarismo sempre padeceu de divisões internas e os grupos só se mantiveram associados em razão da autoridade de António de Oliveira Salazar para controlar todas as correntes divergentes. “O salazarismo não era harmonioso, havia monárquicos, republicanos, católicos, maçons e ultramontanos, que Salazar manobrava”, analisa Pedro Feytor Pinto, diretor dos Serviços de Informação do governo Marcelo Caetano – que sucedeu Salazar.

A ditadura salazarista entrou em decomposição em 1968, quando seu mentor caiu de uma cadeira dentro de casa. Valendo-se da própria estupidez autoritária, recusou socorro médico imediato e terminou inválido depois da cirurgia realizada somente um mês depois para tratar do edema cerebral que se formou na pancada da cabeça contra o chão. Sua morte em 1970 estimulou um país sufocado a buscar a liberdade que ele roubara por décadas, e a partir de 1973 a ideia começou a ganhar forma. Afinal, a sociedade estava farta da ditadura, já não suportava fazer tantos sacrifícios, viver num país moldado por uma cabeça obtusa e naquela altura governado por um afilhado inexpressivo.

Quem deu forma estruturada e corpo à ideia de mudança foi um grupo de cerca de 300 capitães, que olhou para dentro do próprio ambiente militar e começou a tomar consciência de que a Guerra Colonial Portuguesa, travada desde 1961 no continente africano, não tinha sentido. Esses militares mais jovens, que estavam vivenciando o mundo real das batalhas, entendiam que as colônias tinham o direito legítimo à autodeterminação depois de séculos de exploração da metrópole, iniciada com as Grandes Navegações.

Além da perda de vidas, mutilações e adoecimentos físicos e emocionais dos combatentes, e do agravamento da crise econômica em razão dos gastos operacionais, a guerra estava afundando o prestígio das Forças Armadas diante da população portuguesa, que passou a enxergar os militares como braço poderoso de sustentação do regime.

Essas constatações geraram a insatisfação dos quartéis, ponto de combustão para a criação do Movimento das Forças Armadas (MFA). Estava pronto o cenário para montar e levar adiante a operação que ficou conhecida como “Viragem Histórica” e “Fim-Regime”, cujo objetivo era derrubar a ditadura agora comandada por Marcelo Caetano.

Os militares levaram meses tramando o golpe e o planejamento das ações foi sendo desenhado sob o comando do major Otelo Saraiva de Carvalho. A comissão coordenadora se reuniu pela última vez em 24 de março de 1974 e definiu que a operação teria início na noite de 24 de abril, exatamente dali a um mês.

As transmissões militares foram decisivas para o sucesso do projeto Viragem Histórica e todo o plano de comunicação clandestina foi elaborado pelo tenente-coronel Amadeu Garcia dos Santos. O primeiro grande procedimento operacional ocorreu nas noites de 22 e 23 de abril, quando o MFA realizou um trabalho de alto risco instalando em Lisboa um cabo telefônico aéreo ligando a central do Exército com o Quartel da Pontinha, onde ficaria o posto de comando do golpe.

Esse sistema, com cerca de quatro quilômetros de cabos, também permitiu a montagem de escutas às redes de diversos setores militares e autoridades civis. Com isso, o posto de comando da revolta passou a ter acesso direto a toda comunicação reservada das forças leais ao governo.

Um ponto de elevado refinamento tático foi incluir o rádio e a música como elementos decisivos das ações. Eles tiveram uma participação fundamental para o sucesso do golpe, transmitindo, sem levantar suspeitas e nas barbas dos censores da temida polícia política salazarista, as senhas que colocaram a operação Fim-Regime em curso. No caso da segunda senha, com o requinte de contar com a assinatura do agente da repressão liberando o conteúdo transmitido.

Os momentos decisivos foram compostos por fatos marcantes, que passaram à história portuguesa carregados de coragem, tensão, inteligência, tranquilidade, presença de espírito, resiliência e equilíbrio para vencer situações carregadas de ódio, truculência, sofrimento, dificuldade e perigo.

24 de abril (quarta-feira)

Pouco antes das dez da noite, quando o jornalista João Paulo Diniz chegou à Rádio Peninsular, afiliada dos Emissores Associados de Lisboa (7º andar do número 162 da avenida Elias Garcia), solicitou à discoteca alguns discos que faziam sucesso na época, dentre eles um álbum dos Beatles e um do cantor Paulo de Carvalho, onde estava a canção E Depois do Adeus (link abaixo), que representou Portugal no festival Eurovision 1974. Como todos aqueles álbuns que ele requisitou estavam liberados, o pedido não incomodou o agente da censura – eles estavam sempre presentes nos estúdios e redações.

