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Resto de desordem
- Heraldo Palmeira e Sylvio Maestrelli
Eliminatórias terminadas, estamos na Copa do Mundo 2026! Em razão do bom jogo anterior muita gente encarou a TV para ver Brasil x Bolívia, mesmo tendo de aturar comentários de experts como Roger Flores e Paulo Nunes (duas ex-nulidades do futebol) e narrações dos chatos e repetitivos filhotes de Galvão, que continuam sem pai nem mãe.
Eu justifico minha recaída de sofá e TV: durante esses últimos dias tive o desprazer de ver algumas seleções históricas jogando, e deu dó. Vi as tetracampeãs: uma Alemanha recheada de jogadores apenas medíocres (sem nenhum craque em campo) perdendo da Eslováquia, e uma Itália, ausente das últimas duas Copas, hoje perigando disputar a repescagem (a Noruega poderá se classificar na chave). Sua frágil defesa – cadê as lendárias fortalezas do catenaccio (“porta trancada” em italiano)? – tomou quatro gols da Seleção de Israel, apesar da vitória por 5×4 em um jogo maluco.
Depois da derrota da Argentina (sem Messi e Di Maria) para o Equador, foi possível perceber que mesmo com jovens jogadores em ascensão como Almada, Echeverri e Mastantuono, não passa de uma seleção apenas razoável embora muito bem montada taticamente. Claro, lá também existem os cronistas pachecos sempre prontos a superestimar tudo, mesmo sabendo que o subestimado craque Di Maria está aposentado da albiceleste e ninguém é capaz de prever como Messi estará na hora do Mundial, em razão da decadência física trazida pela idade.
A França também está num momento de transição e, mesmo contando com um bom grupo, já sente a falta de figuras fundamentais em suas últimas conquistas como Lloris, Varane, Matuidi, Kanté, Griezmann e Pogba.
Pensando que Inglaterra, Portugal e Holanda sempre tremem em momentos decisivos de Mundiais, mesmo quando contam com alguns dos melhores jogadores em atividade, é permitido ao brasileiro sonhar uma final na próxima Copa com a Espanha – a melhor do mundo hoje – sem levar goleada, o que seria um feito fantástico para esse magérrimo futebol que nos representa na atualidade.
Como de costume, conquistamos nossa vaga enfrentando altitudes insanas, catimba, violência e arbitragens fartamente duvidosas que compõem desde sempre a realidade do futebol sul-americano. Tudo bem, não dá para ignorar todos esses “adversários” extracampo, mas nossos problemas vão muito além.
Não dá mais para suportar Paquetá – absolvido do caso das apostas sabe Deus como! – ciscando pela intermediária, sempre distribuindo botinadas nos adversários, levando seus cartõezinhos e sendo tratado como estrela pelos narradores pachecos! E no rol de semelhantes vão desfilando outras nulidades que ninguém sabe direito quem são, até chegar na insistência com Richarlison, que um gol magnético no Catar criou o brilho fugaz daqueles cantores de uma música só – Absyntho (Ursinho Blau Blau), Aroldo Santos (Batida de Limão), Carlos Moura (Minha Sereia), Gilson (Casinha Branca), Gilson de Souza (Pôxa), Hermes Aquino (Nuvem Passageira), João Só (Menina da Ladeira), Kátia (Lembranças), Lady Zu (A Noite Vai Chegar), Peninha (Sonhos) e Sarajane (A Roda).
Ainda somos obrigados a aturar o brucutu Casemiro (um Chicão com menos garra) ou Bruno Guimarães (a versão piorada do horroroso Zinho desta geração perdedora). Não bastasse o desmonte da arte do futebol pelos pés de tantos canastrões, a mídia permanece infestada por “viúvas” do ex-jogador Neymar, que ainda sonham vê-lo em campo numa Copa do Mundo. É irritante ver tantas resenhas lacrimejadas por carpideiras pagas a peso de ouro pelas emissoras, que insistem em cantar essa lamúria nas bancadas.
Quando a gente pensa que o circo de horrores chegou ao fim, vem um tal Luiz Henrique dizendo em entrevista que Garrincha tinha o estilo dele. Sim, é de perder a fala mesmo! Nem Pelé, o sobrenatural da bola que podia tudo, ousaria tamanha barbaridade sobre Mané. Alguém deveria contar a esse rapaz – exilado no futebol russo – o que foi a atuação de Garrincha exatamente contra a Rússia na Copa 1958. A marcação sobre ele começou com o pobre e devastado lateral-esquerdo e foi sendo reforçada com um, dois, três, quatro adversários. Em vão! Vendo as imagens, talvez ele entenda que nada o aproxima do fabuloso Anjo das Pernas Tortas.
