Por Heraldo Palmeira
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7 de março de 2026

HERALDO PALMEIRA Pequenas ilhas

Flávio Rezende

Pequenas ilhas

  • Heraldo Palmeira

“Soltei os panos, sobre os mastros no ar | Soltei os tigres e os leões, nos quintais | Mas as pessoas na sala de jantar | São ocupadas em nascer e morrer” (Gilberto Gil-Caetano Veloso)

Viver em pequenas ilhas. A imagem pode ter um apelo paradisíaco, sossegado, exclusivo… Sobram adjetivos que levam o pensamento a um ambiente protegido pelas águas e distante de tudo, quase sempre associado a uma vida cheia de exclusividades, um objeto de desejo para poucos.

Umas abrigam pequenas comunidades que às vezes padecem de doenças emocionais pelo isolamento, outras são endereços particulares. Uma delas, Fisher Island (Miami, EUA), é exclusivíssimo refúgio de milionários e celebridades, inacessível para pobres mortais. Totalmente independente do continente, o acesso só é possível de barco ou helicóptero. A infraestrutura é completa (mercados, restaurantes, escolas, serviço médico, praia particular) e a segurança opera com protocolos similares aos de chefes de Estado, com controle absoluto sobre funcionários e fornecedores. Ali está a maior renda per capita do país e os moradores passam por rigorosa seleção prévia em que origem lícita da fortuna e discrição são pontos fundamentais, algo que diferencia o local de outros redutos extravagantes de multimilionários na mesma região.

Um raio que inunda de brilho

Uma noite perdida

Um estado de coisas tão puras

Que movem uma vida

Porque seu coração é uma ilha

A centenas de milhas daqui

Viver em pequenas ilhas pode estar a milhas de distância, não passar de uma simples metáfora. Ou o modelo de existência que está na moda não é uma ilha cercada de urbanidades ao invés de água? Longe de ser um acidente geográfico, não seria um desastre emocional mais do que anunciado, diante do qual parecemos ilhéus inertes, desistentes, náufragos de nós mesmos?

É difícil compreender o fato de tanta gente reclamar de tanta coisa cotidiana e todos continuarem aturando os incômodos que parecem instalados em todos os lugares. Por que esse silêncio inquietante é tão forte e evita questionamentos e reclamações, como se fosse mais prático fingir que está tudo bem?

Estamos na era onde uma indústria paralela de saúde não parece muito saudável com suas práticas e restrições em busca de músculos e formatos pouco naturais, repletos de suplementos que ninguém tem muita ideia do que se trata, muito menos dos efeitos colaterais de longo prazo. Mas, consagrados por todo mundo depois de massificados pelo marketing e pelo boca a boca de “especialistas” de redes sociais, se tornam irresistíveis ao “maria vai com as outras” que é meio de vida dos influenciadores digitais.

Época de prazeres efêmeros, da vaidade dos procedimentos estéticos que começam a transformar as pessoas em monstros deformados, onde lábios e maçãs do rosto vão ignorando biotipos e se igualando numa feiura assustadora. Tempos de carências afetivas que transformam gatos, cachorros e outros bichos em “filhos” com atenções que a maioria dos humanos, mesmo parentes de sangue, jamais sonharam.

Temos uma sociedade que parece abduzida pela futilidade como válvula de escape, que oferece graciosamente o território fértil para toda sorte de manipulações afetivas, econômicas, políticas e sociais, com discípulos fervorosos vestidos em paramentos de bobos alegres. A ordem é vender, seja um produto que a “vítima” não precisa, seja a narrativa que vale ouro para quem inventa, seja a milésima (e manjada) pirâmide financeira, seja a fé que não salva ninguém.

Estamos diante de uma sociedade de eventos, onde tudo é transformado em festa. Nunca esteve tão atual a filosofia do pão e circos (do latim penem et circenses), consagrada na Roma Antiga pela distribuição de pão e promoção de espetáculos gratuitos para distrair a população, amenizar seu descontentamento, evitar questionamentos e manter tudo exatamente como está.

A sorte é que a História se repete periodicamente também como força reparadora e a arte sempre salva a humanidade. Que os tempos futuros revertam tanta inversão de valores, que haja menos espertalhões indicando o caminho e mais gente sabendo exatamente onde pisa.

Trecho incidental A Ilha (Djavan)

*HERALDO PALMEIRA, escritor e produtor cultural

Veja no link

Panis et Circenses   https://www.youtube.com/watch?v=gI9bp98eADQ&t=25s

Ouça no link

A Ilha   https://www.youtube.com/watch?v=GZn6e4wSF24

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