22h00 O Posto de Comando do MFA se instalou no Regimento de Engenharia 1, no Quartel da Pontinha, onde o major Otelo Saraiva de Carvalho assumiu o comando das operações assessorado por outros oficiais, os capitães Vítor Crespo e Sanches Osório, o major José Maria Azevedo e os tenentes-coronéis Garcia dos Santos e Fisher Lopes Pires. Mais tarde, juntou-se ao grupo o major Hugo dos Santos, vindo de Tomar.

O capitão Luís Macedo, da tropa daquele regimento e que ficou responsável pela segurança do local, havia escolhido um anexo do quartel cujas janelas foram isoladas com cobertores militares. No interior, iluminação reduzida, uma mesa central e três outras de apoio ocupadas por um equipamento de rádio e diversos telefones. Para marcar as movimentações das tropas rebeldes, estavam afixados o mapa das estradas de Portugal e cartas topográficas militares de Lisboa e arredores. Numa das paredes, um armário repleto de pistolas e granadas.

22h48 A Rádio Peninsular já estava veiculando o programa Quatro Tempos, com Diniz no comando da atração, e houve tensão quando uma falha técnica retirou a emissora do ar. Foram três minutos intermináveis, mas tudo voltou ao normal a tempo. Caso a mensagem não fosse transmitida dentro do combinado com o comando golpista, tudo iria a perder, as tropas sublevadas entenderiam que algo deu errado e a operação estava cancelada.

22h55 Diniz anunciou: “Faltam cinco minutos para as 23 horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, E Depois do Adeus”. A fala do locutor durou exatos oito segundos. A música levou mais três minutos e 19 segundos. Estava dada a senha confirmando a operação. A partir daquele momento as unidades militares revoltosas de Lisboa e arredores ficaram a postos para o início do movimento que pretendia impor a rendição a Marcelo Caetano..

Distante cerca de cinco quilômetros dali, depois das onze da noite quando chegou à Rádio Renascença, emissora ligada à Igreja católica (2º andar do número 5 da rua Capelo), o locutor Paulo Coelho iria apenas substituir o titular do programa Limite, o poeta moçambicano Teodomiro Leite de Vasconcelos, que estava de folga.

Também estavam no estúdio o poeta Carlos Albino – que costumava colaborar com o programa – e o operador de som Manuel Tomaz. Os dois eram os únicos presentes que sabiam do golpe e estavam envolvidos na missão de transmitir a segunda senha.

Tomaz chamara o locutor titular Leite de Vasconcelos ao estúdio durante a tarde e terminara a montagem do trecho extra do programa – com a segunda senha – por volta das oito da noite. Informou ao locutor e ao operador de som que estavam de serviço que haveria uma alteração no conteúdo daquela noite, com a inserção em hora marcada de uma gravação feita por Vasconcelos. A explicação para aquela novidade: uns amigos italianos de Albino estavam visitando Portugal, iriam embora no dia seguinte, gostariam de gravar poemas portugueses para levar com eles e só teriam disponibilidade à meia-noite e vinte. Não houve contestação dos outros, inclusive pelo fato de Tomaz ser um dos produtores do Limite.

25 de abril (quinta-feira)

00h05 A Rádio Renascença já estava veiculando o programa Limite, quando um corte de energia interrompeu a transmissão. Foram cinco minutos eternos até a emissora voltar ao ar. Mas esse foi apenas mais um risco ao sucesso da missão, porque Coelho, mesmo avisado por Tomaz a respeito do horário preciso da inserção do conteúdo extra, decidiu esperar o fim de uma música que acabara de colocar no ar e antecipar alguns anúncios publicitários. O ambiente ficou tenso.

Tomaz salvou a missão logo após a leitura do primeiro anúncio. Fingindo esbarrar por acaso na mão do operador de som José Videira, que estava de serviço, e mesmo sob protesto dele e do locutor, colocou no ar o trecho que havia montado.

