Divulgação/Prime Video
Dores do mundo
- Heraldo Palmeira
GIRAMUNDO VIU Uma Questão de Família (2023) é um filme surpreendente. Classificado como comédia-drama, tem direção de Evan Oppenheimer, que também assina o roteiro, e está disponível no Prime Video.
O filme mostra os Meyersons, uma típica família judia de Nova York, vivendo seus dramas e ternuras. Até que uma surpreendente descoberta científica revelada pelos celulares termina influenciando todos os membros, cada um a seu modo.
A fotografia se vale da beleza da cidade – que habita o inconsciente coletivo mundial pelo seu gigantismo e complexidades – como de pano de fundo para as questões existenciais que vão surgindo. A imagem das folhas caindo no outono nova-iorquino, bem como o refinadíssimo humor judeu, são bons trunfos para minimizar o impacto das revelações que atormentam os ótimos personagens da trama. Questões que podem ser de qualquer um – abandono, sexualidade, aborto, dilemas religiosos, ética, minorias, egoísmo, pertencimento, falsas expectativas, desencanto, inércia…
O filme vai tratando, ora com sutileza ora com dedo em riste, inseguranças, desavenças e dores que consomem a natureza humana desde que o mundo é mundo e permanecem atualíssimas. E tudo ganha uma perspectiva ainda mais interessante no liquidificador psicológico de uma cidade complexa como Nova York, inclusive porque lança mão de um dos seus ícones sociais: uma família judia.
Uma Questão de Família tem dois personagens que saltam aos olhos:
Morty Meyerson (Richard Kind), o pai da família cujo drama é não conseguir encapsular o tempo para permanecer vivenciando os momentos felizes, termina provocando um efeito devastador no equilíbrio familiar e na própria vida.
A matriarca Celeste (Barbara Barrie), uma velhinha do babado que não tem meias-palavras e não altera a voz para dar choques de realidade em quem estiver pela frente – não bota filtro nas coisas, não diminui o tamanho dos problemas, não disfarça a realidade. Sua longa conversa no parque com a filha Terri Meyerson (Kate Mulgrew), a mãe da família, é impagável.
A grande sacada é tratar desencontros das pessoas comuns e suas sequelas de vida inteira como cicatrizes que podem esmaecer com o passar do tempo, permitindo seguir em frente. Fica nítido que nada foi esquecido. Muito menos renovado, porque houve um propósito de todos na superação das velhas feridas.
Veja o trailer neste link https://www.youtube.com/watch?v=yXRsttzsKUE