Por Heraldo Palmeira
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31 de julho de 2026

Notas da Copa

Alameda/IA

Notas da Copa

  • Heraldo Palmeira

Desde o apito final de Espanha 1×0 Argentina, a Copa do Mundo 2026 é apenas mais uma página da história do futebol. A participação de 48 países distribuídos em três países-sede (Canadá, EUA e México) disputando 104 jogos ampliou sua condição histórica de maior evento do planeta, sem qualquer comparativo ou concorrente próximo. Para sua organização, a FIFA reservou US$ 3,75 bilhões (R$ 19,05 bilhões).

É preciso lembrar que a FIFA tem mais países filiados do que a Organização das Nações Unidas (ONU) com seus Estados-membros. No placar, FIFA 211 x ONU 193. Oito “gols” de saldo — a FIFA aceita territórios, ilhas autônomas e regiões que não são nações independentes, mas ostentam federações de futebol. Além disso o Reino Unido encorpa a contagem porque seus quatro membros (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) são contados separadamente.

Testemunhamos a edição mais lucrativa que a FIFA já registrou, com previsão de arrecadação de US$ 8,9 bilhões (R$ 45,2 bilhões), cerca de US$ 2 bilhões (R$ 10,1 bilhões) a mais em relação ao Mundial de 2022, no Catar. Com tamanho reforço de caixa, o faturamento da Velha Senhora do futebol no período 2023 – 2026 deverá bater os US$ 13 bilhões (RS 66 bilhões). Ela promete reinvestir nada menos que US$ 11,6 bilhões (R$ 58,9 bilhões) no desenvolvimento do futebol global — o primeiro ato é o total de US$ 871 milhões (R$ 5 bilhões) distribuídos entre os participantes, que já chegaram ao torneio com valor mínimo garantido de US$ 12,5 milhões (R$ 63,5 milhões) cada.

Esses números superlativos são resultado de um processo de crescimento que envolve a Copa do Mundo Feminina 2023, Copa do Mundo de Clubes 2025 e à expansão da Copa do Mundo 2026 (a primeira com 48 países participantes). Talvez pela enorme paixão que o futebol envolve, não é de hoje que muita gente critica o modelo de negócio que caracteriza a atuação econômica da FIFA. Entretanto, é importante considerar que a instituição é de caráter privado e, por isso, sujeita apenas à legislação que ordenam o mercado empresarial.

A Copa é mesmo uma locomotiva econômica, um ambiente em que os principais segmentos — direitos de transmissão, venda de ingressos e hospitalidade — giram sempre na casa dos bilhões de dólares. De acordo com dados do Bank of America, os gastos dos visitantes fizeram as transações com cartões de crédito subirem 6,3% nas cidades-sede.

O setor de alimentos e bebidas nos estádios festejou o consumo médio per capita de US$ 100 (R$ 508), quase o dobro registrado em jogos da poderosa NFL, segundo a Bloomberg. Além disso, os números registrados pelo turismo em cidades fora do circuito das partidas também impressionaram — nesses locais, as transações com cartões aumentaram 16,7% em razão do fluxo de visitantes.

Antes da Copa, muito se falou dos preços astronômicos dos ingressos como fator de esvaziamento dos estádios. O que se viu foi um fluxo enorme de público em todos os jogos, muitos deles com lotação esgotada. É importante lembrar que alguns têm capacidade superior a 80 mil pessoas, já que são utilizados em outros esportes de enorme popularidade entre os americanos.

Esta edição da Copa trouxe uma novidade que dividiu opiniões: as pausas obrigatórias para hidratação, uma em cada tempo do jogo. Oficialmente, a medida foi determinada para minimizar o efeito do calor e da umidade sobre os jogadores, mas seus detratores enxergaram apenas uma nova oportunidade para aumentar o faturamento com ações publicitárias/comerciais.

No passado, Diego Maradona previu que, no futuro, o jogo de futebol teria quatro tempos de 25 minutos para atender a interesses comerciais. Virou presente. Ele foi profético exatamente quando a FIFA anunciou a escolha das três sedes da Copa 2026, afirmando que os americanos queriam mudar o formato do jogo em busca de lucro, criando um novo espaço para mais anúncios/ações comerciais nos canais de transmissão.

Sob o aspecto técnico, muitas partidas ganharam uma nova face na disputa, pois as pausas serviram também como oportunidades para as comissões técnicas transmitirem modificações na estratégia de jogo em razão do que observaram na primeira metade de cada tempo.

A ampliação do número de países, além de expandir a participação de povos e culturas, trouxe momentos muito agradáveis para os fãs do futebol. Seleções de menor tradição como África do Sul, Arábia Saudita, Argélia, Austrália, Áustria, Bósnia e Herzegovina, Cabo Verde, Catar, Coreia do Sul, Costa do Marfim, Curaçao, Egito, Escócia, Gana, Haiti, Irã, Iraque, Japão, Jordânia, Marrocos, Noruega, Nova Zelândia, Panamá, República Democrática do Congo, República Tcheca, Senegal, Suíça, Tunísia, Turquia e Uzbequistão trouxeram pluralidade e alegria à disputa, um elevado espírito de honra à camisa e orgulho por estarem representando suas nações e suas histórias.