00h20 A voz previamente gravada de Leite de Vasconcelos ecoou nas ondas do rádio, declamando “Grândola, Vila Morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade”. Eram os quatro primeiros versos da canção Grândola, Vila Morena, gravada por Zeca Afonso (link abaixo), que foi executada na sequência da leitura. Ao final da música, foi repetida a leitura dos quatro versos iniciais. Era a senha combinada como derradeiro sinal de orientação às tropas aglutinadas pelo MFA, autorizando o início das operações planejadas para os cinco5 mil homens de diversas divisões militares de Lisboa e do resto do país. A partir dali a operação Fim-Regime, estava em marcha irreversível para derrubar a ditadura salazarista.

Carlos Albino e Manuel Tomaz haviam incluído na sequência da montagem os poemas Geografia e Revolução Solar (ambos de Albino) e mais outra canção de Zeca Afonso, Coro da Primavera. O censor de plantão na emissora entrou esbaforido no estúdio perguntando quem havia autorizado os demais poemas constantes do conteúdo extra, e Albino apresentou-lhe o documento (que o militar em pessoa havia assinado mais cedo) liberando a transmissão do material. Diante do próprio vexame, anunciou imponente que a partir dali o programa passaria pela censura somente depois de finalizado. Mal sabia o fulano fardado que aquelas eram as últimas horas de sua atividade repugnante..

00h30 Tiveram início as operações para ocupar locais estratégicos em Lisboa, que incluíram o aeroporto da Portela, o Banco de Portugal, diversos veículos de comunicação e instalações do comando militar.

Pouco antes de começar a marcha sobre Lisboa, iniciada a uma e meia daquela madrugada, o capitão Fernando Salgueiro Maia reuniu a tropa da Escola Prática de Cavalaria de Santarém para ler o comunicado do MFA e informar que precisava de voluntários.

Fez questão de estar igualado aos seus soldados, vestido com o mesmo uniforme comum de todos – retirou os adereços de um oficial de cavalaria – e falou ao grupo: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados socialistas, os Estados capitalistas e o Estado a que chegamos. Ora, nesta noite solene, vamos para Lisboa acabar com o Estado a que chegamos! Quem quiser vir comigo vai formar lá fora, quem não quiser fica aqui”. Não houve deserções.

04h26 A Rádio Clube Português (no número 24 da rua Sampaio e Pina) transmitiu o primeiro comunicado do comando revolucionário, lido pelo locutor Joaquim Furtado. A emissora passou a transmitir marchas militares e o operador de som José da Silva Ribeiro fez algumas sugestões, aceitas pelos oficiais rebeldes: “Vou buscar os discos que estão proibidos e começar a emiti-los. E também é preciso arranjar um indicativo para anteceder os comunicados”. Ele percebeu que a mudança na programação e um prefixo para os informes facilitariam o entendimento da população de que mudanças estavam acontecendo.

Aquele e outros comunicados lidos na sequência das horas permitiram que a população tomasse conhecimento do golpe e fosse para as ruas apoiar os revoltosos, contrariando as orientações do MFA para todos permanecerem em casa por motivos de segurança.

05h00 Depois de percorrer os 83 quilômetros que separam as duas cidades, a coluna de blindados vinda de Santarém não teve qualquer resistência para entrar na capital e estacionou no Terreiro do Paço. “Foi muito impressionante. Entramos pelo Marquês de Pombal, pela avenida da Liberdade e chegamos ao Terreiro do Paço às cinco da manhã. Imagine o barulho de uma coluna de blindados em plena avenida da Liberdade. Não houve reação, nenhuma movimentação, zero, nada. Depois percebi que a sensação era de que o regime estava a cair de podre”, relembra o agora embaixador Francisco Ribeiro Telles, na época um soldado novato da tropa do capitão Salgueiro Maia. Ocupar o Terreiro do Paço era a missão mais importante do golpe, pois estavam lá os ministérios.

Ditador avisado No momento em que as tropas de Santarém ocuparam ao Terreiro do Paço, o major Fernando da Silva Pais, diretor da polícia política, telefonou para Marcelo Caetano – ainda na cama – informando que a revolução estava acontecendo. “Senhor presidente, a revolução está na rua! O caso é muito grave. Os revoltosos ocuparam já as principais emissoras de rádio e a televisão e tomaram o Quartel-General da Região Militar de Lisboa. […] É indispensável que vossa excelência saia de casa com a maior urgência. Vá para o Quartel do Carmo, que a GNR está fixe”. A recomendação foi imediatamente acatada pelo ditador, que apenas se certificou da situação com Joaquim da Silva Cunha, seu ministro da Defesa.

