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Manias e outros bichos
- Heraldo Palmeira e Kalunga Mello Neves
A complexidade da vida nos coloca diante de um repertório de comportamentos repetitivos, sagacidades, esquisitices e patologias que vão se construindo a partir das experiências individuais. São manias, estratégias, superstições ou transtornos presentes no cotidiano de todo mundo. Não, ninguém escapa de um, dois… todos. Não se tem notícia de alguém que não carregue pelo menos um desses itens na bagagem emocional.
Talvez fiquem guardados naquela zona de solidão mais íntima, onde temos dificuldade de pisar na companhia de quem quer que seja. Um território nem sempre amistoso que pode nos trazer medo do desconhecido, impotência, vergonha. É compreensível quando evitamos chegar muito perto desses nossos foros íntimos, seja por temer surpresas seja pela dúvida se são legítimos, se são justos para os outros quando entram em cena por geração espontânea ou nos valemos deles como artifícios para tentar encurtar caminho.
Ninguém escapa! Figuras públicas são iguaizinhas a nós nesse negócio, algumas até no território do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Gente como Barack Obama, Benjamin Franklin, Brad Pitt, Cameron Diaz, Charles Dickens, Charles III, Cristiano Ronaldo, Fátima Bernardes, Heidi Klum, Jennifer Aniston, João Gilberto, Leonardo da Vinci, Lionel Messi, Marilyn Monroe, Penélope Cruz, Roberto Carlos, Roger Federer, Steve Jobs, Tiger Woods, Tom Cruise, Winston Churchill…
Barack Obama sempre joga basquete nos dias de eleições nos EUA. O rei inglês Charles III não toca superfícies, a mania por canetas chega ao ponto de dispor de um funcionário para cuidar delas, tem um assento sanitário só para ele e usa apenas uma marca de papel higiênico. Leonardo da Vinci não dormia noites inteiras, preferia sonecas a cada quatro horas. Roberto Carlos não veste preto ou marrom, não fala certas palavras – “mal”, “inferno” –, não assina documentos na Lua minguante, não começa nada no mês de agosto, detesta o número 13 e tem de sair pela mesma porta que entrou. Winston Churchill gostava de conduzir reuniões completamente nu.
Interessante nos determos nos aspectos particulares nossos e dos outros. São ópticas diferentes e ética desigual. Fugimos da normalidade querendo que as manias, estratégias, superstições ou transtornos que carregamos nos transformem em seres notados, seja pela extravagância, seja por um ridículo bem estudado. Também pode ser algo inusitado que não percebemos quando surge e não fazemos de caso pensado. Em suma, questões premeditadas ou insondáveis do ego.
Numa caminhada pelo Parque da Cidade, em Brasília, ou no Parque da Redenção, em Porto Alegre, ou em qualquer parque numa manhã de domingo, andar no sentido contrário do fluxo natural dos caminhantes só pelo prazer de olhar nos olhos ao cruzar com todos eles, pode ser revelador. É possível observar tudo que se quer e chegar a conclusões diversas. Bonitos e feios, negros e brancos, gordos e magros, homens e mulheres sempre revelam que somos tão diferentes quanto iguais. Que dar bom-dia e um sorriso faz bem, mas não são levados muito em conta. Linha de corte para seguir em frente ora apanhando uma manga na grama ora se deliciando com um simples copo de água oferecido graciosamente por pessoas bonitas e saradas, em nome de uma empresa qualquer promovendo a própria imagem.
Nesse mesmo mundo em que diminuímos o valor de um bom-dia ou de um sorriso, somos bombardeados com aquela ideia de perfeição midiática que todos correm para tentar alcançar. Será que a ideia de perfeição em sua concretude não nos castra de forma inconsciente? Por que não dar de ombros para a perfeição de almanaque? Este patrulhamento subjetivo que nos faz pensar no outro de uma maneira submissa ou demasiadamente opressora faz parte de quê? Se acreditamos que nossa felicidade depende apenas de nós, ajamos sem culpa em favor dessa crença.
Em conversas agradáveis de finais de tarde, animadas por petiscos, bebericos e uma play list jazzística, um amigo confidenciava que, quando ainda era jovem, preferia levar o fora das garotas do que tomar a iniciativa do doloroso momento do rompimento, embora torcendo para que a reconciliação viesse logo no instante seguinte. Simples concordar com ele e dizer que esta estratégia não era exclusiva, mas fica a dúvida se seria mesmo estratégia. Superstição? Mania? Transtorno… talvez não, não chega a tanto.
Não é tão estranho pensar que cada um de nós tem um parafuso a menos ou a mais, o que nos torna ainda mais comprometidos com as decisões inesperadas e confusas que tomamos. Por óbvio, tudo dentro de uma normalidade idealizada que nos faz defender, com unhas e dentes, aquilo que julgamos certo independentemente da opinião do outro. Dizemos que é nossa personalidade, nosso jeito de ser. Se for mania, estratégia, superstição ou transtorno, tudo bem. Mesmo? Nem tanto, vá lá! Mas são nossos. Somos assim. O que fazer?
HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural
KALUNGA MELLO NEVES, escritor e brincante