Geralt/Gerd Altmann/Pixabay
Música de araque
- Heraldo Palmeira
“Eu canto porque o instante existe | E a minha vida está completa | Não sou alegre nem sou triste: sou poeta” (Cecília Meireles)
Corria o ano da graça de 1939 quando Cecília Meireles, ícone do modernismo brasileiro, publicou seu livro Viagem, no qual constava como parte integrante o poema Motivo — depois viria a ser musicado pelo cantor Raimundo Fagner como tentativa de contornar uma apropriação vergonhosa de versos dela no poema Marcha (do mesmo livro), que ele incluiu na música Canteiros, sucesso do seu disco de estreia lançado em 1973 pela gravadora Philips com produção de Roberto Menescal. Até hoje, ela lidera quase todas as listas de músicas mais tocadas do repertório do artista.
Não colou a desculpa esfarrapada de que ele mesclou sua própria inspiração. A questão foi judicializada pelas filhas e herdeiras de Cecília Meireles contra a gravadora e o cantor, Canteiros foi retirada do universo das reproduções/reedições do mundo do disco e dos shows do cantor, de 1983 a 1999, por violação de direitos autorais. A canção só foi liberada novamente depois que a Sony Music, nova gravadora do cantor, firmou robusto acordo financeiro com as herdeiras. Elas exigiram também uma nova gravação (incluída no álbum Raimundo Fagner Ao Vivo) e o nome da poeta devidamente incluído nos créditos dos álbuns fabricados a partir dali.
Naquele mesmo 1973, outro álbum lendário guardou uma controvérsia menor. O compositor Nelson Cavaquinho deu a inédita Folhas Secas para Beth Carvalho gravar. A gravação foi realizada, mas o produtor Roberto Menescal contrabandeou a música para o álbum Elis 73, que Elis Regina estava gravando — depois, ele reconheceu publicamente a manobra. Beth apostava na música para ampliar seu mercado do samba para a MPB, mas a gravação de Elis chegou primeiro às rádios e estourou, gerando enorme repercussão e mágoa duradoura na sambista oficialmente eternizada como madrinha do bloco Cacique de Ramos.
Esses episódios e suas consequências são absolutamente humanos e envolveram o público identificado com esses artistas. Mesmo que tenham gerado desavenças e dores, havia interesse e torcida coletivos para que tudo terminasse bem, porque, no fim, todos desfrutavam dos belos resultados obtidos por músicos e cantores nos estúdios. Nos dois casos, Canteiros e Folhas Secas entraram na trilha sonora definitiva de várias gerações.
Tudo isso aconteceu sem qualquer interferência dessas “milacrias” tecnológicas que andam chamando de inteligência artificial. Ou seja, os imbróglios sequer teriam existido caso entrasse em cena valores exclusivamente humanos, que máquina alguma jamais terá: discernimento e arbítrio. Bastaria o espertalhão ter dado o devido crédito a quem de direito e uma das grandes canções brasileiras não carregaria essa mancha absurda. Também é inegável que se o mesmo produtor não tivesse pulado o muro, não teríamos no repertório nacional o mesmo clássico em dose dupla, com Elis e Beth.
Mas as “milacrias” estão aí. Nos últimos anos, a vida cotidiana foi invadida por novas tecnologias surpreendentes, e vozes poderosas passaram a vender como nosso último destino algo que é simples ferramenta de apoio à inteligência humana. Bastaram dois compassos da nova partitura para que hordas bovinas de novidadeiros — flagelo presente em todas as épocas da História — saíssem cumprindo seu papel de exército fiel e dependente que nunca questiona, apenas abraça o risco sem analisar um possível afogamento futuro.
Sou da geração analógica, sempre mantive interesse pelo mundo ao redor, mas utilizo as novidades tecnológicas apenas na medida do meu interesse. Tanto que estou escrevendo estas palavras diante de uma tela iluminada e teclas, sem que nada disso, tantas facilidades sejam suficientes para me desviar do querido vício diário de rabiscar sobre papel usando a indefectível BiC Cristal azul. Por algum motivo que sequer identifico, talvez simples questão de lógica, sempre estive mais inclinado a concordar com os estudiosos que reafirmam a ideia de que as tecnologias só devem ser vistas como ferramentas auxiliares da inteligência humana.
No campo da Inteligência Artificial (IA) há uma linha de pensamento que considero bastante esclarecedora: todas essas plataformas são apenas mecanismos de pesquisas estatísticas e rapidez impressionante para coletar dados. Ou seja, tudo que você pede é buscado em bases de dados armazenadas em servidores e a resposta chega com velocidade de ficção científica. E o conceito de “inteligência” não se firma exatamente porque não há ali um ser superdotado com imensa capacidade de conhecimento, apenas processamento computacional direcionado. Construa um prompt ruim e a resposta se revelará na mesma medida.