05h30 Marcelo Caetano chegou ao Quartel do Carmo, sede da Guarda Nacional Republicana (GNR), na companhia de um ordenança e dirigindo seu próprio carro, depois de passar por diversas patrulhas militares sem ser reconhecido. Imaginou que eram tropas leais ao governo, quando na verdade eram homens do MFA. Foi recebido pelo comandante, general Adriano Pires, que estava à paisana.

09h35 Deu-se o momento mais crítico no cenário militar: a tentativa da tropa da Cavalaria 7, leal ao governo, de cercar o Terreiro do Paço chegando em duas colunas – uma pela rua do Arsenal e outra pela avenida Ribeira das Naus –, cada uma com um tanque M47. No comando, o general-brigadeiro Junqueira dos Reis.

As tropas revoltosas eram infinitamente mais modestas em armamentos e preparo militar, mas tinham como aliado o moral baixo dos defensores do governo. Tanto que, quando o general determinou que seus subordinados abrissem fogo contra Salgado Maia, foi desmoralizado com sucessivas recusas e deserções e terminou recuando.

Desde a madrugada o MFA vinha transmitido pelo rádio inúmeros apelos pedindo que as pessoas ficassem em suas casas. Entretanto, àquela altura, a multidão não parava de crescer nas ruas.

Junqueira dos Reis tentou voltar à ação depois, com uma coluna reorganizada. Ao que tudo indica, tencionava chegar ao largo do Carmo para reforçar a tropa da GNR e proteger o ditador. No largo de Camões o general e sua tropa foram cercados e aclamados pelo povo, que pensava tratar-se de tropas revoltosas. O oficial percebeu que era o fim da linha, pois não seria obedecido se mandasse disparar contra a multidão e provocaria mais deserções. Sua última atitude foi pedir “meios aéreos” ao Estado-Maior, provavelmente ciente de que também seria ignorado pelos superiores. E foi. Não restava mais nada do Estado Novo a não ser terminar de cair.

10h30 As tropas do MFA cercaram o Forte de Peniche, mas o comando não abriu os portões. Lá eram mantidos 36 presos políticos. Aos poucos, familiares, amigos e manifestantes começaram a ocupar o largo diante da fortificação para exigir a libertação dos encarcerados.

11h30 A cúpula do governo e chefes militares já estavam refugiados no Quartel do Carmo e no Regimento de Lanceiros 2, onde se encontrava o Posto de Comando do Regime.

11h45 O MFA anunciou em comunicado transmitido pela Rádio Clube Português que controlava a situação em todo o país. Logo em seguida teve início a marcha até o Quartel do Carmo. Na verdade, o cortejo foi uma verdadeira apoteose com tanques e soldados cercados por uma multidão civil em êxtase coletivo. Este é o momento em que o golpe se transforma em revolução, com o povo unificado aos militares revoltosos.

12h30 O largo do Carmo é cercado pelas tropas do capitão Salgueiro Maia, que pede a rendição de Marcelo Caetano e fica autorizado pelo comando a abrir fogo contra o quartel da GNR, onde estavam refugiados o ditador e seus ministros César Moreira Baptista, do Interior, e Rui Patrício, dos Negócios Estrangeiros. É um momento de grande tensão, inclusive pela presença da multidão – que podia sair do controle – ao redor das tropas.

Otelo Saraiva tentou, por telefone, a rendição do coronel Ângelo Ferrari, chefe do Estado-Maior da GNR, que recusou a proposta e ainda negou a presença de Marcelo Caetano no quartel.

15h10 Salgueiro Maia usou um megafone para insistir na rendição de Marcelo Caetano e alertou que em 15 minutos abriria fogo contra o quartel. Esperou um pouco mais

15h25 Salgueiro Maia deu ordem ao tenente Santos Silva para abrir fogo sobre a parte superior da frente do quartel. As metralhadoras do blindado dispararam várias rajadas, que partiram vidros e marcaram a fachada. Também arrebentaram as fechaduras do portão. Os tiros geraram pânico dentro do edifício e grande aflição nas famílias dos militares que viviam na parte residencial das instalações.

