Reprodução/FIFA
O último tango
- Heraldo Palmeira
A soberba argentina engoliu uma trolha descomunal na final da Copa do Mundo 2026. Afinal, a Espanha não tomou conhecimento da existência dos hermanos em campo. Eles não viram a cor da bola e só conseguiram finalizar uma única vez durante o jogo. Nenhuma surpresa. No Mundial inteiro, todos os adversários de La Furia Roja finalizaram apenas dez vezes contra sua meta, enquanto, apenas naquele jogo, a bicampeã completou 12 finalizações contra o gol da Albiceleste. A goleada merecida só não aconteceu porque o time campeão não tem um goleador, e a arbitragem…
O genial Messi foi inteiramente anulado e a Argentina sentiu na pele o que será o futuro sem ele em campo, o que pode explicar o desabamento emocional do técnico Lionel Scaloni na entrevista pós-jogo. Aliás, Messi bateu o centro para iniciar o jogo e só tocou novamente na bola 15 minutos depois. A Espanha fez uma marcação impecável e sem qualquer tipo de deslealdade contra o camisa 10 adversário.
Há quem acredite que La Pulga ainda poderá jogar a Copa 2030, quando estará com 43 anos, mas a experiência de Cristiano Ronaldo agora, aos 41, mostrou que nem sempre a vontade é o bastante. E que ninguém esqueça, o português é um atleta fora do comum, não à toa chamado de “Robozão”, muito mais preparado fisicamente do que o argentino — Portugal está atravessando o desmame do ídolo sem muito drama, até porque tem uma geração de ótimo nível para continuar a própria história, e demonstrou em campo que pode jogar bem sem CR7.
Há sempre um tom de último tango quando entram em cena ídolos e paixões coletivas. Basta lembrar de um rancoroso Diego Maradona, sem conseguir disfarçar o incômodo enquanto Messi começava a se firmar na seleção. Em 2018, além de declarar que o jovem talento preferia jogar videogame a conversar com os companheiros de time, perdeu a linha de forma cruel: “É inútil tentar transformar em líder um homem que vai ao banheiro 20 vezes antes de um jogo”, desdenhando dos alegados problemas emocionais que o novo camisa 10 enfrentaria sob grandes pressões.
O mesmo Maradona que, depois de não ter qualquer relevância como treinador da seleção, tentou nocautear um assustado Scaloni que estava assumindo o comando da Albiceleste, naquele mesmo 2018, afirmando que o novo técnico não tinha capacidade para o cargo. “Não é sequer capaz de dirigir no trânsito. O problema é que se acha técnico e quer ir ao Mundial. Pode ir, mas ao Mundial de Motovelocidade. De futebol, não”, praguejou o outrora astro-rei dos pampas.
O tom de tragédia tão comum aos argentinos se enche de lágrimas, porque começa a se apagar o sol que Messi representava como orgulho nacional e reconhecimento internacional para um país polarizado, sofrido e angustiado — indústria em forte recessão, fechamento de empresas tradicionais, desemprego, grande retração na renda familiar e aumento vertiginoso da informalidade.
A partida final indignou o mundo por mais uma arbitragem desastrosa. O esloveno Slavko Vincic, do quadro de elite da FIFA, tem larga experiência internacional. Atua em competições da UEFA, como a Champions League, e apitou alguns jogos na Copa como Brasil 1×1 Marrocos. Mas começou a decisão tentando deixar o jogo mais solto, algo que sempre tende a descambar para a violência, e irritou gregos e troianos conversando demais, principalmente durante os agarra-agarras dos escanteios, algo que poderia ser resolvido com um cartãozinho amarelo para os mais efusivos.
Os dois gols anulados da Espanha são mais um exemplo das aberrações das arbitragens. Um impedimento — regra completamente ultrapassada — marcado por milésimos de qualquer medida de distância e uma trapaça pura e simples do manjado Otamendi, que sempre entra em campo para tumultuar, catimbar, agredir adversários e intimidar juízes, como fez mais uma vez com brilhantismo. “No gol anulado, o pisão no pé do Otamendi, parece que alguém deu um tiro nele da arquibancada. Foi um pisão acidental, um pequeno toque no pé dele, um pisão acidental e ele voa no ar. Isso é efetivamente trapaça”, indignou-se Steve McManaman, ex-jogador do Liverpool, Real Madrid e Manchester City, durante uma mesa-redonda após o jogo. Aliás, pisões, socos e pontapés nada acidentais fazem parte da tática de jogo dos argentinos e de outros vizinhos sul-americanos, paraguaios e uruguaios em destaque.