É preciso cair na real e pensar na árdua tarefa de Carlo Ancelotti. Esperto, o italiano driblou a pachecada corporativista da mídia – sempre metida a escalar jogadores – dizendo que tem mais ou menos 70 atletas no radar para compor a lista final de convocados para a próxima Copa. E, numa jogada de mestre, informou ao fantasma que assombra o Santos em deprimente fim de carreira que o paternalismo acabou: ou joga bola ou assiste pela TV. O cirúrgico “toma que o filho é teu” que ninguém teve peito de entregar. O epílogo perfeito para o prólogo de René Simões.
Carletto deve lamentar que as atuais disputas por posição não incluam seu amigo Falcão, Cerezo, Batista, Andrade, Adílio, Alex, Djalminha, Ronaldinho Gaúcho. Muito menos Gérson, Rivelino, Ademir da Guia, Paulo César Caju, Dirceu Lopes, Afonsinho… Resignado, tem que se virar com a limitação técnica da turma disponível.
Só nos resta lembrar do cinema e ficar à espera de um milagre, daqueles que abrem o mar com um cajado. É certo que mantivemos a escrita de único país a participar de todas as Copas, mas sabemos que desta vez foi a duras penas, com nossa pior participação na história das Eliminatórias – a simples lembrança das lambanças de Fernando Diniz e Dorival Júnior no comando do time provoca calafrios.
Carimbamos o passaporte aos trancos e barrancos num preocupante 5º lugar, salvos pelo fato de a FIFA ter inchado a Copa do Mundo para incluir 48 seleções. Não fosse esse atacadão da bola, teríamos ido para a repescagem e talvez enfrentássemos a Nova Caledônia – ainda bem que nossa “sorte” em sorteios é notória – com boas chances de golear e chegar finalmente à América do Norte de peito estufado por ufanismo.
O caminho estreito até a disputa do sonhado hexacampeonato nos coloca no divã das Copas 2006, 2010, 2018 e 2022, onde caímos nas quartas de final. Ou 2014, quando chegamos mais longe naquele vexame monumental dos 7×1 para a Alemanha numa semifinal jogada em casa! Algo muito distante de performances mais parecidas com o “país do futebol” que brilhou em três torneios seguidos – papamos o tetra em 1994, fomos vice-campeões em 1998 (o drama de Ronaldinho na final contra a França nos ajudou a perder) e ganhamos o penta em 2002.
Para evitar falsas expectativas, é bom não perder de vista que a Seleção ainda não se livrou totalmente do clima de desordem, resultado devastador dos anos infindáveis de desmandos administrativos, futebol ruim e panelinhas ao redor de Neymar. A chegada de Ancelotti é tão salutar porque quebra esse ciclo desvirtuoso. Carletto é maior do que qualquer jogador e está acostumado a tratar com egos planetários, inclusive acomodando confortavelmente bundas estreladas ou presunçosas em bancos de reserva, ou mostrando o caminho da roça. O tipo de autoridade incontestável que faz muito bem ao ambiente de vestiários repletos de bolsinhas Louis Vuitton e marmotas capilares.
Ao fim do jogo contra a fraquíssima Bolívia, e diante daquele desempenho ridículo que desmerece a tradição do único país pentacampeão do mundo, jurei novamente, de pés juntos – e renovo o voto para a torcida do Giramundo –, nunca mais ligar a TV para ver a Canarinho. Cheguei ao ponto de a netinha mais nova me encurralar: “Vô, fica sofrendo pra quê?”. Estou com a nítida impressão de que aquele pinguinho de gente falou com a voz da razão.
Talvez eu passe a ouvir apenas os sons das transmissões trazidas pelo vento e me deixe guiar pelos gritos de gol que soarem em todos os cantos quando a Copa chegar. Como amores antigos agarram na pele, sei que não estou livre de uma recaída de sofá e TV quando a bola rolar. Afinal, não tenho culpa de ter nascido noutro tempo que passou infestado por deuses da bola. E não estou falando apenas de taças, pois a Seleção de 1982 também fala por mim. Claro que vou torcer, gosto de futebol desde sempre.