A tarde avançava. Instalado no Grêmio Literário de Lisboa, de onde acompanhava o cerco ao regime e a gravidade da situação, o secretário da Informação e Turismo Pedro Mourão Silva Pinto orientou seu subordinado Pedro Feytor Pinto a tentar convencer Marcelo Caetano a negociar com o general António de Spínola a solução da crise, o que foi aceito de imediato pelo ditador. Depois de uma complexa troca de mensagens, Caetano telefonou para Spínola e apresentou sua rendição, para que o poder não “caísse na rua”.

O comando do MFA escutava tudo com seu sistema clandestino de comunicações e, em nome dos capitães, Otelo Saraiva autorizou Spínola, como mandatário, a receber o poder, e o oficial-general se pôs a caminho do Carmo.

17h00 Sitiado desde o amanhecer e sem qualquer chance de reação, Marcelo Caetano recebeu o capitão Salgueiro Maia dentro do quartel para um encontro breve. Ao perceber uma conversa reservada entre o visitante e o general Adriano Pires, entendeu que estava sendo abandonado pela GNR. Quando o capitão anunciou que ou ele se entregava ou “arrasava o quartel a tiros de canhão”, o ditador, apavorado com a ideia de se render ao MFA e ser jogado à população, usou o fiapo de autoridade que restava do cargo e respondeu “não arrasa coisa nenhuma”, e exigiu conduzir as negociações. Informou que já telefonara ao general Spínola para que se apresentasse no quartel e dentro de meia hora lhe entregaria o poder. Por fim, determinou ao capitão que se retirasse, fosse acalmar a população e aguardasse. Respeitando a hierarquia, Salgueiro fez continência e obedeceu.

17h45 Spínola chegou ao largo do Carmo festejado pela multidão e seu carro foi cercado. O general relatou depois que encontrou o ditador acomodado em um sofá “numa atitude serena e digna”, enquanto os ministros César Baptista e Rui Patrício pareciam “desmoralizados”. Antes de qualquer cumprimento, Spínola afirmou em tom de desabafo: “A que estado estes gajos (o MFA) deixaram chegar isto”. Estava se referindo à multidão nas ruas de Lisboa, deixando no ar uma ambígua aparência de neutralidade em relação ao golpe.

Em poucos minutos estava consumada a rendição e foi hasteada uma bandeira branca no quartel. Salgueiro Maia informou a Marcelo Caetano e seus dois agora ex-ministros que eles seriam retirados dali em segurança e seguiriam para o Quartel da Pontinha como medida de proteção.

18h30 O Chaimite V200 “Bula” deixou o quartel pela porta de armas levando os três prisioneiros, que ouviram o coro “assassinos, assassinos”. Para livrá-los da fúria popular, os soldados fizeram um cordão de isolamento humano ao redor do blindado até que ele saísse do alcance da multidão no trajeto para o Posto de Comando do MFA.

19h30 O cerco ao largo do Carmo foi levantado e as tropas consumiram enorme tempo até o recolhimento, em razão da festa popular pela queda da ditadura.

20h00 A PIDE/DGS continuava resistindo e seu quartel (número 22 da rua António Maria Cardoso) foi cercado pela população. Embora o movimento tivesse caráter pacífico e as pessoas estivessem apenas protestando, os agentes aquartelados da polícia política atiraram várias vezes de dentro do prédio contra o grupo de cerca de cem pessoas desarmadas. A ação deixou cinco mortos e 45 feridos, todos civis.

20h05 O MFA divulgou pela Rádio Clube Português um comunicado afirmando “O Movimento das Forças Armadas […] proclama à Nação a sua intenção de levar a cabo, até à sua completa realização, um programa de salvação do país e da restituição ao povo português das liberdades cívicas de que vem sendo privado”.

26 de abril (sexta-feira)

01h30 Comunicado do general António de Spínola colocou em funcionamento a Junta de Salvação Nacional, prevista no programa do MFA para governar o país até a formação de um governo civil. Composta por sete militares da ativa, foi presidida por Spínola.

07h40 Marcelo Caetano, o ex-presidente Américo Tomás e outros membros do governo deposto partem do aeroporto da Portela para Funchal, na ilha da Madeira. O ex-ministro Rui Patrício pediu – e foi atendido – para permanecer em Portugal e rumou cinco meses depois para Paris. Deixou a capital francesa em algumas semanas a caminho do Brasil, onde permaneceu 50 anos e fez brilhante carreira empresarial.

08h30 A prisão política do Forte de Caxias foi tomada por militares do MFA. Lá eram mantidos 78 presos políticos. Por volta das dez da manhã as celas foram abertas, mas os prisioneiros permaneceram dentro do presídio.

