Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

Estrada infinita

Divulgação/Disney +

Estrada infinita

  • Heraldo Palmeira

GIRAMUNDO VIU Diário de Estrada: Bruce Springsteen & The E Street Band (2024) é um documentário cativante do premiado diretor Thom Zimny. Focado na turnê mundial 2023-2024 do cantor e compositor norte-americano Bruce Springsteen – um dos produtores do filme – e sua já lendária E Street Band, está disponível no Disney +. Uma excelente oportunidade para quem não conhece de perto o trabalho de um dos maiores nomes do rock’n’roll de todos os tempos.

O filme é a imersão mais profunda já realizada no ambiente criativo do artista, revelando o processo de preparação daquelas performances memoráveis que ele apresenta no palco junto com seus músicos. São momentos especiais de bastidores e de palco, desde os primeiros ensaios da turnê até a explosão de multidões em estádios espalhados pelo mundo. Vão surgindo diante das câmeras depoimentos comoventes de todos os membros do grupo sobre o significado de compor aquela família que está na estrada há mais de 50 anos. Além deles, fãs de diversos países também falam da experiência de se sentirem parte de um mundo bom que gira ao redor de Bruce Springsteen. Tudo isso é enriquecido com imagens raras do cantor e sua banda.

O documentário termina funcionando como um tremendo painel para compreensão do artista, seu método de trabalho e a própria relação com a vida pessoal e profissional. Estamos falando de um senhor que desde o final dos anos 1960 é conhecido no meio da música como The Boss (O Chefe). O mesmo cara que aos 16 anos, ainda nos tempos em que participava da banda The Castiles, sonhava em tocar para uma multidão animada. E, desde então, tocar ao vivo “tem sido algo muito profundo, e é como eu justifico minha existência na Terra. E eu devo muito disso à banda”, ele afirma.

Bruce é uma lenda da música forjada em coerência pessoal e musical que lhe garantiram 20 Grammy e um Oscar de Melhor Canção Original por Streets of Philadelphia para o filme Filadélfia (1993). Também está eternizado no Hall da Fama dos Compositores e no Hall da Fama do Rock and Roll. Ele é um daqueles sujeitos que a gente gostaria de ter como amigo. Alguém que personifica a palavra “visceral” como elemento natural da própria persona.

Se nos EUA a energia a energia do público nos shows é superlativa, na Europa a coisa é ainda mais surpreendente. O documentário ajuda a entender que se formou uma verdadeira legião global ao redor de um artista emblemático cuja forma de ser e viver está moldada por um valor humano que nenhum marketing de carreira consegue manipular: a autenticidade. É ela que garante o direito de não fazer concessões.

Outro ponto importante do filme é mostrar alguém que marcou a própria jornada pelo amor aos amigos, que até hoje mantém velhas relações e sempre reverencia os que partiram – o tecladista Danny Federici (esteve na banda de 1972 a 2008) e o saxofonista Clarence Clemons (esteve na banda de 1972 a 2011), ambos fundadores e fundamentais na definição do perfil sonoro da The E Street Band, que morreram de causas naturais. “Para uma banda que se mantém unida com a mesma formação durante 40 anos, não tem como superar o trauma nem como apagar a história. […] Não vamos esquecer de quem tocou conosco durante anos. Eles continuam sendo parte fundamental das nossas vidas para sempre. Que Deus os abençoe”, afirma Springsteen expondo a extensão da dor dessas perdas. E em homenagem aos dois músicos o show tem um momento indescritível durante a música Nightshift.

Você encontrou outra casa

Eu sei que você não está sozinho

No turno da noite

Vou sentir falta da sua voz doce

Aquele barulho comovente

No turno da noite

Todos nós nos lembramos de você

Sua música está chegando

Vai ser uma longa noite

Vai ficar tudo bem

No turno da noite

Bruce Springsteen moldou sua carreira observando Sam & Dave, James Brown e Jackie Wilson, que considera até hoje seus mentores musicais e espirituais. “Eles me guiam até o palco e moldam o nosso show durante anos. Eles ainda me inspiram como vocalista”, afirma do alto de sua posição de quem não precisa provar mais nada a ninguém.

Não é possível lhe negar a suma importância para manter o rock’n’roll no velho trilho quando tudo parecia prestes a sair da rota no início dos anos 1970. O guitarrista Stevie van Zant, o Little Steve, foi convidado pelo amigo para colocar a guitarra em destaque e assumiu a direção musical da banda. Falando com orgulho a respeito dessa trajetória, o músico é taxativo: “Foi um passo enorme, nem sei como explicar a importância disso. Um cara que cresceu comigo e era o mais introvertido que poderia existir, se tornou um dos maiores artistas do mundo”. O empresário Jon Landau ajuda na compreensão do sucesso: “Isso não foi por acaso. O Bruce adora viver cercado por uma família de músicos e outros artistas nos quais ele pode confiar”.

Bruce Springsteen construiu algo raro no ambiente do show business: uma relação íntima e intensa com seu público, como comprovam inúmeros fãs de diversos países falando do que o artista representa em suas vidas. Como nunca foi dado a estrelismos, sempre anda próximo da realidade das pessoas, fala a mesma língua inclusive nas questões existenciais.

Desde que o guitarrista George Theiss morreu, The Boss é o único sobrevivente da sua primeira banda, a The Castiles, e de repente se deparou de forma direta com a questão da mortalidade. E sobre isso ele fez uma poderosa reflexão em pleno palco: “Isso é tipo estar em cima dos trilhos vendo a luz do trem se aproximando na sua direção. Isso faz a gente refletir de um jeito que nunca tinha feito, porque o maior presente que a morte dá para o vivo é a possibilidade de refletir sobre a vida. Quando George morreu compus uma canção sobre as paixões que temos quando crianças sem saber para onde vão nos levar e como, aos 15 anos, só importa o amanhã e as chegadas, e, depois, o que importa é o ontem e as despedidas”. E toca Last Man Standing sozinho ao violão, falando abertamente de amizades e do fim dos dias.

Aos 76 anos, é o tipo de sujeito indispensável que sabe exatamente quem é, o que fez e o que resta. Que é capaz de criar um momento “sacanear a banda” quando pega cartazes da plateia pedindo música e escolhe alguma para ser tocada em completo improviso – com resultados sempre maravilhosos, diga-se! Que também é capaz de, diante de um estádio em êxtase, dispensar a banda (de 17 componentes) e ficar sozinho no palco para encerrar o espetáculo com voz e violão.

Diário de Estrada: Bruce Springsteen & The E Street Band mostra que o repertório da turnê serviu para contar uma história que abrange “vida, morte e tudo entre os dois”, mas também é uma grande celebração da música. O fato de sua ficha técnica se estender por 6m46 demonstra o tamanho de um artista que pode se dar ao luxo de contar na equipe com o gênio da engenharia de som Bob Clearmountain – o sujeito que praticamente inventou a mixagem como profissão independente.

O filme é uma espécie de convite para aproveitar o tempo que resta de Bruce Springsteen, um dos grandes artistas contemporâneos. Inclusive para conquistar quem não conhece bem sua obra e o que ele significa.

O diretor Thom Zimny nos coloca diante de um dos últimos remanescentes do verdadeiro espírito americano. “Tocar depois de ficar mais velho não é fácil. Eu pretendo tocar ‘até caírem as rodas’ e até quando a banda quiser me seguir. Eu só sei de uma coisa: depois de 50 anos na estrada, já está tarde demais para parar”. Vida longa a The Boss.

Veja o trailer neste link   https://www.youtube.com/watch?v=nc72FqF6Fqc

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