A partida final também indignou o mundo pela costumeira falta de fair play dos argentinos. Não bastasse a pancadaria que patrocinam em todos os jogos, onde misturam catimba, intimidação e violência — a expulsão de Enzo Fernandes é autoexplicativa e vai custar US$ 15 mil (R$ 76,7 mil) à Associação do Futebol Argentino (AFA) —, eles se superaram ao fim do jogo. O jornal espanhol ABC foi claro a respeito: “Socos, chutes, golpes de judô, ameaças e de costas para o campeão: a maneira desprezível da Argentina de perder, com várias agressões a jogadores da Espanha e a recusa em vê-los erguer a Copa do Mundo”. Ainda bem que o juiz assistiu a tudo e expulsou Paredes por agredir os espanhóis Eric García e Gavi. É o mesmo jogador desleal que distribuiu socos e pontapés em todos os jogos de que participou, e que deveria ter recebido cartão vermelho durante a partida.
A questão da violência é tão intrínseca aos hermanos que eles são a primeira seleção a ter um jogador expulso em uma final de Copa — Pedro Monzón (1990) —, e com a entrada de Enzo Fernandes na galeria passaram a liderar o ranking de expulsões (em finais).
A repercussão na mídia internacional foi implacável: “lamentável”, “decepção”, “não sabem perder”, “arrogante e violento”, “uma vergonha”, “completa e absurda desonra”, e muitas outras manifestações de repúdio. Restou um sentimento unânime de que a Argentina desonrou o futebol, o espírito esportivo e manchou o encerramento do maior evento do planeta. Ao fim da presepada, nenhum dos derrotados teve a delicadeza de comparecer à zona mista para conversar com a imprensa. Seria pedir demais!
A FIFA abriu investigação oficial para analisar as agressões argentinas, a partir da súmula do árbitro e das imagens de vídeo. Paredes poderá receber punições severas, desportivas e financeiras. De acordo com o Artigo 36 do Código Disciplinar da FIFA (CDF), o jogador poderá ser afastado dos gramados por algumas partidas ou até meses. Membros da comissão técnica como o ex-jogador Roberto Ayala (flagrado agredindo Olmo) também estão sob risco de punição. Tomara não esqueçam Almada e o assistente técnico Walter Samuel — “valentões assistentes” de Paredes nas agressões a Eric García e Gavi —, e Romero, que desfechou um soco no peito de um jogador espanhol que corria para se juntar aos companheiros na comemoração pela conquista.
O grande problema das punições desportivas determinadas pela FIFA para esses casos é que só serão aplicadas em jogos oficiais da Seleção Argentina. Assim, dificilmente alcançarão um jogador que marcou a carreira com violência e, aos 32 anos, caminha para pendurar as chuteiras. Já os membros da comissão técnica poderão estar desempregados em dezembro, quando termina o atual contrato do treinador Lionel Scaloni, e sairão livres de qualquer incômodo punitivo caso não sejam pelo menos multados.
A AFA também deverá ser multada pelo comportamento vergonhoso dos jogadores durante a cerimônia de premiação, quando deram as costas ao pódio dos vencedores.
Talvez tudo fique exatamente como está, o que não é difícil no ambiente de compadrio que domina os gabinetes que comandam o futebol. Até porque são os presidentes das federações que elegem o presidente da FIFA, e Gianni Infantino está de olho grande na eleição marcada para 18 de março de 2027, já que pretende continuar no cargo.
O que mudou foi a percepção a respeito da Argentina. Se antes havia o natural encantamento com o futebol e a garra, cada vez mais gente passou a torcer o nariz por entender melhor que, apesar de Maradona e Messi, catimba, trapaça e violência nunca foram sinônimos de garra e amor à camisa. Uma visão que se torna ainda pior pelo contraponto elegante e leve da Espanha, legitimamente horrorizada com sua antiga colônia, que evitou qualquer revide. Simples questão de linha.
No fim das contas, a segunda estrela pessoal sonhada por Lionel Messi foi parar na camisa da Furia Roja. Como um eclipse que apaga o Sol.