Pouco antes da hora do almoço, advogados de defesa de presos políticos e personalidades da Comissão Nacional para a Libertação de Presos Políticos foram autorizados a entrar no forte para acompanhar a libertação.

09h30 A PIDE/DGS, último foco de resistência da ditadura salazarista, finalmente se rendeu depois de uma conversa telefônica entre o general Spínola, empossado como presidente da Junta de Salvação Nacional, e o major Silva Pires, que comandava a polícia política.

23h15 Depois de um dia inteiro de negociações, o tenente-coronel Dias Lima e o tenente David Geraldes chegam a Caxias para comunicar a decisão da Junta para libertar imediatamente todos os presos políticos, sem distinção.

Estava enfim superada a tentativa de manter encarcerados diversos deles também acusados de crimes comuns. Essa ideia partiu do general Spíndola e reforçou sua posição dúbia em relação ao 25 de Abril – ele chegou ao cúmulo de, mesmo tento negociado a rendição da polícia política horas antes, tentar nomear um agente dos seus quadros para decidir quem seria solto. “Tanto quanto sei o general Spínola havia chamado um velho amigo e inspetor da PIDE, Coelho Dias – que aliás foi sempre protegido por ordens suas – ao qual terá sido entregue a lista nominativa dos presos, pedindo-lhe que assinalasse os que considerava de delito comum. Este terá sinalizado a esmagadora maioria dos nomes constantes da lista”, revelou Geraldes.

Spínola foi obrigado a recuar porque havia uma ameaça de quebra de segurança, já que a população reunida diante do Forte de Caxias, cansada com a demora de dia inteiro, ameaçava invadir a prisão e libertar os presos. Sem contar as personalidades autorizadas a entrar na prisão mais cedo e que se mantinham irredutíveis quanto a qualquer privação de liberdade àquela altura. “De forma contrariada”, terminou autorizando a libertação total.

Na verdade, surtiu efeito a pressão dos encarcerados – “ou saímos todos ou não sai nenhum” –, diversos advogados de defesa de presos políticos, personalidades da Comissão Nacional para a Libertação de Presos Políticos e manifestantes cada vez mais numerosos em frente a Caxias e Peniche, as duas principais prisões políticas da PIDE/DGS.

A alegria do tenente Geraldes tinha um fator pessoal: saíram da prisão três ex-colegas da sua turma do Instituto Superior de Agronomia, a quem ele abraçou efusivamente diante das câmeras.

27 de abril (sábado)

00h23 O primeiro preso político libertado pela revolução deixou o Forte Peniche: Dinis Miranda, figura histórica do Partido Comunista Português (PCP). O último dos encarcerados no local passou pelos portões às três da madrugada. No largo diante da fortificação estava concentrada uma pequena multidão de familiares, amigos e manifestantes em clima de grande comemoração.

00h30 Os presos políticos do Forte de Caxias começaram a ser libertados e em meia hora todos estavam livres. Diante do local, o quadro era similar ao de Peniche: familiares, amigos e manifestantes festejavam os novos ares de liberdade e democracia.

O destino deixou sua escrita. Caxias foi transformado em unidade militar e as celas vazias começaram a ser ocupadas pelos ex-agentes da PIDE, inclusive o seu ex-diretor geral, major Silva Pais. A diferença é que esses criminosos não mereceram o tratamento desumano que deram aos presos políticos.

O retorno dos exilados (a partir de 28 de abril) e a libertação dos demais presos políticos em Porto, Coimbra e ex-colônias na África (cerca de quatro mil, que foram sendo libertados nos meses seguintes) compôs um dos momentos mais emocionantes da Revolução dos Cravos. Abrir as portas das prisões políticas foi uma ruptura definitiva com o passado de perseguições, interrogatórios, torturas e mortes que alcançaram mais de 30 mil cidadãos que ousaram se opor ao regime.

O erro do Carmo Nunca ficou muito claro o motivo da escolha do Quartel do Carmo como refúgio para Marcelo Caetano. Na conversa telefônica, o major Silva Pais teria alegado que na ocasião do Levantamento das Caldas – tentativa frustrada de golpe ocorrida em 16 de março – o ditador havia se refugiado na sede do Comando Aéreo, em Monsanto. Agora seria de bom tom escolher outro local para despistar os rebeldes. Também acrescentou que ainda não apurara o posicionamento da Força Aérea na rebelião em curso.

