Por Heraldo Palmeira
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3 de abril de 2025

RAQUEL NAVEIRA O médico “gentecista”

Reprodução/O Médico/Samuel Luke Fildes

O médico “gentecista”

  • Raquel Naveira

Tive a oportunidade de ler o ensaio intitulado Papel Cristão do Médico no Exercício Profissional, de autoria do médico e escritor Rubens Amaral. Ele cria o termo “gentecismo”, pensamento e filosofia que compreende uma série de atitudes cristãs na relação médico/paciente. São os valores éticos e morais do cristianismo alicerçando a prática médica, avançando para o exercício do amor fraterno. É o médico vocacionado que ama gente, que tem profundo respeito pelo ser humano, que age com compaixão e misericórdia, que se coloca no lugar do outro, que faz o paciente se sentir amado, energizado, curado. Para ser “gentecista” é preciso ter uma formação integral, humanística.

Tudo isso me lembrou a leitura de um pequeno e precioso livro, O Médico, do pedagogo e poeta Rubem Alves. Rubem afirma que o corpo é um delicado instrumento musical. É preciso cuidar dele, para que ele produza música. Médicos e enfermeiros são ao mesmo tempo técnicos e mágicos, a quem é dada a missão de consertar os instrumentos e despertar neles a vontade de viver.

Rubem foi inspirado pelo famoso quadro O Médico (foto), pintado em 1891 pelo pintor britânico Samuel Luke Fildes (1843-1927), que se encontra na Tate Gallery em Londres. O quadro mostra um médico do período vitoriano a observar uma criança gravemente enferma, enquanto os pais olham impotentes à distância. O foco da obra é o médico preocupado e interessado, e a criança doente, com o resto da composição nas sombras.

Fildes pintou o quadro como uma homenagem ao médico prestativo e devotado que assistiu o seu filho até a hora da morte. Para que a tela fosse a mais real possível, reproduziu no seu ateliê a sala de sua casa, palco da morte de seu herdeiro.

No quadro, a paciente é uma menina iluminada pela luz de um lampião. Uma menina deitada, com febre, olhos fechados. É uma menina e não um velho. A morte dos velhos é parte da ordem natural das coisas: depois do crepúsculo segue-se a noite. É triste, mas não é trágico. Mas a morte de uma criança é uma dor insuportável, uma mutilação.

Uma menina lutando com a morte. Num canto, o casal, pai e mãe, nada podem fazer. A mãe debruça-se sobre a mesa. O marido, de pé, pousa a mão sobre o ombro da esposa, pobre mãe desamparada. Ao lado da menina, assentado, o médico que atendera ao chamado da família. Ele medita com o queixo apoiado sobre a mão. Não medita sobre o que fazer, tudo já foi feito, todos os recursos médicos foram utilizados. Ele permanece e espera. Talvez ore. Também sofre.

Conheço esse quadro e já o vi na sala de um consultório. Eu era menina e estava doente, reumatismo infeccioso. Amei o médico que me atendeu pela sua solidariedade. E me curei daquela doença.

Antigamente, a simples presença do médico irradiava vida. Havia relações de afeto que ligavam o médico a seus pacientes. Os médicos sabiam da gravidade de seu destino. Havia sofrimento e medo, mas os médicos não ficavam estressados. As batalhas produzem pureza, coesão, integração ao corpo e à alma. As pessoas pensavam que o médico era um santo. Hoje são comuns os processos contra médicos por imperícia. Ser médico passou a ser um risco. O médico perdeu sua aura sagrada, tornou-se um mero profissional, um prestador de serviços, que consta no catálogo do convênio. Os médicos sofrem por saudade de uma imagem que não existe mais.

Neste ponto, nada melhor do que uma palavra bíblica: “A vós, que temeis o meu nome, o sol da justiça nascerá e trará cura debaixo das suas asas.” (Malaquias, 4:2). Sol da Justiça… que expressão! O Sol simboliza o Pai, o princípio masculino, ativo, a inteligência cósmica, a vitalidade. Que esse Sol da Justiça traga cura e brilhe sobre nós.

Creio que muitos médicos tenham na arte um encontro profundo consigo mesmos, pois a arte é conexão com a alma, as sensações, os sentimentos. É forma de alívio para as dores do cotidiano. Traz autoconhecimento, liberta dos males físicos, psíquicos e emocionais, dá novo sentido à existência, garante que a vida tenha significado. A literatura, em particular, é uma arte poderosa, psíquica e idiomática. Mente e palavra. Dentro de nós vivem a música, a filosofia, o misticismo, a ética. O princípio ético é a reverência pela vida. Tudo o que é vivo tem direito de viver. Nenhum sofrimento pode ser imposto sobre as coisas vivas, para satisfazer o desejo dos homens.

Arte e dor estão ligados. A dor é o que existe de mais terrível na condição humana. Há dores da alma, como o medo que paralisa a vida. A doença, filha do corpo, tem uma função iniciática: por meio dela se chega a um maior conhecimento de nós mesmos. São sonhos que nos dão lições de sabedoria. Todas as coisas belas do mundo são filhas da doença. O homem cria a beleza como remédio para sua doença, como bálsamo para o seu medo de morrer. Pessoas que gozam de saúde perfeita não criam nada. A criação é fruto de sofrimento.

Como escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, “Pensar é estar doente dos olhos.” Deus criou o mundo porque estava doente de amor, num impulso criativo. A doença vem como emissária da morte e da perda. Tudo fica evanescente, efêmero como bolhas de sabão à nossa volta. Os objetos banais ficam luminosos. Todos os artistas são doentes. Transformar-se num artista é ficar mais bonito, mais amado. O que dizer da saúde mental excitante de pessoas lúcidas e profundas como Nietzsche (ficou louco), Fernando Pessoa (bebia muito), Van Gogh (suicidou-se), Cecília Meireles (tinha uma leve depressão crônica), Maiakóvski (suicidou-se)? E deixaram obras fantásticas.

Tudo que é belo, perfeito, precisa terminar, findar, morrer. Como o pôr do sol, uma dança, um beijo. O amor prefere o crepúsculo e a luz de velas. Sempre me perguntam qual o melhor horário para escrever poesia e respondo: às seis da tarde, hora do lusco-fusco, do cair da noite.

A Poesia é dor, arte, beleza. Adélia Prado escreveu: “A poesia é tão triste. O que é bonito enche os olhos de lágrimas. Por prazer da tristeza, vivo alegre.” A vida é uma entidade estética. Morta a possibilidade de sentir alegria diante do belo, morre também a vida – ainda que a parafernália dos médicos continue a emitir seus bipes. Vida e morte não são inimigas. São irmãs. Chegada e despedida.

É bom saber que há ainda médicos “gentecistas”, que buscam o humanismo, que penetram no mistério integral do ser humano, na revolução que se faz com poesia e alegria.

Está no Eclesiastes, 9:7: “Vai, portanto, come a tua comida e alegra-te com ela. Bebe o teu vinho com um coração feliz, veste-te sempre de branco e que não falte óleo perfumado nos teus cabelos. Goza a vida com quem amas todos os dias da tua vida… Pois Deus já aceitou o que fizeste”.

RAQUEL NAVEIRA, escritora

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