Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

KALUNGA MELLO NEVES Elementos cênicos

Tim Kawasaki – montagem (Felix Wolf/Pixabay + Realworkhard/Ralf Kunze/Pixabay)

Elementos cênicos

  • Kalunga Mello Neves

Nos velhos e bons tempos das matinês, quando ainda tínhamos cinemas de rua em nossas cidades, as tardes dos domingos eram esperadas com nervosa ansiedade juvenil. Não podíamos faltar, pois certamente iríamos encontrar por lá nossa paquera, piscar o olho pra ela, fazer um sinal labial para que nos guardasse um lugar, e assim que a luz apagasse, estaríamos juntinhos para curtir a película. Tempos de descobertas, passando pelo uísque e os cigarros que o cinema tornava charmosos.

Geralmente, os filmes eram de bangue-bangue. Tarzan também, de vez em quando. Filmes do Joselito eram raros, mas “passavam”, como a gente dizia. Todos de acordo e compatíveis com nossa faixa etária. Sem contar o encontro com os amigos colecionadores de gibi, a troca daquelas “preciosidades” no saguão do cinema, a certeza de uma boa leitura pra toda a semana… Até chegar o próximo domingo. Se sobrasse algum trocado, uma pipoquinha cairia muito bem.

Diversos pontos me chamavam a atenção naqueles velhos filmes. Mais interessante, há alguma coisa similar com o que hoje em dia continua despertando minha curiosidade em filmes e séries. Elementos que sobrevivem ao tempo e fazem parte da magia do cinema, muitas vezes parecendo coadjuvantes das cenas.

Todos os protagonistas daqueles filmes antigos, alguns mocinhos e todos os bandidos, chegavam no saloon, pediam uísque e acendiam um cigarro, charuto às vezes. Era tudo uma fumaceira só. Na sequência vinham os tiros e as brigas, geralmente ganhas por nossos heróis Roy Rogers, Paladino, Zorro, Ringo, Django e tantos outros. Dá para imaginar se alguma lei proibisse bebida alcoólica e cigarro em filmes de faroeste? Não só neles, mas nos românticos e de aventura também? Adeus bom pedaço da Sétima Arte!

As mulheres, lindas e charmosas, usavam piteiras banhadas a ouro. Os gângsteres, por sua vez, charutos e cachimbos rebuscados. E naquele ambiente de mistério e sedução se desenvolvia a história. Nas décadas de 1950 a 1980 era esse o clima mostrado nas telonas.

De repente, mais rápido do que fuga de trovão assustado, surge o celular, o novo herói da dramaturgia mundial. Não tem filme, série ou documentário que, em qualquer cena, ele não se intrometa. Parece que em todo roteiro ele está inserido a contracenar com protagonistas e figurantes. Algo tão interativo que a própria plateia já não consegue se manter distante de seu aparelho, sem qualquer pudor de incomodar quem estiver ao redor. E, incrível, nunca acaba a bateria de celular “artista”. Pega em qualquer lugar, outra vantagem que celulares proletários não têm.

Vocês já imaginaram se, como já ocorre em diversas escolas ao redor do mundo, o celular fosse proibido durante as filmagens? Adeus tia Chica, como se dizia em outros tempos. A Sétima Arte (ela de novo), criadora de tendências, jamais se afasta do que ela mesma ajudou tornar hábito. Por isso, bebida, tabaco e celular seguirão nos roteiros fantasiados de expressão da arte. Até porque estão de tal forma no cotidiano que viraram itens da cenografia da vida

*KALUNGA MELLO NEVES, escritor e brincante

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