Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

Eita porra!

Divulgação/Malu Freire

Eita porra!

  • Heraldo Palmeira

GIRAMUNDO VIU E OUVIU Eita (2025) está disponível nas plataformas digitais, onde agora ocorre a maioria dos partos do mundo da música. Inconfundível pelas sonoridades, o novo “filho” de Lenine é um álbum com 11 faixas inéditas dedicado a Dominguinhos, Hermeto Pascoal, Letieres Leite e Naná Vasconcelos, batutas do Nordeste que desfilaram a vida toda no bloco de elite da música brasileira e influenciaram diretamente o trovador pernambucano.

O novo trabalho marca a volta de Lenine aos estúdios depois de dez anos de uma ausência lamentada. Com uma carreira sólida e imprescindível para o repertório criativo brasileiro, a alma do artista que vivia produzindo encantos sucumbiu aos desencantos humanos destes tempos tão esquisitos, passou por seus infernos astrais, quis abandonar a mãe Música e não teve sucesso – ele mesmo reconhece que esse divórcio era impossível. Que bom que resolveu renovar os votos e voltar para casa. E volta ainda mais maduro, precioso como de costume, os cabelos soltos de sempre agora namorando o grisalho do passar do tempo.

Eita é fruto desse movimento de retorno e reencontro. Toca a alma como um belo riacho escondido no interior do mato. Cristalino, delicado, água para beber ou se banhar sem risco, que vai descendo sem pressa em seu labirinto talhado no fulcro da terra. A velha mistura pop tão original e inconfundível, recheada de batuques de maracatu, baião e sons da música sem fronteiras. Tudo catalisado pela cultura nordestina que ele representa com tanta propriedade. Sons que não envelhecem e soam revigorados pela poderosa criação de Lenine.

Eita merece uma acolhida popular de boa surpresa: “Eita porra, bem-vindo de volta!”. Para mim, soa como um reencontro pessoal de valor perene. Eu, amante de música e ainda pouco mais que menino, recém-chegado ao Rio de Janeiro naquele início da década 1980, instalei meu reino de vida espartana no bochicho inesquecível de Copacabana – entre Princesa Isabel e Santa Clara. Deslumbrado com a Rádio Nacional FM, deleitava meus ouvidos treinados quando tocava uma certa Baque da Era (Fuba-Lenine-Zé Rocha), peça cativa da programação.

Era um tal Lenine, menino de Pernambuco que soava exótico com uma apaixonante música fora do famigerado “padrão de mercado”. Como se não bastasse, tocando junto na gravação um timaço de músicos comandado por Lincoln Olivetti e Robson Jorge, que vinham revolucionando a linguagem musical da época com arranjos baseados na fusão de instrumentos tradicionais com sintetizadores e muito suingue. Aquele encontro no estúdio foi o que, no popular, se chama mão na roda.

O mesmo Lenine que chega a este Eita com toda a pompa e circunstância permitida a um grande artista, e isso se mostra na qualidade do conteúdo, no capricho da produção e nas participações especiais de Maria Bethânia, Maria Gadú, Siba e Gabriel Ventura. E como não podia ser menor, Eita se divide multiplicado em álbum de música e filme de música, no melhor estilo tudo ao mesmo tempo agora.

O álbum tem produção de Bruno Giorgi. O filme tem direção de Lenine, Kabé Pinheiro e Laís Branco, roteiro de George Moura e João Müller Moura, e nos leva por paisagens urbanas do Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, trilhando caminhos e encontros onde estão as pegadas do artista.

Parece que Lenine passou pelo baque da própria era e está de volta revigorado. É uma boa notícia, um sopro de beleza na feiura reinante no ambiente musical brasileiro. Pudera, ele é sabor refinado de um caldeirão de cirandas, frevos, maracatus e muitos outros temperos essenciais. O baque, o batuque virado que nunca sai de moda.

Veja Eita (filme completo) neste link   https://www.youtube.com/watch?v=vzS7f3VOxyE

Ouça Baque da Era neste link   https://www.youtube.com/watch?v=IJNC2RVY9r0

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