Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

Futuro à moda antiga

Suixin390/Pixabay

Futuro à moda antiga

  • Heraldo Palmeira

Não é mais novidade que a IA avança em todos os setores, e o ano de 2025 foi uma comprovação da expansão da tecnologia inclusive no ambiente dos usuários comuns. Em razão da sua enorme capacidade produtiva vai assumindo, com desempenho incomparável, um número cada vez mais impressionante de tarefas humanas.

Nesse cenário, causou surpresa a decisão do programador norueguês Christian Ekrem em voltar a utilizar o modo texto para escrever seus códigos de programação. Ele deixa claro que não é contra a IA, mas defende o que chama de “colaboração intencional”.

Na verdade, a postura de Ekrem destaca a encruzilhada em que o setor de desenvolvimento de softwares se encontra com a chegada de uma tecnologia tão revolucionária, que realiza, em questão de segundos, tarefas repetitivas, entediantes e que consomem muito tempo.

Se diversas ferramentas de programação de IA generativa oferecem condições inéditas para produzir códigos ou aplicações completas – sem mexer nos códigos, apenas conversando com a ferramenta e verificando a saída –, um número crescente de engenheiros de programação começa a considerar a IA algo a ser limitado em favor da retomada da verdadeira arte da programação, utilizando a escrita tradicional de códigos.

Ekrem vem adotando uma postura clara: a IA dever ser utilizada para automatizar as partes “burocráticas” da programação, e ele não inclui escrever códigos nesse grupo de tarefas. “Escrever código não é chato, é o meu trabalho”, afirma.

A lógica da sua linha de pensamento não traduz rejeição à utilização da IA, inclusive porque é usuário dela. Ele teme apenas que o uso automático das facilidades oferecidas pela tecnologia, realizando todo o trabalho a partir de um prompt, gere uma acomodação natural do programador a ponto de inibir sua própria capacidade cognitiva, parte fundamental do aprendizado e do acúmulo de conhecimento pessoal que permitirão soluções criativas com assinaturas pessoais.

Sob essa perspectiva Ekrem considera que a IA termina atrapalhando o processo de programação, mesmo oferecendo soluções imediatas, pois acredita que é preciso praticar sempre, que o esforço cognitivo tem grande valor para encontrar soluções a cada dificuldade. “Há algo insubstituível no processo de lidar com um problema difícil. Aquele momento em que você está completamente travado e range os dentes de frustração; você se afasta do computador e dá uma volta; você reza/chora por dentro; você volta e tenta uma abordagem diferente; e repete o processo até que, de repente, faz sentido. Aquele ‘Ahá!’ É hora de reprogramar seu cérebro. […] O equivalente em codificação da memória muscular, e é assim que crescemos como programadores. Quando terceirizamos essa luta para a IA, nos privamos dessas oportunidades de crescimento. Obtemos soluções sem entender.”

Vem daí sua percepção a respeito da “colaboração intencional” ao utilizar a IA de forma consciente, como ferramenta acessória e não por padrão, aplicada em tarefas automatizadas – gerar códigos que se repetem, depurar mensagens de erro, gerar testes, resumir a documentação etc.

Por isso, prefere não automatizar partes com design de sistema, arquitetura ou decisões complexas. Ele considera que no ambiente de programação é recomendável fugir da ideia de “resolver cada erro em segundos”. Melhor é tentar diversas vezes até compreender o código que está lendo, uma forma segura de evitar que o programador se transforme num simples operador de ferramentas.

Para escapar da dependência da IA no trabalho de programação Ekrem voltou a criar suas codificações no Vim – editor de texto histórico e sem interface gráfica. E até criou um roteiro que passa por medidas simples para evitar a tentação:

Dominar os fundamentos – algoritmos, estruturas de dados e padrões de design. Programar manualmente no cotidiano para resolver problemas do zero. Aceitar a estagnação, dando espaço à frustração para que a compreensão possa florescer. Definir limites claros para a IA e usar a ferramenta apenas para tarefas auxiliares. Entender completamente o que você está usando, evitando copiar e colar, estudando e refatorando.

Na verdade, esse movimento de retirar protagonismo de tecnologias e devolvê-las ao verdadeiro papel de simples ferramentas auxiliares da inteligência humana começa a ganhar corpo em diversos lugares, a partir dos sinais preocupantes que atravessam o cotidiano da humanidade desde o ambiente da formação escolar até a saúde mental. Na verdade, surge como uma saudável demonstração de que os excessos sempre provocam cansaço. Tomara seja caminho para a sociedade restabelecer o próprio equilíbrio resgatando valores importantes.

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