Por Heraldo Palmeira
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5 de junho de 2026

Hora certa

Henry 911/Henry Fokuhl/Pixabay

Hora certa

  • Heraldo Palmeira

Nos últimos anos, os ponteiros do tempo vêm marcando uma impressionante transformação dos relógios de luxo usados em ativo do mercado de capitais secundário. O segmento já se tornou maduro, com direito a índices e gráficos exclusivos.

Bloomberg Subdial Watch Index, Chrono24, WatchCharts, Morgan Stanley e Índice Abrangente de Avaliação de Luxo para Revenda são algumas das muitas fontes de parâmetros globais à disposição dos investidores. Elas avaliam o mercado e oferecem dados de valor de revenda a partir do mercado primário e secundário, além de demanda, preços e tendências.

A consultoria estratégica norte-americana McKinsey & Company avalia que relógios de luxo ganharam força como investimento. No seu relatório anual The State of Fashion 2026: When the Rules Change, criado em parceria com a The Business of Fashion, consta uma previsão animadora: boa parte das vendas tem impulso do mercado de segunda mão, que deverá crescer “até três vezes mais rápido que o mercado de primeira mão até 2027”. Boa parte do estímulo para esse cenário vem do aumento de tarifas comerciais estabelecido pelo governo dos EUA e das flutuações no mercado do ouro.

Não há dúvida de que a alta relojoaria passou a fazer parte das estratégias financeiras e, segundo a mesma análise, joias e bolsas de grife começam a ganhar espaço no ambiente de investimentos. Esse tipo de ativo é uma reserva de valor que passou a ser visto como forma segura de proteger patrimônio. Na última década valorizou mais do que o mercado de ações e tem havido crescimento anual da liquidez. Apesar desse quadro positivo, especialistas mais conservadores lembram que ela não é imediata como a dos ativos tradicionais de renda variável, e ainda consideram a alta relojoaria como item de coleção ou hobby.

Essa ascensão dos relógios mecânicos de luxo ao novo patamar de destaque nos portfólios de investimentos vem acompanhada de conceitos sólidos de engenharia avançada, precisão mecânica, requintes de joalheria e símbolo social. Com a pandemia, o ritmo da economia diminuiu e os bolsos mais abastados acumularam recursos para novas frentes de investimento. De repente, os relógios de primeira linha e seu conjunto de significados viraram assunto nas redes sociais, atraindo o interesse de investidores, colecionadores e celebridades. Daí surgiu um novo mercado, cada vez mais robusto e exclusivo.

A Santíssima Trindade da alta relojoaria é formada por Vacheron Constantin, Patek Philippe e Audemars Piguet. Na sequência, Rolex, Omega, Jaeger-LeCoultre, Cartier e IWC. Há registros de modelos tão especiais e exclusivos que atingiram US$ 20 milhões (R$ 100,6 milhões).

Essas e outras marcas de primeira linha lideram o ranking exatamente pela tradição e qualidade que carregam, por estarem presentes na construção da história da relojoaria moderna, iniciada em Genebra, Suíça, com a abertura da Vacheron Constantin em 1755 — a mais antiga fabricante em operação contínua do mundo, marcada desde o início por inovação técnica e excelência.

Todas são tradicionais em reter valor, algumas com valorizações impressionantes. Além disso, existem os modelos mais desejados pelos apaixonados, que se mantêm no topo de qualquer lista de melhores índices de liquidez: Patek Philippe Nautilus, Audemars Piguet Royal Oak, Rolex Daytona, Omega Speedmaster Professional Moonwatch — começou no automobilismo, foi para a corrida espacial e esteve nos pulsos dos astronautas que chegaram à Lua na Apollo 11, em 1969 —, Cartier Tank e Cartier Santos.

Algumas mensagens dessas marcas se tornaram célebres e mostram pleno conhecimento das empresas em relação à própria representatividade. “Faça melhor, se possível”, da Vacheron. “Você nunca é realmente dono de um Patek Philippe. Você apenas cuida dele para a próxima geração”, da Patek. “Primeiro no espaço, primeiro na Lua, primeiro em tudo que conta”, da Omega.