Um ponto nevrálgico que tem se repetido em todas as ligas também esteve presente: as arbitragens e suas controvérsias, inclusive com omissões inacreditáveis do VAR. A jogada mais destacada pela mídia esportiva e nas redes sociais foi o pisão violento que o argentino Lionel Messi aplicou na panturrilha do zagueiro argelino Aïssa Mandi. Mas o juiz polonês Szymon Marciniak se limitou a marcar falta comum e ignorar as justas reclamações do time africano.

A mídia especializada em peso defendeu que o lance era digno de cartão vermelho puro e simples, mas o VAR manteve silêncio obsequioso e “sua senhoria” sequer aplicou o cartão amarelo ao famoso agressor. Muitos comentaristas afirmaram que, tivesse Messi sido devidamente expulso naquele momento — eram apenas os primeiros 30 minutos da participação argentina na Copa —, talvez o mundo não testemunhasse o vexatório festival de catimba, jogo violento e agressões que a Argentina protagonizou em todas as suas partidas no torneio, algo muito agravado na partida final. Tudo isso terminou gerando uma onda de suspeitas em relação às arbitragens dos seus jogos e à relação entre FIFA e Messi, algo bastante negativo para o futebol.

Diante de tudo que aconteceu, inclusive pelas repercussões extracampo até de foro político, há quem acredite que o futebol argentino deverá tirar algumas lições dessa campanha para tentar melhorar a imagem que saiu bastante arranhada. Alguns até pensam que a unanimidade negativa conquistada pelo papelão na final apenas supurou a falta de desportividade, de capacidade de perder, de fair play, que sempre foram confundidas como raça em campo. Outros esperam que os árbitros finalmente se sintam amparados para agir de forma mais severa contra os excessos da Albiceleste, em razão do repúdio público generalizado contra práticas antidesportivas que foram sendo normalizadas como “estilo de jogo”.

De concreto, a FIFA abriu uma série de processos disciplinares relacionadas com a participação da Argentina no torneio. São diversas investigações envolvendo a Associação do Futebol Argentino (AFA) — a CBF deles —, jogadores e comissão técnica, todos já notificados e com prazo de defesa em andamento.

De tantos, os motivos foram enfileirados em dois grupos. Coletivos: atrasos, quebra de protocolos de organização e segurança, gestos e músicas discriminatórios (jogadores e torcida). Individuais, por agressão: Nahuel Molina (duas ocorrências), Leandro Paredes (três ocorrências), Roberto Ayala, auxiliar técnico (uma ocorrência). Thiago Almada responderá por conduta antidesportiva.

Não faltará assunto para a FIFA daqui até 2030, quando o mundo vai se reunir novamente em torno de uma bola de |futebol. Será mais uma grande festa, ampliada pelas comemorações do centenário da Copa do Mundo — a primeira foi realizada no Uruguai, em 1930.

Futuro A Copa do Mundo 2030 será disputada em seis países de três continentes, decisão aprovada por aclamação pelos 211 países que integraram o Congresso da FIFA — a FIFA tem mais países filiados do que a Organização das Nações Unidas (ONU) com seus 193 Estados-membros.

Os países-sede serão Espanha, Portugal e Marrocos, mas a FIFA resolveu incluir três jogos de abertura comemorativos do centenário do evento. Essas partidas ocorrerão no Uruguai (primeiro campeão, em 1930), Paraguai e Argentina — uma em cada país na primeira rodada —, de 8 a 12 de junho de 2030. A partir de 13 de junho, os demais 101 jogos serão realizados na Espanha, Portugal e Marrocos.

A grande final será em 21 de julho de 2030 e segue sendo disputada por Espanha (Madri, estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid) e Marrocos (Casablanca, Grand Stade Hassan II, em construção, de propriedade do governo). O estádio marroquino será o maior do mundo, com capacidade para 115 mil pessoas.

Não faltará assunto para a FIFA depois do apito final da Copa do Mundo 2030. E tudo se repetirá até o mundo se reunir novamente em torno de uma bola de futebol. Será mais uma grande festa, com cifras ainda mais astronômicas em jogo, até porque estamos falando da Copa do Mundo 2034, cujo país-sede está montado em petrodólares: a Arábia Saudita.

História A primeira Copa do Mundo foi realizada em 1930 no Uruguai, vencida pelo anfitrião (Uruguai 4×2 Argentina na final). Não houve Eliminatórias e apenas 13 países participaram, todos por convite direto da FIFA. As seleções vieram da América do Sul (7), Europa (4) e América do Norte (2) — Argentina, Bélgica, Bolívia, Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Iugoslávia, México, Paraguai, Peru, Romênia e Uruguai.

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