Divulgação/Nike/CBF
Postura
- Heraldo Palmeira
Há poucos dias estávamos apoquentados lendo estatísticas que davam saudade, e aperreados com as nuvens de dilúvio que não saíam do nosso céu. O medo era deixar de ser a única seleção a participar de todas as Copas do Mundo – uma espécie de consolo para tantos vexames.
Brasil e Equador jogaram 37 vezes, com 28 vitórias do Brasil, sete empates e apenas duas derrotas brasileiras – a última em 17 de novembro de 2004, pelas Eliminatórias da Copa 2006. Um histórico animador que cercou o pontapé inicial do novo momento da Seleção Brasileira.
Brasil e Paraguai jogaram 85 vezes, com 51 vitórias do Brasil, 22 empates e apenas 12 derrotas brasileiras – a última em 10 de setembro de 2024, nestas Eliminatórias da Copa 2026. Também um histórico animador que cercou o segundo movimento do novo momento da Seleção Brasileira.
Enfim, a Canarinho entrou em campo sob nova direção. No banco, o técnico italiano Carlo Ancelotti, que dispensa apresentações: campeoníssimo! Com a bola rolando, um jogo enfadonho em Guaiaquil que terminou empatado em 0x0 e uma partida mais animadora em São Paulo onde vencemos por 1×0.
Finalmente, a classificação para a Copa 2026 é realidade, um detalhe que faltava – e que falta andava fazendo – para sossegar o ambiente da Seleção e facilitar o trabalho de preparação para o Mundial do próximo ano. Mantida a honrosa condição de única seleção a participar de todas as Copas, teremos ainda dois jogos pelas Eliminatórias – contra Chile e Bolívia, em setembro – e, a partir de outubro, diversos amistosos contra outras seleções estão no cronograma de preparação em busca do hexacampeonato.
Depois de dois jogos sem o espetáculo que a torcida brasileira sempre deseja, vieram as análises esperadas: o time não teve tempo de treinamento, o grupo inicia novo momento, Ancelotti está tomando pé da situação, mudanças estão em curso inclusive no ambiente interno do time… Tudo verdade.
Há outra verdade: o time agora não é mais a peneira rasgada por onde sempre passavam gols dos adversários para balançar nossa vergonha. A defesa mudou completamente de figura, apareceu um menino na quarta zaga que ninguém conhecia e anda jogando feito gente grande. Tudo indica que, numa daquelas arqueadas de sobrancelha, o homem achou o zagueirão Alexsandro – prefere Alex Ribeiro – jogando o fino da bola no Lille, num rincão do norte da França.
Os rabugentos de sempre reclamam que a Canarinho está com cara de Azurra por causa da defesa sólida. Os ajustes não devem começar por aquele setor? Afinal, se não tomar gol, basta fazer um para ganhar o jogo. Os apressadinhos não perdem por esperar: daqui a pouco a reforma completa vai passar pelo meio-campo e ataque. E aí, muita gente vai engolir o choro.
Está claro que Ancelotti caiu nas graças do torcedor, pela homenagem da arquibancada da Neo Química Arena, o território do Corinthians. Na coreografia de gente, o homem já virou Carletto e foi cumprimentado pelos 66 anos de idade naquela noite. E no campo impecável, a primeira vitória com os sinais iniciais do que esperamos para o futuro da Canarinho.
Até aqui se ouviu um argumento sempre presente para tentar explicar a fase horrorosa que vimos testemunhando desde o pentacampeonato (2002): bagunça! A partir daqui algo mudou da água para o vinho. Afinal, agora está à beira do gramado um senhor que masca chiclete, arqueia a sobrancelha esquerda e é muito maior do que qualquer dos moleques que estão correndo atrás da bola vestidos de amarelo.
A postura dos jogadores claramente mudou, acabou aquele clima de maloca, chuteiras coloridas e o campeonato de cabeleiras horrorosas. Até o home office Neymar já guardou o reco-reco porque entendeu que o lema agora é outro: ou joga ou vaza. Felizmente, foi-se o tempo dos felipões, tites, dinizes e dorivais, sempre prontos a passar a mão em cabeças de vento.
Carlo Ancelotti está em campo e o jogo do futuro é imprevisível. O Brasil pode nem ganhar a Copa do Mundo 2026, mas já ganhou vergonha na cara. Uma conquista e tanto para quem tinha virado zona.