Para ter sucesso nesse mercado investidor é preciso aplicar a lógica que comanda qualquer ambiente especulativo: comprar na baixa e vender na alta, no melhor espírito de investimento. É um tipo de negócio em que ter acessos exclusivos permite que o investidor obtenha indicadores das tendências e dos modelos que deverão se valorizar. Detalhes como autenticidade, raridade (às vezes provocada de forma intencional pelo fabricante), artesanato obsessivo, exclusividade, procedência — ainda mais se pertenceu a alguma celebridade —, baixa oferta ou descontinuidade da produção são pontos fundamentais das análises na hora do investimento.

É importante levar em conta que os relógios de alto luxo permanecem valorizados porque as marcas conseguem manter aumento de preços anuais entre 5% e 12%, que obviamente reflete no mercado de usados. Mas não é uma operação simples e, mesmo envolvendo paixão, não é indicada para leigos. “Investir em relógio é coisa para super profissional, é necessário ter acesso a fornecedores e mercados que a média das pessoas não tem”, adverte Renato Breia, analista de ações e colecionador. O desapego também é um fator importante para o sucesso nos negócios. “Dos meus cinco primeiros relógios, já não tenho quatro, inclusive o TAG Heuer que deu início à minha coleção. Só não vendo mesmo o meu primeiro Rolex”, revela Breia.

História no pulso Num período em que os relógios de bolso ou de algibeira eram utilizados principalmente pelos homens, surgiram os primeiros relógios de pulso da História, produzidos para braços nobres femininos.

Em 1814, o relojoeiro Abraham-Louis Breguet criou uma peça única para a rainha de Nápoles Carolina Murat, irmã de Napoleão Bonaparte.

Em 1868, a Patek Philippe produziu um relógio sob medida para a condessa Koscowicz de Genebra, uma nobre de origem húngara. Considerado oficialmente o primeiro relógio de pulso do mundo, era muito mais uma pulseira de riquíssima joalheria do que um instrumento de precisão, mas inseriu um novo elemento nas coleções de joias das senhoras da nobreza europeia e abriu outro mercado de alto valor para os grandes fabricantes.

Em 1904, um pedido direto de Santos Dumont ao amigo joalheiro Louis Cartier gerou o Cartier Santos, reconhecido como o “primeiro relógio de pulso masculino projetado para uma finalidade prática e um uso utilitário”, que passou a ser usado pelo inventor brasileiro em voos de balões e no histórico voo pioneiro do 14bis.

Início de tudo A divisão do dia em 24 partes ocorreu na Babilônia, em 5000 a.C. Ao observar o movimento da sombra solar ao longo do dia, os babilônios descobriram que havia um momento de sol a pino, sem qualquer sombra para os lados. Para esse momento estabeleceram o meio-dia, dentro de um sistema que uma haste projetava a sombra solar numa base dividida em 12 partes — 12 foi escolhido por ser divisor inteiro (que não deixa resto) de 60, número-base do sistema matemático babilônico. Estavam determinadas seis horas antes e depois do meio-dia, e criado o relógio de Sol.

Os babilônios, que inventaram o que seria o primeiro relógio, nunca conseguiriam imaginar o que veio depois. Muitos mecanismos foram criados no decorrer do tempo, até que a Revolução Industrial trouxe a necessidade de medir o tempo com mais precisão, em razão da jornada de trabalho dos operários. Assim, em 1830 o físico italiano Giuseppe Zamboni criou o primeiro relógio com pêndulo acionado eletricamente, alimentado por pilhas secas.

Esse evento se tornou um marco na relojoaria porque incrementou o ambiente para a fundação de grandes marcas, como ocorreu com a Baume & Mercier naquele mesmo ano. Na Genebra de 1842, um certo relojoeiro francês Jean Adrien Philippe revolucionou os relógios de bolso ao criar um sistema de coroa para ajustar e dar corda, eliminando a chave separada utilizada até ali.

Em 1845, Philippe se juntou à empresa do exilado polonês Antoni Patek e, finalmente em 1851, fundaram a Patek Philippe & Cie.

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