Reprodução/Eldorado/Grupo Estado
Mortes desnecessárias
- Heraldo Palmeira
Vai se calar a voz paulistana que anunciava sem rodeios “Informação relevante e música de qualidade”
A morte é sempre um mistério difícil de compreender e conviver. Há ainda aquelas mortes que não deveriam ser morridas, simplesmente desnecessárias. Essas, quase sempre, retratam a dura realidade que mostra o quanto estamos rasteiros. Essas, quase sempre, nos matam um pouco.
A antena poderosa da Pauliceia Desvairada, difusora de tantas riquezas e tendências que nos ajudaram a montar o patrimônio cultural do país, está transmitindo uma péssima notícia: o fechamento da Rádio Eldorado FM em 15 de maio. É um anúncio fúnebre para a arte e cultura, a lápide de mais um capítulo da nossa perda total.
A Eldorado caminhava para 70 anos de uma existência autoexplicativa — estreou em 4 de janeiro de 1958. Estamos falando de uma das mais tradicionais emissoras de rádio de São Paulo, que conquistou um lugar exclusivo na vida cultural da cidade sempre associada à excelência musical e rigor informativo. Ela se transformou em espaço de descoberta e divulgação do que há de melhor no ambiente da arte e do jornalismo cultural, marcando gerações de ouvintes como verdadeiro patrimônio intelectual e voz da cena cultural.
O dial perde uma emissora altamente qualificada, formadora de repertório, vitrine especial para artistas, com programação primorosa, profissionais de excelência, vozes que soavam amigas de longa data. Aquela que nos acarinhava com o slogan “A rádio dos melhores ouvintes”. Um compromisso tão levado a sério que gerou o Selo Eldorado de Qualidade, curadoria musical para chancelar originalidade, perfil de estilo, apuro sonoro e destacar lançamentos, novidades e resgates históricos com alta qualidade artística. Alguns passos de volta no tempo e ouvíamos “Eldorado FM: informação relevante e música de qualidade”. Uma síntese dessa verdadeira instituição cultural que estamos perdendo.
Em comunicado oficial o Grupo Estado, dono da emissora, informou as razões para encerrar as atividades da Eldorado. “Nos últimos anos, sobretudo após a pandemia, observamos mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio. O crescimento acelerado das plataformas de streaming musical e a transformação no uso dos meios lineares têm impactado de forma estrutural o papel das rádios FM tradicionais”. Há também o fim da parceria com a Fundação Brasil 2000, que detém a frequência 107,3 no dial de FM onde está a sintonia da rádio, assunto que poderia morrer por antecedência.
Mais adiante é informado que a marca Eldorado permanecerá ativa e esse movimento faz parte de um reposicionamento estratégico do grupo. “O encerramento da operação de radiodifusão da Eldorado não representa o fim de sua marca. A Eldorado seguirá presente em projetos especiais e eventos, preservando seu papel como referência cultural. Alguns de seus principais programas, incluindo iniciativas como Som a Pino e Clube do Livro, serão redesenhados e adaptados para novos formatos, com ênfase em vídeo e distribuição digital”. Fica no ar a impressão de que foi perdido o momento da transformação da emissora completa e agora poucos retalhos serão espalhados em locais ainda incertos e não sabidos. E uma equipe de alto nível vai ser demitida, como é praxe.
É legítimo que o Grupo Estado faça movimentos para se adaptar a novos tempos que têm se mostrado implacáveis com o setor da mídia, exigindo profunda mudança na forma de existir e rápida adaptação às novas demandas. Entretanto, quando uma Eldorado, mesmo operando no maior mercado do país, simplesmente deixa de existir e merece apenas explicações lacônicas do seu controlador, algo ruim está embutido nessa perda. É a certeza de que a mediocridade cultural não para de ganhar terreno porque temos problemas de produção, gestão e consumo.
Produção Somos um povo de enorme diversidade cultural que garante ao país continuar um celeiro de criatividade em todas as artes. O problema está na baixa profissionalização no ambiente da produção primária, além da dificuldade de divulgação. A consequência é que boa parte dos artistas promissores apresenta seu trabalho de forma precária, e poucos conseguem ultrapassar fronteiras locais e regionais para chegar ao mercado nacional.
Gestão É interessante analisar o perfil de quem ocupava direção e cargos criativos das empresas e instituições de cultura e mídia nas décadas anteriores. Em todos os pontos do país havia uma predominância de especialistas ou pessoas talentosas, cultas, informadas, o que gerava impacto direto na qualidade do conteúdo distribuído e na consequente formação intelectual da sociedade, garantindo uma simbiose calibrada entre oferta e procura de dois lados equanimemente capacitados.
Falando da Eldorado, “a marca, que pertence ao grupo Estadão, tem uma imagem mais relevante e consolidada que a do próprio jornal. Sempre trouxe música e informação de forma criativa e estruturada, com projetos que se estendem a eventos e ações patrocinadas”, analisa Alessandro Saade, consultor de inovação e professor da ESPM. Mesmo com esse significado dentro do grupo, a rádio sequer tinha uma equipe comercial própria, e fica evidente que seus dirigentes não eram habilitados para compreender o mundo multiplataforma que estava chegando e mudaria o cenário.
Por isso foram simplesmente varridos do mercado e ainda reconheceram a própria incapacidade de gestão escrevendo no comunicado oficial “observamos mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio. O crescimento acelerado das plataformas de streaming musical e a transformação no uso dos meios lineares têm impactado de forma estrutural o papel das rádios FM tradicionais”. Na verdade, fica no ar a impressão de que nunca enxergaram a enorme oportunidade que o novo modelo de operação trouxe para o mercado de comunicação — não é à toa que grandes grupos financeiros entraram no jogo das plataformas multimeios.
Consumo O processo de retroalimentação entre formação intelectual da sociedade e queda de qualidade do conteúdo distribuído deixou o mainstream à vontade para impor cada vez mais um verdadeiro lixo cultural de baixo custo de produção, que se tornou dominante porque tem alto grau de aceitação numa população com capacidade crítica limitada. Para garantir a manutenção desse status quo, estamos assistindo a um inédito processo de desqualificação e descaracterização dos meios tradicionais de acesso a conteúdo e informação — livros, discos, rádios, jornais, revistas, televisão, teatro, cinema, museus, mostras, festivais de arte — em favor de meios digitais que dão suporte à desinformação das redes sociais.