O fato é que, em pouco tempo, a IA passou a dominar segmentos produtivos e as conversas cotidianas nas sociedades espantadas. Os preguiçosos profissionais e todo mundo que adora um atalho comemoraram a “sabedoria” de chatbots dando respostas rasas em cima da bucha. Para que pesquisar, aprender e desenvolver qualquer coisa se há uma criatura invisível que faz tudo de graça e sem demora? Melhor, nunca dedura ninguém pela falsa impressão de sabedoria que será ostentada diante de plateias humanas encantadas. Enfim, o nirvana!
Esse nirvana tecnológico foi invadindo todos os segmentos e obviamente não pouparia o mundo da arte e cultura. De repente, músicos e produtores começaram a criar e produzir utilizando apenas IA a partir de prompts bem definidos — “crie uma balada, use vocais mistos, som de piano tal na base, solo de guitarra tipo tal, baixo sem trastes, bateria escovinha, voz principal masculina com pegada da música negra americana”… E por aí vai! Em pouco tempo, orgulhosos, começaram a exibir músicas perfeitas, mas frias, sem qualquer emoção e a léguas do ambiente criativo em que vivem e de onde extraíram seus elementos criativos originais. Sim, falta nessas obras a verdade humana, as pequenas imperfeições que máquina alguma conseguirá repetir com a dose de imperfeição que nos caracteriza.
É fácil comparar esse nirvana de perfeições digitais com o saudoso grupo Nirvana, de tanto sucesso. Comandado por Kurt Cobain, o trio sempre foi criticado pela técnica simples e imperfeições nas performances de seus músicos. Mesmo assim, criou um tremendo impacto emocional a ponto de se tornar um ícone da cultura pop que permanece vivo décadas depois do próprio fim, em 1994.
Há uma pergunta incontornável: que IA chegaria perto dos Beatles, mesmo com todas aquelas dificuldades técnicas impostas pelo tempo em que criaram sua obra monumental? Que IA criaria algo tão impactante como a Mona Lisa? Não precisa se mexer na cadeira, sabemos que qualquer IA é capaz de copiar Beatles e Da Vinci em segundos. Difícil é enganar quem se interessou em entender e reverenciar a forma como tudo aquilo foi produzido. Qualquer músico, audiófilo, pintor ou curador experiente vai rir de quem se mexeu na cadeira.
Os mais velhos repetiam o sábio ditado “Tudo demais é veneno!” e ele sacudiu o mundo da música a partir da Austrália, quando o DJ Josh Fawaz resolveu produzir um cover de Like a Prayer, clássico do repertório de Madonna. Em pouco tempo, a música liderou a programação das rádios e chegou ao topo das paradas australianas. Até que veio à tona — e tudo sempre vem — que o “artista” utilizou bateria e vocais gerados por inteligência artificial.
Foi o estopim para que a Associação Australiana da Indústria Fonográfica (ARIA, na sigla em inglês) tomasse uma decisão histórica: banir das suas paradas de sucesso oficiais todas as músicas criadas inteira ou predominantemente por IA. Doravante, só entrarão nos rankings oficiais as produções “substancialmente humanas”, aquelas em que vocais principais e instrumentos primários sejam obrigatoriamente executados por pessoas. A partir de agora, será tolerado apenas o apoio criativo de tecnologia generativa em elementos secundários como mixagem e masterização.
No horizonte, a ARIA acena com a remoção de músicas de forma retroativa, retirar colocações no ranking e premiações ou certificações obtidas antes da medida. “Isso dá a todos que lançam música na Austrália uma regra clara a seguir. Conclamamos todas as partes que têm papel na decisão sobre quais músicas são tocadas e promovidas para o público australiano, especialmente as emissoras de rádio, a apoiar a criação artística humana e implementar mudanças semelhantes em seus próprios códigos”, disse a diretora-presidente da ARIA Annabelle Herd.
Como esperado, a decisão encaminha a polêmica a respeito de produções que começam a desafiar a indústria musical e plataformas de streaming nas questões de direitos autorais e conexos. O rol de problemas é intenso e também passa pela sobrevivência de artistas e músicos de carne e osso. Afinal, empenharam anos de estudos para ver o som autoral que produzem copiado sem qualquer cerimônia e reproduzido em novas gravações. Sem contar que, em pouco tempo, gerações inteiras perderão o interesse profissional por esse mercado de trabalho, que sempre foi fonte reveladora de talentos.