O ditador não parece ter estranhado tamanho amadorismo do homem encarregado da inteligência do governo, aceitando aquela alternativa apresentada sem qualquer planejamento. O mais estranho nessa escolha é que o Quartel do Carmo abrigava apenas uma companhia de comando e serviços, vários setores administrativos e servia de residência para muitas famílias de militares designados para a GNR.

Essa presença de familiares era um fator de hesitação para qualquer ação de enfrentamento ou resistência. Tudo que os militares e suas famílias desejavam era ver aquele homem longe dali, principalmente depois das rajadas de metralhadora disparadas pelo blindado de Salgueiro Maia, que causaram pânico em mulheres e crianças dentro do prédio. A ponto de o general comandante Adriano Pires acusar o ditador de colocar em risco a população da unidade.

Na verdade, o serviço de inteligência parece ter condenado o ditador a um perigoso – ou terá sido premeditado? – isolamento. “Nós sabíamos que o Golpe Militar iria acontecer, não sabíamos era quando”, reconheceu o ex-diretor da PIDE já encarcerado em Caxias.

No Carmo, Marcelo Caetano terminou recolhido a um ambiente militar despreparado para qualquer resistência, onde também não dispunha de apoio do governo, do comando militar e da polícia política. Sem contar que todas as comunicações estavam vigiadas clandestinamente pelo MFA, algo dificilmente ignorado pelo aparelho de repressão. Ou seja, virou alvo fácil e o cenário da rendição estava pronto.

Foi de lá que o ditador assistiu o MFA tomar conta de Lisboa e a população lotar as ruas. Foi de lá que deve ter tomado consciência da situação, quando tentou buscar apoio em vão e sequer localizou o presidente da República Américo Tomás. Em desespero, determinou a duas outras unidades da GNR – Camões e Pedro V – que cercassem e massacrassem entre dois fogos a multidão já presente no largo do Carmo.

O rádio mostrou sua completa desmoralização ao transmitir ao vivo a decisão dos comandantes da GNR de desobedecer a ordem criminosa. Consta que num momento mais agudo um major do MFA chegou a suspeitar que poderia haver “uma tragédia”, algo como o ditador resolver sair de cena com “um tiro na cabeça” para não ser “apanhado vivo” pela multidão.

Tempos depois, já no exílio, Marcelo Caetano insistia que não houve “tempo para pensar e discutir” a escolha do Quartel do Carmo, e que não tinha sido um refúgio, mas um local seguro para acompanhar e comandar a resistência. Pior, sentia orgulho da matança que planejou executar no largo do Carmo e continuava indignado com a insubordinação da GNR – não dever ter alcançado que poderia ser levado à condenação internacional.

Pelo visto, as 13 horas que viveu refugiado no largo do Carmo, naquele 25 de abril de 1974, foram transformadas por ele num trecho ficcional da sua biografia.

Triste memória A Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) foi fundada em 1945 e, em razão da reputação ultrajante adquirida ao longo do tempo, teve o nome trocado para Direção-Geral de Segurança (DGS). A mudança ocorreu em 1969, determinada pelo ditador de plantão Marcelo Caetano, mas as funções permaneceram as mesmas: perseguir, prender, interrogar, torturar e até matar qualquer pessoa vista como inimiga do regime, além de censurar a arte, a intelectualidade e a imprensa.

Sem negar a vocação para repressão e violência, foi a única responsável por gerar mortos e feridos durante o 25 de Abril. Depois da rendição terminou dissolvida.

Uma cena se tornou inesquecível, fotografada e gravada em vídeo: um agente rendido, mãos atrás da cabeça, vestido em camisa, pulôver, paletó e gravata, com as calças arriadas e cueca à mostra. Nem o bigode espesso foi capaz de diminuir a humilhação do miserável.

*Todos os militares foram citados com as patentes que detinham nos momentos em que os fatos ocorreram. Alguns passaram à reserva com patentes superiores.

Leia também

Cravos da Revolução 1   https://giramundo.blog.br/cravos-da-revolucao-1/

Cravos da Revolução 2   https://giramundo.blog.br/cravos-da-revolucao-2/

Ouça aqui

E Depois do Adeus   https://www.youtube.com/watch?v=jthlDhHpblo

Grândola, Vila Morena   https://www.youtube.com/watch?v=gaLWqy4e7ls&t=50s

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