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Nosso preço
- Kalunga Mello Neves
Nos mais diversos ambientes, com pessoas de todas as classes sociais, amigos chegados, ocasionais e não, tenho certeza de que todos nós já conversamos sobre este assunto. Às vezes, mais etilicamente divagando, o tema em questão ficava um tanto vulgar; outras vezes, filosoficamente nos expressando, dava gosto ver tantos discípulos de grandes mestres discorrerem com sapiência sobre ele. Até hoje, na solidão de noites quaisquer, em volta com o saca-rolha e a garrafa de vinho tinto, me vem a pergunta: qual é o meu preço?
Todos nós temos um preço? Tem ele a ver com o meu valor e os meus valores? Com meus princípios? Com minha ética e honestidade? Ou será que já aderi, seguindo o andar da carruagem, à nova ordem mundial de banalizar conceitos “antigos” que só me castram e cerceiam o meu direito democrático de ser o que bem quero? Ah, sim, agora o egocentrismo está na moda, na moda está a famigerada e simpática “Lei de Gérson”*. Alguém lembra dela?
E se me oferecerem um cargo de confiança para trabalhar com quem ideologicamente nada tem a ver comigo? Uma quantia bem interessante? Peço ajuda à minha consciência para me ajudar na decisão. Ela, prontamente, se coloca ao meu dispor, e me aconselha a aceitar, desde que eu não me corrompa e faça a minha parte sem me comprometer com o sistema, com o qual eu não concordo. Entenderam?
“Eu jamais faria isso!”, alguém pode me dizer. Eu respondo prontamente: você já teve a oportunidade de fazê-lo? Hipocrisia à parte, juntando o que presenciamos e o que sabemos pelo noticiário e mídias sociais, fica claro que quase sempre a ocasião faz o ladrão. Sim, é triste concluir sobre a dificuldade de negar a expressão antiga “todos nós temos um preço”. É ainda pior testemunhar tantos e cada vez mais tantos afirmando categoricamente aos quatro ventos que não estão à venda por preço nenhum. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três…
*Lei de Gérson: expressão popular que teve origem numa campanha publicitária dos cigarros Vila Rica (1976), onde o ex-jogador de futebol e tricampeão mundial Gérson de Oliveira Nunes, o Canhotinha de Ouro, defendia de forma positiva o conceito de levar vantagem na hora de escolher um produto dentre os concorrentes. No papel de garoto-propaganda ele dizia “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também”. A fala terminou associada ao “jeitinho” brasileiro de quem quer se dar bem sempre, uma representação resumida da malandragem e da corrupção.
Tempos depois, Gérson declarou seu arrependimento por ter feito o comercial porque sua imagem ficou associada a um comportamento negativo. Um segundo anúncio foi produzido e o texto tentava explicar que levar vantagem não é passar ninguém para trás, é chegar na frente. Sem sucesso.
*KALUNGA MELLO NEVES, escritor e brincante
Veja aqui
Comercial Vila Rica https://www.youtube.com/watch?v=fh9u_amafFI