É este ponto que alimenta outra parte da polêmica global da indústria fonográfica, já que os sistemas de IA vêm sendo treinados há anos pela utilização de gravações de diversos artistas, sem qualquer consentimento dos detentores dos direitos autorais e conexos. A consequência é que cada vez mais músicos e compositores vêm usando essa biblioteca infinita e progressiva para compor, arranjar, gravar, mixar e masterizar suas criações, até que eles mesmos se tornem as próximas vítimas.
O assunto deverá ganhar ainda mais corpo porque a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês), que representa o setor em todo o mundo, abraçou a questão e já anunciou modelos a serem aplicados em paradas de sucesso de diversos países. Isso inclui a obrigatoriedade de serviços de IA legais e autorizados e a proibição de manipulações artificiais de reproduções — algo que recentemente mobilizou o Brasil com a polêmica sobre a nova versão com “limpeza do som” daquele mesmo álbum Elis 73, da sagrada Elis Regina. Desta vez, nem ela nem Beth Carvalho podem ser ouvidas a respeito.
A questão da IA na arte precisa ser muito mais ampla. Já cantou Caetano que “é proibido proibir” pura e simplesmente. Se hoje a humanidade convive com produções humanas e digitais, é necessário que os atores assumam posições claras que permitam às pessoas escolherem o que mais lhes agrada, respeitados todos os direitos legais dos criadores das obras. Dentro dessa perspectiva, o Spotify já anunciou um novo selo chamado “AI Persona”, onde vai “identificar de forma clara produtores de conteúdo gerados por inteligência artificial e que não correspondem a pessoas reais”, segundo o site alemão DW.
O novo jogo está posto a tal ponto que, segundo disse à revista Billboard um executivo da Apple Music, uma de cada três músicas novas que chegam às plataformas são majoritariamente criadas por IA. Ou seja, estariam em desacordo com as novas regras da ARIA. Noutra frente, a plataforma Deezer e o Instituto Ipsos realizaram um estudo que apontou um resultado preocupante: 97% dos entrevistados não conseguiram diferenciar músicas produzidas por humanos e IA.
O maior embuste desse ambiente pantanoso se revelou ao mundo como Sienna Rose, que explodiu nas plataformas digitais e mereceu a seguinte apresentação no perfil do Spotify: “Sienna Rose é uma cantora de neo soul cuja música mescla a elegância do soul clássico com a vulnerabilidade do r&b moderno. Com uma voz terna, expressiva e profundamente emotiva, ela cria canções que soam atemporais e íntimas ao mesmo tempo — como confissões silenciosas envoltas em melodias”. O texto, de tão ruim, não poderia ser mais constrangedor e tem a cara destes tempos em que ninguém sente pudor por escrever impunemente.
Sienna conseguiu cerca de 3 milhões de ouvintes mensais e teve algumas músicas simultaneamente listadas entre as mais tocadas no Spotify. A farsa era tão convincente que a cantora e atriz Selena Gomez se encantou com o trabalho e compartilhou nas redes. Até que a plataforma francesa Deezer identificou padrões sintéticos idênticos em todas as músicas e confirmou matematicamente que a cantora não existia. O mais vergonhoso é que, durante a “carreira”, o avatar da “cantora” mostrou que ela era ruiva, depois morena, e se tornou viral quando virou mulher negra. Uma demonstração explícita de como é fácil enganar multidões de alienados digitais — algo que se repete na polarização política. Os administradores do perfil da “moça” correram para remover a ruiva e a morena, mas era tarde demais. No mundo digital há apenas uma verdade absoluta: nada pode ser apagado definitivamente.
Esse episódio endossa algo mais grave no resultado da pesquisa Deezer/Ipsos: quando diferenças humanas e tecnológicas num mesmo produto de consumo regular como a música não são reconhecidas pelos consumidores, fica claro que a sociedade está se distanciando rapidamente dos seus melhores valores culturais elementares e do simples encantamento com as artes, com o belo de qualquer origem. É o que se vê nas ruas.
Cada vez mais gerações são incapazes de demonstrar sensibilidades sensoriais, como se tivessem colocado em “modo avião” estímulos ambientais básicos reconhecíveis pelos cinco sentidos — audição, olfato, paladar, tato e visão —, linguagem corporal e equilíbrio emocional. Logo chegam à próxima fase do jogo, o desinteresse por tudo que esteja fora das telas dominantes, a ponto de não se importarem quando são enganadas com narrativas ou embustes, e o caso de Sienna Rose é emblemático. O degrau seguinte é aquele em que as pessoas ao redor deixam de fazer qualquer diferença e a empatia vai sendo apagada dos dicionários. Game over!